VERSÃO PARA DONOS DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Distúrbios digestivos em aves de estimação

PorTeresa L. Lightfoot, DVM, DABVP (Avian), Avian and Exotics Department, Florida Veterinary Specialists
Revisado/Corrigido jan. 2020 | Modificado abr. 2025
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As aves têm diversos distúrbios digestivos, incluindo infecções e parasitas, que podem causar problemas. A seção seguinte discute, em detalhes, alguns dos distúrbios mais comuns:

Levedura gástrica aviária (megabacteriose)

A levedura gástrica aviária (Macrorhabdus ornithogaster) coloniza o trato digestivo das aves. É mais comum em aves de estimação menores, como periquitos, tuins (parrotlets), agapórnis, calopsitas e tentilhões. Além disso, aves com sistema imunológico enfraquecido podem ser infectadas. Os sinais mais comuns de infecção são perda de peso crônica, regurgitação, letargia e diarreia. As fezes podem conter sementes ou grânulos não digeridos. A taxa de mortalidade varia de 10 a 80% das aves afetadas, dependendo da espécie e da estirpe da levedura. Em aves que se recuperam, pode ocorrer recaída e eliminação do organismo nas fezes.

O diagnóstico é feito pelo exame microscópico das fezes frescas. A identificação dos organismos auxilia no diagnóstico, mas estes podem ser eliminados em pequenas quantidades ou de forma intermitente, sendo necessária, portanto, avaliação repetida. Os objetivos do tratamento são reduzir o número de organismos e melhorar a saúde geral e o estado imunológico da ave. Para isso, o veterinário pode prescrever vários medicamentos. Essa doença pode ser transmitida entre aves.

Candidíase

A candidíase é comum e causada por uma infecção provocada pela levedura Candida albicans. Trata-se do mesmo organismo que causa candidíase oral (”sapinho”) em bebês humanos. Essa levedura é comum no ambiente e pode estar presente em pequenas quantidades no trato digestivo de uma ave normal. No entanto, em determinadas condições, pode causar doenças. Aves muito jovens, ainda não desmamadas, especialmente aquelas que estão recebendo antibiótico, podem desenvolver candidíase devido à imaturidade do sistema imunológico. Calopsitas recém-nascidas são consideradas as mais suscetíveis. Aves adultas em tratamento prolongado com antibiótico ou que sofrem de desnutrição ou outras doenças também podem desenvolver candidíase. Os antibióticos podem afetar a digestão ao eliminar as bactérias benéficas que vivem no trato digestivo, permitindo que outros organismos, como a Candida, se proliferem.

A candidíase afeta mais o papo, mas pode afetar também o estômago e o intestino. Além disso, pode afetar a pele, o trato respiratório e, raramente, o sistema nervoso central e outros órgãos. A gravidade da infecção depende da idade e do estado do sistema imunológico da ave. Uma ave muito jovem ou muito doente pode desenvolver uma infecção que se dissemina para o sangue, a medula óssea e outros órgãos.

A regurgitação de alimentos, a falta de apetite e os sinais gerais de doença podem ser causados pelo esvaziamento tardio do papo devido à candidíase. Algumas aves ficam com o papo inchado e cheio de muco. Aves adultas podem ter candidíase leve com poucos sinais de doença. Se a Candida estiver presente na boca, podem surgir manchas brancas. O veterinário poderá dizer se essas manchas brancas são causadas por candidíase ou por outra doença. O exame microscópico das fezes, do conteúdo do papo ou do material regurgitado pode revelar os organismos fúngicos.

Uma boa higiene, incluindo a limpeza e desinfecção da gaiola, do ninho e de todos os utensílios de alimentação, é fundamental para reduzir a quantidade de Candida no ambiente. Em pintinhos infectados por candidíase, o papo deve ser esvaziado com mais frequência, e eles devem receber menores quantidades de alimento até que o papo volte a funcionar normalmente. O veterinário pode prescrever medicamentos para auxiliar na eliminação eficaz da infecção.

