Doenças da coluna vertebral e da medula espinhal incluem defeitos congênitos (discutidos anteriormente neste capítulo), doenças degenerativas, doenças inflamatórias e infecciosas, tumores, doenças nutricionais, lesões e traumatismos, distúrbios tóxicos e doenças vasculares.
Doenças degenerativas
A estenose lombossacral degenerativa é um distúrbio nas vértebras da região lombar que causa compressão das raízes nervosas. É rara em gatos. A causa é desconhecida. Os sinais geralmente começam entre os 3 e os 7 anos de idade e podem incluir fraqueza, incontinência e dificuldade em usar os membros posteriores. Os gatos costumam sentir dor quando a região lombar é tocada ou movida. Outros sinais incluem perda da propriocepção (senso de posicionamento da pata), atrofia muscular ou reflexos enfraquecidos nos membros posteriores. Radiografias podem mostrar sinais de degeneração, mas o diagnóstico requer ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC). Gatos nos quais a dor leve é o único sinal podem melhorar com 4 a 6 semanas de repouso e medicamentos para dor. O tratamento específico requer cirurgia. A perspectiva de recuperação após a cirurgia é boa, embora a incontinência urinária possa continuar.
A doença do disco intervertebral é uma doença degenerativa da coluna vertebral que resulta na compressão da medula espinhal e dos nervos espinhais. É uma causa comum de distúrbios da medula espinhal em cães, mas rara em gatos. Um disco com hérnia ou “disco deslocado” que causa sinais graves pode ocorrer repentinamente ou surgir e progredir lentamente. Discos com hérnia são mais comuns no pescoço e no meio das costas. Um disco com hérnia no pescoço causa dor no pescoço, rigidez e espasmos musculares. Pode haver fraqueza muscular ou outros sinais, que variam de paralisia parcial leve nos membros até paralisia total de todos os membros. Um disco com hérnia no meio das costas causa dor nas costas e, possivelmente, curvatura na coluna vertebral e relutância em se mover. Os sinais neurológicos variam de perda de controle motor nos membros posteriores até paralisia e incontinência. Em animais paralisados, o veterinário determinará se há sensação de dor beliscando o dedo do pé ou a cauda e observando se o gato responde.
O diagnóstico de disco com hérnia requer raios-X, mielografia, tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM). Gatos com sinais mínimos a moderados que ainda sentem dor geralmente se recuperam com algumas semanas de repouso. Podem ser usados medicamentos anti-inflamatórios ou analgésicos, mas geralmente apenas se o gato puder ficar em repouso na gaiola. Se o gato aumentar sua atividade, o(s) disco(s) pode(m) se extrudar ainda mais e piorar a compressão da medula espinhal. Infelizmente, os sinais reaparecem em 30% a 40% dos casos. Em animais com sinais neurológicos graves, a cirurgia deve ser realizada imediatamente para aliviar a pressão sobre a medula espinhal. A cirurgia também é necessária se a terapia medicamentosa não for bem-sucedida e os sinais retornarem. A perspectiva de recuperação após a cirurgia é boa se o gato ainda tiver percepção de dor. Se a cirurgia for adiada por mais de 24 horas após a perda da sensibilidade à dor, as chances de recuperação diminuem.
Degeneração dos neurônios motores é uma doença hereditária observada ocasionalmente em gatos, cães, bovinos, suínos e caprinos. Também chamada de atrofia muscular espinhal, essa doença é caracterizada por fraqueza progressiva, tremores, atrofia muscular e perda de reflexos. Geralmente aparece aos 2 anos de idade. Eletromiografia e biópsia ajudam a documentar as alterações nervosas, mas o diagnóstico definitivo só pode ser realizado após a morte do animal.
A espondilose deformante é caracterizada pela produção de crescimentos ósseos ao longo da face ventral das vértebras da coluna vertebral. Ela se desenvolve à medida que os gatos envelhecem. Normalmente, não causa sinais, mas, em casos raros, o gato pode apresentar dor nas costas, rigidez ou sinais neurológicos.
Doenças inflamatórias e infecciosas
As doenças infecciosas e inflamatórias da coluna vertebral e da medula espinhal incluem infecções bacterianas (como riquétsias), virais, fúngicas, protozoárias e parasitárias, bem como doenças inflamatórias de causas desconhecidas. Muitas dessas doenças, como a meningite e a encefalite, também podem afetar o cérebro. Algumas das doenças infecciosas e inflamatórias mais comuns que afetam a coluna vertebral ou a medula espinhal são discutidas abaixo.
Doenças bacterianas
A discospondilite é uma inflamação do disco entre duas vértebras (ossos da coluna vertebral). As vértebras também podem ficar inflamadas sem infecção do disco. É rara em gatos e geralmente é causada pela disseminação direta da infecção a partir de uma ferida próxima. (Consulte também Discospondilite em cães.) O sinal mais comum é dor na coluna vertebral, com alguns gatos também apresentando febre, depressão e perda de peso. Sinais neurológicos podem se desenvolver devido à pressão sobre a medula espinhal ou, raramente, à disseminação da infecção para a medula espinhal. Radiografias são usadas para diagnosticar o quadro clínico, e culturas podem identificar a infecção subjacente. Os sinais geralmente desaparecem dentro de 5 dias de tratamento com um antibiótico apropriado, mas o tratamento deve ser continuado por pelo menos 8 semanas.
