VERSÃO PARA DONOS DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Distúrbios pulmonares e das vias aéreas em aves de estimação

(Gripe aviária, gripe das aves)

PorTeresa L. Lightfoot, DVM, DABVP (Avian), Avian and Exotics Department, Florida Veterinary Specialists
Revisado/Corrigido jan. 2020 | Modificado jan. 2025
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Em aves de estimação, as doenças do trato respiratório são muito comuns. Elas podem ser causadas por bactérias, vírus, fungos e parasitas. É fundamental reconhecer e tratar essas doenças nos estágios iniciais, quando a probabilidade de o tratamento ser eficaz é muito maior.

Aspergilose

A aspergilose é a infecção fúngica mais comum em aves. Ela ocorre de duas formas. A primeira ocorre principalmente em aves jovens e aves recém-importadas e resulta da exposição a um grande número de esporos do fungo Aspergillus. A segunda forma, mais crônica, tem maior probabilidade de ocorrer em aves idosas mantidas em cativeiro. Alimentos, água e material de nidificação contaminados, associados à ventilação inadequada, são fontes de concentração de esporos. Os esporos de Aspergillus também estão amplamente presentes no meio ambiente. As aves que inalam os esporos podem transportá-los nos pulmões e sacos aéreos. A doença é desencadeada quando a ave fica enfraquecida ou estressada e seu sistema imunológico fica debilitado. A aspergilose já foi diagnosticada em muitas espécies de aves. A desnutrição prolongada, especialmente a deficiência de vitamina A, é a causa mais comum de enfraquecimento das defesas do sistema respiratório, o que predispõe as aves à forma crônica da aspergilose.

A aspergilose normalmente afeta o trato respiratório inferior. Embora os pulmões e sacos aéreos geralmente estejam envolvidos, a traqueia, a siringe (órgão vocal) e os brônquios também podem ser comprometidos. A infecção pode se espalhar do trato respiratório para outros órgãos (ossos, fígado, rins ou cérebro). Também podem ocorrer infecções nos olhos e na pele.

Os sinais de infecção na forma grave e aguda que afeta aves jovens e recém-importadas incluem perda de apetite e dificuldade respiratória. Pode ocorrer morte súbita. Uma congestão esbranquiçada e mucosa nos pulmões e sacos aéreos, bem como nódulos nos pulmões, podem ser observados durante o exame da ave. Os sacos aéreos podem inflamar, levando a uma condição às vezes chamada de aerossaculite.

Na forma crônica, podem ocorrer respiração ofegante, alteração na voz, falta de energia, depressão e emagrecimento. A infecção no trato respiratório pode ficar grave antes que sejam observados sinais. Uma infecção fúngica crônica ou extensa pode levar a alterações ósseas e malformação permanente na estrutura do trato respiratório superior. Caso o sistema nervoso central seja afetado, a ave pode apresentar falta de coordenação e paralisia.

Os sinais causados pela aspergilose são semelhantes aos observados em outras infecções respiratórias. O tratamento com medicamentos antifúngicos costuma ser bem-sucedido se a infecção for detectada em seus estágios iniciais. É importante consultar um veterinário sempre que a sua ave apresentar sinais de doença respiratória.

Para prevenir a aspergilose, é necessário manter sempre uma boa higiene, com a ventilação correta na gaiola ou no viveiro, e uma nutrição adequada.

Influenza aviária (gripe aviária)

A gripe aviária é causada por um grupo de vírus que se originaram em aves selvagens.

Um clado genético da forma grave chamada influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) — o clado 2.3.4.4b da linhagem eurasiática ganso/Guangdong (Gs/GD) — tornou-se uma grande preocupação não apenas porque pode infectar aves de produção, em cativeiro e selvagens, mas também porque tem o potencial de infectar pessoas e outros mamíferos.

O vírus Gs/GD pode se tornar uma ameaça mais importante para a saúde de aves e humanos porque, em comparação com outras cepas de gripe aviária, possui uma distribuição geográfica mais ampla e o risco de encontros com aves selvagens infectadas é maior.

Ao comprar uma ave, é importante saber sua origem e levá-la a um veterinário para verificar se ela tem alguma doença infecciosa. Os EUA impuseram restrições à importação de aves de estimação provenientes de locais afetados pela gripe aviária.

Propagação da gripe aviária

A gripe aviária é transmitida pelo contato direto com secreções respiratórias e fezes de uma ave selvagem, doméstica ou de estimação infectada. Cães e gatos podem ser infectados ao se alimentarem de carcaças de aves selvagens.