Ganglioneurite aviária (bornavírus aviário/doença da dilatação proventricular, doença do emagrecimento das araras)

A ganglioneurite aviária (GA), anteriormente chamada de doença da dilatação proventricular ou doença do emagrecimento das araras, afeta não apenas araras, mas também muitas outras espécies de aves de estimação. Cacatuas, conures, papagaios do gênero Eclectus e muitas espécies africanas e asiáticas podem ser infectadas. Acredita-se que a condição seja uma reação autoimune em resposta à infecção por diversos agentes, incluindo o bornavírus aviário e algumas bactérias. Esses agentes infecciosos estimulam o sistema imunológico da ave a produzir anticorpos para combater a infecção, mas esses anticorpos também atacam os nervos da ave (chamados gânglios). Esse ataque autoimune aos órgãos saudáveis ocorre em aves da mesma forma que em humanos. Existem duas formas de GA, dependendo dos nervos afetados. Se os nervos do trato gastrointestinal forem afetados, o trato gastrointestinal não se contrai adequadamente para digerir os alimentos, e o estômago (proventrículo) fica dilatado. As aves afetadas apresentam sinais conhecidos como síndrome da dilatação proventricular, que incluem perda de peso crônica (frequentemente após um aumento inicial do apetite), eliminação de alimentos não digeridos (mais facilmente reconhecida quando sementes inteiras são encontradas nas fezes) e regurgitação. Essa condição costuma ser fatal porque a ave não consegue reter os alimentos e manter o peso. Se os nervos das asas e pernas forem afetados, a ave não consegue se levantar nem se empoleirar, e pode apresentar convulsões, tremores, fraqueza, falta de coordenação e cegueira com ou sem sinais gastrointestinais simultâneos.

O bornavírus, uma das causas da GA, pode ser transmitido da mãe para os filhotes e é contagioso de ave para ave apenas quando elas estão em contato próximo (alojadas na mesma gaiola ou compartilhando comida e água). A transmissão parece ocorrer por exposição às fezes de aves infectadas, mas outras vias podem existir. A desinfecção e a melhoria da ventilação são recomendadas e podem ajudar a reduzir a transmissão. O tratamento é para toda a vida e inclui o fornecimento de alimentos de fácil digestão e a administração de medicamentos anti-inflamatórios. O vírus não sobrevive por muito tempo no ambiente, portanto, uma boa higiene e luz ultravioleta ajudam a limitar a propagação da infecção.

Doença de Pacheco/papilomatose (herpesvírus psitacídeo)

O herpesvírus psitacídeo é o agente causador da doença de Pacheco e da papilomatose interna em papagaios. A doença de Pacheco causa uma inflamação viral no fígado e é observada com mais frequência em espécies do Novo Mundo (papagaios-da-Amazônia, araras, periquitos e papagaios-de-cabeça-de-falcão). A papilomatose interna ocorre em papagaios que sobreviveram à doença de Pacheco. Essa doença está associada ao estresse e costuma ocorrer quando há introdução ou realocação de aves, em aves com doença preexistente ou em aves que tenham se reproduzido recentemente. A doença tende a ser um problema que afeta todo o bando, especialmente em colônias de reprodução.

Ela é propagada pelo contato direto, pelo ar ou pela contaminação fecal de alimentos e água. Os sinais incluem diarreia, fezes esverdeadas, letargia, regurgitação, fraqueza e depressão. Protuberâncias cor-de-rosa, semelhantes a uma couve-flor, ou espessamentos de tecido chamados papilomas podem ocorrer em qualquer lugar, desde a cavidade oral até o trato digestivo e a cloaca. Os locais mais comuns, ou pelo menos os mais facilmente detectáveis, são a boca e a cloaca.