Doenças virais
A peritonite infecciosa felina é uma doença de gatos domésticos causada por uma resposta imunológica anormal a um coronavírus. Esse quadro clínico causa frequentemente danos no sistema nervoso e nos tecidos circundantes. Os sinais de inflamação da medula espinhal incluem dor na coluna vertebral e paralisia parcial em dois ou quatro membros. Também são comuns sinais que afetam o sangue e outros órgãos, especialmente os olhos. Os exames de sangue disponíveis não são confiáveis. A análise do líquido cefalorraquidiano pode ser útil no diagnóstico. Consulte também .
A mielopatia associada ao vírus da leucemia felina é uma doença da medula espinhal que afeta alguns gatos infectados com o vírus da leucemia felina há mais de 2 anos. Os principais sinais são perda do controle motor e fraqueza nos membros posteriores, que podem evoluir para paralisia paraplégica em um ano. Outros sinais incluem dor na coluna vertebral e comportamento anormal. O diagnóstico é baseado nos sinais, exames de sangue e eliminação de outras causas possíveis. Não há tratamento.
A raiva é causada por uma infecção viral que se dissemina para o sistema nervoso central a partir dos nervos periféricos. Pode afetar todos os mamíferos, incluindo gatos e pessoas. Durante várias décadas, houve mais casos relatados de raiva em gatos do que em cães nos Estados Unidos. A raiva é comum em todo o mundo, exceto no Japão e em algumas outras ilhas, como Nova Zelândia, Islândia e Havaí. Os sinais iniciais são muito variados, e a raiva deve ser considerada uma possibilidade em qualquer animal não vacinado com disfunção neurológica grave. Os sinais de que a infecção atingiu a medula espinhal incluem perda de controle motor e paralisia progressiva, geralmente com perda de reflexos. Os animais afetados morrem dentro de 2 a 7 dias após o início dos sinais. Não há tratamento. A vacinação é essencial para a prevenção.
Doenças fúngicas
Cryptococcus neoformans é o fungo causador de infecções no sistema nervoso central mais comum em gatos. Outros organismos fúngicos também podem invadir o sistema nervoso central (como Blastomyces dermatitidis, Histoplasma capsulatum, Coccidioides immitis, Aspergillus spp. e feo-hifomicose). As infecções geralmente afetam outros órgãos, como pulmões, olhos, pele ou ossos. Os sinais de infecção na medula espinhal incluem paralisia parcial ou total e dor na coluna vertebral. O diagnóstico da infecção e a identificação do organismo causador são feitos com exame de sangue ou de líquido cefalorraquidiano.
O tratamento e o prognóstico dependem do fungo. O medicamento fluconazol costuma ser eficaz para tratar infecções por Cryptococcus e Coccidioides. As infecções por fungos Blastomyces ou Histoplasma são difíceis de tratar, e o prognóstico em gatos infectados por esses fungos é incerto a reservado.
Doenças protozoárias
A toxoplasmose é causada por um protozoário chamado Toxoplasma gondii, que ocasionalmente pode causar inflamação do cérebro e da medula espinhal em filhotes. Filhotes infectados geralmente apresentam sinais da doença em outros órgãos. Um exame de sangue ou amostra de tecido pode diagnosticar a infecção. Vários medicamentos são recomendados para o tratamento.
Doenças parasitárias
A mielite verminosa é uma inflamação da medula espinhal causada por um parasita. A causa mais comum em gatos são as larvas das moscas Cuterebra. Os sinais de inflamação na medula espinhal surgem de forma repentina e grave, frequentemente afetando mais um lado do corpo do que outro, e podem piorar progressivamente com o tempo. Esse quadro clínico é difícil de diagnosticar, exceto por meio do exame do tecido após a morte. O tratamento com medicamentos pode ser benéfico, mas a recuperação total é incerta.
Doenças inflamatórias de causa desconhecida
A meningoencefalomielite não supurativa felina, também chamada de polioencefalomielite felina ou doença cambaleante, é uma doença inflamatória de progressão lenta do sistema nervoso central em gatos domésticos. Ela foi relatada na América do Norte, Europa e Austrália. A causa é desconhecida, mas provavelmente envolve um vírus ou algum outro agente infeccioso. A doença causa degeneração dos neurônios e é mais grave nos segmentos torácicos da medula espinhal. A doença é difícil de diagnosticar em um animal vivo e não há tratamento, portanto, o prognóstico é ruim. Os sinais incluem fraqueza nas patas que piora ao longo de 1 a 2 meses, além de sensibilidade ao toque, tremores na cabeça e alterações no comportamento.