No início de 2024, descobriu-se que o genótipo específico B3.13 do clado 2.3.4.4b da linhagem Gs/GD do vírus H5N1 havia infectado gado leiteiro nos EUA, e sua disseminação de fazenda para fazenda foi associada à movimentação de vacas infectadas.

Sinais de gripe aviária em aves

Os sinais clínicos e a gravidade da gripe aviária variam dependendo da cepa do vírus e das espécies infectadas. Algumas cepas causam casos leves; outras causam casos graves com taxas de mortalidade de até 100%. Algumas aves infectadas podem não apresentar sinais clínicos e se recuperar; outras podem morrer subitamente sem apresentar sinais da doença.

As aves que apresentam sinais clínicos de doença respiratória devem ser imediatamente separadas das demais e examinadas por um veterinário, que pode diagnosticar a gripe aviária por meio do envio de amostras para detecção molecular do vírus para um laboratório de diagnóstico veterinário da Rede Nacional de Laboratórios de Saúde Animal (NAHLN).

Vacinas contra gripe aviária

Embora já tenham sido desenvolvidas vacinas para alguns tipos de gripe aviária em aves de produção, a vacinação de aves contra a IAAP requer aprovação emergencial do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). Em meados de 2023, o USDA começou a vacinar o condor-da-Califórnia (Gymnogyps californianus), espécie ameaçada de extinção; no entanto, a vacinação de aves de produção e de estimação não é permitida. Uma forma importante de prevenir a exposição ao vírus é evitar o contato entre aves domésticas e aves selvagens que possam ser portadoras do vírus.

Gripe aviária em gatos

Entre o final de 2022 e meados de 2023, foram relatados vários casos de infecção fatal pela cepa IAAP Gs/GD em gatos domésticos (nos EUA, Coreia do Sul, França e Polônia) e em um cachorro (no Canadá). A maioria desses animais afetados tinha acesso ao exterior e provavelmente foi infectada por contato direto ou consumo de carcaças de aves silvestres infectadas. Alguns dos gatos infectados na Polônia tinham acesso restrito apenas a ambientes internos, aumentando a possibilidade de exposição por meio da alimentação com frango cru contaminado. Como o vírus é eliminado pelas vias respiratórias e pelas fezes, a transmissão de gato para gato é possível, mas extremamente rara.

Os sinais clínicos da gripe aviária em gatos incluem apatia, perda de apetite, febre, dispneia, sinais neurológicos, sinais intestinais, icterícia e morte.

No início de 2024, foram relatadas mortes de gatos de celeiro em fazendas com gado leiteiro infectado. Os gatos foram infectados após consumirem leite cru (não pasteurizado) contaminado proveniente das vacas.

Precauções contra gripe aviária

Qualquer animal com suspeita de infecção deve ser isolado de outros animais de estimação, e quem o manusear deve usar equipamento de proteção individual (EPI) adequado, como luvas e máscaras. Após o contato com um caso suspeito, os responsáveis devem lavar as mãos com água e sabão.

Para minimizar a exposição quando a IAAP estiver presente em aves selvagens em uma determinada área, os proprietários devem manter seus animais de estimação dentro de casa, se possível, ou supervisionar seu acesso ao exterior.

Pneumonite por hipersensibilidade (asma das araras)

Um quadro clínico respiratório semelhante à doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) que afeta araras (principalmente araras-canindé) que é reconhecido há várias décadas. Essas aves têm um histórico de serem mantidas em ambientes mal ventilados com aves como cacatuas e papagaios-cinzentos africanos, as quais possuem uma grande quantidade de penas pulverulentas, que se desintegram em pó quando limpas, podendo irritar o trato respiratório de aves suscetíveis. Isso não significa que todas as araras devam ser mantidas em áreas separadas das cacatuas ou dos papagaios-cinzentos, mas é necessária uma boa circulação de ar e higiene do ambiente.

As aves que desenvolvem essa hipersensibilidade também podem apresentar infecções bacterianas ou fúngicas secundárias. O veterinário precisa realizar vários procedimentos para determinar se o problema respiratório de uma arara se deve a essa hipersensibilidade ou a outras causas. Em geral, são realizadas radiografias e hemogramas. Uma lavagem traqueal também pode ser realizada para verificar se existe uma combinação dessas doenças e determinar o tratamento adequado. A biópsia do pulmão é a única maneira de confirmar o diagnóstico.