Os sinais dependem do local em que os papilomas se desenvolvem. Na boca, essas protuberâncias podem causar sibilo, dificuldade para engolir e respiração bucal. Mais abaixo do trato gastrointestinal, podem causar vômito, perda de apetite e emagrecimento. Na cloaca, podem ter a mesma aparência e ser confundidas com prolapso cloacal. Os papilomas podem ser vistos saindo da cloaca quando a ave fica estressada ou defeca. Podem ocorrer esforço para evacuar, presença de sangue nas fezes, flatulência e odor anormal nas fezes.

O veterinário pode tentar remover os papilomas cirurgicamente, mas eles tendem a reaparecer. O tratamento é de suporte. Não há cura permanente, mas é possível controlar os papilomas por vários anos. Uma vacina está disponível.

Parasitas gastrointestinais

A giardíase ocorre quando protozoários (parasitas microscópicos unicelulares) do gênero Giardia invadem o intestino. Ela afeta muitas espécies de aves, mas é mais comum em calopsitas. A transmissão ocorre quando cistos infecciosos são ingeridos, e as aves adultas podem ser portadoras. A Giardia pode causar diarreia, desnutrição e problemas na absorção de nutrientes. Em algumas aves, especialmente calopsitas, a Giardia pode causar coceira, fazendo com que a ave grite, arranque as penas ou cutuque a pele com o bico (observação: muitas outras causas podem fazer com que a ave arranque as penas). Na giardíase, as fezes podem ser maiores que o normal e ter uma aparência de “pipoca”. Se os filhotes forem infectados, podem ficar magros e com plumagem deficiente, chorar excessivamente para serem alimentados e morrer antes de emplumar. O veterinário geralmente prescreve um medicamento oral.

A tricomoníase em papagaios (conhecida como “frounce” em pombos e rolas ou cancro em aves de rapina, como gaviões, águias e corujas) também é resultado de infecção pelo parasita protozoário Trichomonas gallinae. É ocasionalmente observado em aves de estimação, principalmente em periquitos. Lesões branco-amareladas, semelhantes a queijo ou coalhada, aderem ao revestimento da boca, da garganta, do papo e do esôfago. As lesões podem não ser visíveis, mas os periquitos infectados podem apresentar sinais como aumento de salivação e regurgitação. A transmissão pode ocorrer por contato direto (como pais infectados alimentando os filhotes) ou por contato indireto (ingerindo alimentos ou água contaminados). O tratamento é feito com medicamentos orais.

Vários tipos de nematódeos estão presentes no trato digestivo de aves de estimação; Além disso, aves selvagens podem transmitir alguns nematódeos para papagaios criados ao ar livre. A transmissão ocorre quando as aves comem os ovos do nematódeo. Os sinais de infecção incluem perda de condição física, fraqueza, emagrecimento e morte. Em casos graves, o intestino pode ficar obstruído. O veterinário pode prescrever um medicamento para matar os vermes. Em climas quentes, onde a exposição em viveiros ao ar livre é mais provável, costuma-se realizar uma vermifugação de rotina com um desses medicamentos orais.

As tênias tornaram-se incomuns em aves de estimação, agora que a maioria é criada em cativeiro. Esses parasitas são mais comuns em cacatuas, papagaios-cinzentos africanos e tentilhões. As tênias são transmitidas de animais infectados por um hospedeiro intermediário que morde o animal ou entra em contato com o organismo da tênia a partir de fezes ou outras secreções e, em seguida, transfere o parasita infectante para um animal saudável. Os hospedeiros intermediários das tênias provavelmente são insetos e aranhas de vários tipos, minhocas e lesmas. Os sinais da doença raramente estão presentes, mas segmentos da tênia podem, por vezes, ser identificados nas fezes das aves afetadas. O veterinário pode prescrever um medicamento para matar as tênias, o qual pode ser administrado por via oral ou intramuscular. A recorrência é rara, a menos que a ave continue exposta ao hospedeiro intermediário.

Para obter mais informações

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