Tumores
Em gatos, linfoma é o tumor mais comum que afeta a medula espinhal. Gatos adultos de qualquer idade podem ser afetados. Há um início repentino e grave ou lentamente progressivo de sinais que se concentram em torno de um tumor específico, muitas vezes doloroso, na medula espinhal. Cerca de 85% dos gatos afetados apresentam resultados positivos nos testes para o vírus da leucemia felina. O tratamento consiste em quimioterapia combinada. A remissão é possível, mas a perspectiva de recuperação a longo prazo é ruim.
Distúrbios nutricionais
A hipervitaminose A pode se desenvolver em gatos alimentados com dietas que contêm excesso de vitamina A, como dietas que contêm uma grande quantidade de fígado. Nos gatos afetados, formam-se crescimentos na superfície dos ossos da coluna vertebral. Os sinais incluem dor no pescoço e rigidez com claudicação nas patas dianteiras. Reduzir a quantidade de vitamina A irá prevenir danos adicionais, mas não reverterá os danos que já ocorreram.
Gatos que não recebem vitamina B1 suficiente (deficiência de tiamina) podem apresentar disfunção cerebral. As causas incluem ração para gatos com formulação inadequada, dietas vegetarianas, alimentos conservados com dióxido de enxofre e dietas à base de peixe cru. Os gatos afetados geralmente apresentam equilíbrio anormal, tremores na cabeça, dificuldade em controlar os movimentos, depressão, fraqueza nas patas traseiras, convulsões e morte. O diagnóstico é feito com base em sinais, dieta e resposta à suplementação de vitamina B1.
Lesões e traumatismos
As lesões na medula espinhal geralmente ocorrem como resultado de uma fratura ou luxação da coluna vertebral. As causas comuns em gatos incluem acidentes automobilísticos, ferimentos por mordidas e ferimentos por tiros. A lesão não só causa danos iniciais à medula espinhal, como também danos secundários devido a inchaço, hemorragia, destruição da bainha nervosa e deterioração do tecido. Os sinais de traumatismo medular geralmente têm início repentino e podem piorar progressivamente. Lesões graves na medula espinhal na região média ou inferior das costas podem causar paralisia rígida ou paralisia flácida que se dissemina por todo o corpo ao longo de vários dias e leva à morte por paralisia respiratória. Fraturas ou luxações vertebrais podem ser vistas em raios-X, mas a tomografia computadorizada (TC) pode ser necessária para visualizar algumas fraturas. O tratamento medicamentoso pode ser útil se iniciado nas primeiras horas após a lesão. Animais com sinais neurológicos leves decorrentes da lesão geralmente se recuperam após 4 a 6 semanas de repouso em gaiola. A cirurgia é necessária para alguns tipos de lesões que causam sinais neurológicos graves. Em gatos que perderam a capacidade de sentir dor em locais abaixo da lesão medular, a perspectiva de recuperação é ruim.
Intoxicação e distúrbios tóxicos
Organofosforados são pesticidas comumente usados para proteger animais e plantas de insetos destrutivos. A intoxicação por organofosforados ocorre de três formas: aguda, intermediária e tardia. A intoxicação tardia por organofosforados pode ser observada após a ingestão ou contato da pele com inseticidas ou pesticidas que contêm organofosforados. Além dos sinais de exposição grave, pode ocorrer paralisia tardia de 1 a 4 semanas após a exposição. A paralisia parcial dos membros posteriores piora progressivamente e, ocasionalmente, todos os 4 membros ficam paralisados. O veterinário precisará do histórico de possível exposição química do gato para fazer o diagnóstico correto. O prognóstico é ruim em animais com sinais graves.
O tétano é causado por toxinas produzidas pelas bactérias Clostridium tetani, que geralmente entram no corpo pelo local de uma ferida. Os gatos são bastante resistentes ao tétano, mas às vezes podem ser acometidos. Os sinais geralmente se desenvolvem dentro de 5 a 10 dias após a infecção e incluem rigidez muscular e extensão rígida das patas, incapacidade de engolir, pálpebras salientes e bloqueio dos músculos da mandíbula e faciais. Em casos graves, o animal pode não conseguir ficar em pé como resultado de espasmos musculares. O tratamento consiste em cuidados com a ferida, antibióticos para matar quaisquer organismos remanescentes e antitoxina tetânica. Em casos leves, o gato pode se recuperar completamente com tratamento precoce. Em casos graves, pode ocorrer óbito devido à paralisia respiratória.
Distúrbios dos vasos sanguíneos (vasculares)
Pedaços de cartilagem (provavelmente dos discos encontrados entre as vértebras) podem bloquear o fluxo sanguíneo para a medula espinhal em um quadro clínico chamado embolia fibrocartilaginosa. É rara em gatos. Normalmente começa após saltar ou correr e causa uma alteração repentina e indolor na marcha do gato. Os sinais não costumam piorar após 12 horas de sua ocorrência. A ressonância magnética (RM) é utilizada para fazer o diagnóstico. Gatos levemente afetados geralmente melhoram dentro de 1 a 2 semanas, mas o prognóstico é ruim para gatos gravemente afetados ou aqueles que não mostram sinais de melhora.
Para obter mais informações
Consulte também conteúdo profissional sobre doenças da coluna vertebral e da medula espinhal.