Inicialmente, o melhor tratamento para uma ave que apresenta dificuldades respiratórias devido a essa condição é a administração de oxigênio. O veterinário também pode considerar o uso de glicocorticoides ou outros medicamentos anti-inflamatórios. Em longo prazo, o manejo requer qualidade do ar e ventilação ideais. Um bom filtro de ar (como um filtro HEPA) próximo à gaiola é indispensável. Crises recorrentes podem ocorrer e exigir nova hospitalização e tratamento, mas a mudança de ambiente e uma ventilação melhor reduzem as chances de recaídas graves. Geralmente, observa-se algum dano pulmonar permanente e intolerância ao exercício devido à fibrose intersticial (cicatrização) dos pulmões. As aves afetadas podem ter uma expectativa de vida mais curta.

A policitemia, um aumento na porcentagem de glóbulos vermelhos, é um achado muito comum em exames de sangue e pode ser o melhor método para detectar essa doença antes que ela se torne um problema perceptível.

Doença de Newcastle

A doença de Newcastle, causada por um paramixovírus, representa uma ameaça significativa para o setor avícola, mas também pode infectar aves de estimação. A transmissão ocorre por meio de aerossóis respiratórios, contaminação fecal de alimentos e água, contato direto com aves infectadas e contato com objetos inanimados que abrigam o vírus. Ela é rara cem aves de estimação nos Estados Unidos.

Os sinais de infecção incluem depressão, perda de apetite e de peso, espirros, secreção nos olhos ou nas narinas, dificuldade para respirar, diarreia amarelo-esverdeada brilhante, falta de coordenação, movimentos da cabeça para frente e para trás e espasmos. Em estágios tardios, podem ser observadas paralisia das asas ou pernas, movimentos involuntários ou espasmódicos, torção do pescoço e posição anormal da cabeça, além de pupilas dilatadas. As aves podem morrer repentinamente sem apresentar qualquer sinal.

Não existe cura e não é recomendado fazer tratamento. Em caso de suspeita, a doença de Newcastle deve ser comunicada às autoridades sanitárias estaduais e federais devido aos seus efeitos potencialmente devastadores em aves de produção. A vacinação é proibida em aves que entram nos Estados Unidos porque não elimina o estado de portador e dificulta a detecção do vírus durante a quarentena.

Parasitas respiratórios

Ácaros dos sacos aéreos são parasitas que podem ser encontrados em todo o trato respiratório das aves afetadas, mais frequentemente em canários e diamantes-de-Gould. Todos os estágios do ácaro são encontrados nos tecidos respiratórios. Em infecções leves, as aves geralmente não apresentam sinais; em infecções graves, observa-se dificuldade respiratória com ruídos agudos e estalos, espirros, movimento da cauda para cima e para baixo e respiração de boca aberta. Salivação excessiva também pode estar presente. Os sinais pioram com manuseio, exercício e outros tipos de estresse. A mortalidade pode ser alta em infecções graves. O veterinário pode prescrever um medicamento antiparasitário administrado por via oral ou por injeção.

Vermes da traqueia são parasitas que vivem na parede da traqueia, geralmente em tentilhões e canários. As aves infectadas podem ter dificuldade para respirar e abrem a boca em busca de ar. Os vermes da traqueia são raros em aves engaioladas, mas, quando presentes, podem causar morte por falta de oxigênio ou pneumonia. O tratamento eficaz é possível quando iniciado precocemente.

A sarcocistose é causada por um parasita protozoário que invade os tecidos moles do corpo e forma cistos no trato respiratório, nos rins, no tecido nervoso e, eventualmente, nos músculos. É causa de morte em muitos papagaios mantidos em gaiolas ao ar livre no sul dos Estados Unidos. Em áreas gravemente afetadas, até mesmo aves criadas em ambientes internos podem ser infectadas por alimentos contaminados. A infecção ocorre quando as aves são expostas a fezes de gambás infectados, geralmente transportadas por insetos, como baratas, ou por ratos que entram na ração das aves. As fezes desses hospedeiros são então consumidas pelas aves, podendo desenvolver-se uma doença rapidamente fatal. Uma alta taxa de mortalidade é observada em aves não tratadas, como cacatuas e papagaios-cinzentos africanos, papagaios Eclectus e outras espécies do Velho Mundo que não foram expostas a esse parasita. Os sinais de infecção podem incluir falta de energia, regurgitação passiva de água e anemia. O tratamento inclui cuidados de suporte com fluidos injetáveis, suplementação alimentar se necessário, tratamento para anemia e medicamentos antiprotozoários de uso prolongado.