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Distúrbios dos nervos periféricos em gatos

PorThomas Schubert, DVM, DACVIM, DABVP, Small Animal Clinical Sciences, College of Veterinary Medicine, University of Florida
Revisado/Corrigido ago. 2018 | Modificado set. 2024
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Os distúrbios dos nervos periféricos incluem doenças degenerativas, doenças inflamatórias, distúrbios metabólicos, cânceres, distúrbios tóxicos, distúrbios causados por lesões e doenças dos vasos sanguíneos.

Distúrbios degenerativos

Paralisia facial idiopática é um distúrbio comum que resulta em fraqueza ou paralisia dos músculos faciais em gatos. Gatos domésticos de pelo longo apresentam um risco aumentado. Há um início repentino de incapacidade de piscar um ou ambos os olhos, orelhas caídas, lábio superior caído e salivação excessiva no canto da boca. A sensibilidade facial (controlada pelo nervo trigêmeo) permanece normal. A causa é desconhecida. O diagnóstico é baseado em sinais clínicos e na exclusão de outras causas de paralisia facial, incluindo doenças do ouvido, traumatismos e lesões no tronco cerebral. A causa é desconhecida e não há tratamento específico. Lágrimas artificiais geralmente ajudam a prevenir danos à córnea. Pode ocorrer uma melhora parcial em algumas semanas, mas a perda da função geralmente persiste.

Paralisia laríngea adquirida ocasionalmente ocorre em gatos. Na maioria dos casos, a causa é desconhecida. No entanto, o distúrbio também pode ser causado por uma lesão ou tumor que afeta o pescoço ou por hipotireoidismo. A condição ocorre quando a degeneração nervosa leva à paralisia de uma ou mais cartilagens da laringe ("caixa vocal"). As cartilagens paralisadas bloqueiam parcialmente a via aérea, causando alteração na voz, respiração ruidosa ou tosse seca. Em casos graves, o gato pode ter dificuldade para respirar, não querer ou não conseguir se exercitar e apresentar língua e gengivas azuladas. Alguns gatos apresentam sinais mais gerais de um distúrbio neurológico, como fraqueza e redução do senso de posição. Veterinários diagnosticam o quadro clínico examinando a laringe do gato enquanto ele está sob anestesia leve. Embora a cirurgia não possa resolver completamente os sinais, ela geralmente pode aliviar as dificuldades respiratórias.

Distúrbios inflamatórios

A miastenia grave adquirida é uma doença imunomediada que afeta as conexões entre os músculos e os nervos (junção neuromuscular). É incomum em gatos. Os sinais comuns são rigidez (provocada pelo exercício), tremores e fraqueza que melhora com o repouso. É comum haver fraqueza nos músculos da face e da garganta, e, frequentemente, ocorre dificuldade para engolir ou regurgitação de alimentos após as refeições. A pneumonia é uma complicação frequente. O distúrbio pode ser diagnosticado com um exame de sangue ou pela observação de melhora após a injeção de cloreto de edrofônio. Existem medicamentos disponíveis para tratamento de longo prazo. A perspectiva de recuperação é geralmente boa, mas menos favorável para animais que desenvolvem pneumonia. Uma forma incomum da doença, chamada miastenia fulminante, causa paralisia súbita que rapidamente evolui para paralisia respiratória e óbito.

A polirradiculoneurite idiopática aguda causa inflamação dos nervos periféricos. É rara em gatos. Os sinais geralmente se desenvolvem de 7 a 14 dias após uma mordida ou arranhão de um guaxinim (conhecida como paralisia do coonhound); no entanto, nem todos os animais afetados foram expostos a guaxinins. Uma síndrome semelhante pode se desenvolver em gatos dentro de 1 a 2 semanas após a vacinação. Normalmente, os membros posteriores ficam fracos e, em 24 a 48 horas, os sinais evoluem para paralisia parcial ou total em todos os membros e, em alguns casos, fraqueza na face e na garganta. Ocasionalmente, as pernas dianteiras são afetadas primeiro. Normalmente, a atrofia muscular é grave dentro de 2 semanas. O gato não perde a percepção da dor, o apetite ou a função da bexiga e do intestino. Não há tratamento eficaz além dos cuidados de enfermagem. A maioria dos animais afetados começa a melhorar em 3 semanas, com recuperação completa em 2 a 6 meses. No entanto, animais com sinais graves podem não se recuperar completamente e evoluir para óbito devido à paralisia respiratória. Também são observadas recidivas, especialmente em gatos que têm contato frequente com guaxinins.

A polineuropatia desmielinizante inflamatória crônica é observada em gatos adultos. A causa é desconhecida. A paralisia parcial se dissemina lentamente para os 4 membros, com reflexos enfraquecidos. Às vezes, os nervos cranianos também são afetados. Os sinais geralmente melhoram após o tratamento com corticosteroides, mas pode ocorrer recidiva quando a terapia é interrompida.

A neurite trigeminal é comum em cães, mas incomum em gatos. O distúrbio resulta em inflamação e lesões no nervo trigêmeo, causando um início repentino de paralisia da mandíbula. Os animais afetados não conseguem fechar a boca e têm dificuldade para comer e beber. Também é possível ocorrer paralisia parcial e perda de sensibilidade no resto da face. A causa é desconhecida. Os sinais geralmente desaparecem em 3 a 4 semanas. Suporte hídrico e nutricional podem ser necessários.

Distúrbios metabólicos

A neuropatia diabética é uma complicação incomum do diabetes, mais frequente em gatos do que em cães. Os sinais incluem fraqueza, perda de controle motor e atrofia muscular. Os animais afetados geralmente apresentam disfunção nervosa na porção distal dos membros posteriores, o que resulta em uma postura com os pés chatos. Acredita-se que o quadro clínico esteja associado a períodos prolongados de alto nível de açúcar no sangue. O diagnóstico requer evidência de diabetes e uma biópsia nervosa. Em alguns casos, a terapia com insulina pode levar à recuperação parcial ou completa. Consulte também

Tumores

Vários tipos diferentes de tumores da bainha nervosa podem ser encontrados em animais, mas são mais comuns em cães e bovinos. Quando ocorrem, geralmente surgem nos nervos periféricos que se estendem até os membros anteriores, causando inicialmente fraqueza e dor em uma pata, o que pode ser confundido com uma lesão óssea ou muscular. Um tumor grande pode aparecer como uma massa visível. Com o tempo, desenvolvem-se paralisia parcial e atrofia muscular na perna afetada. Se o tumor se disseminar, pode acabar pressionando a medula espinhal, causando sinais neurológicos nas outras patas. Os tumores da bainha nervosa também podem se formar nos nervos cranianos, mais frequentemente no nervo trigêmeo. Isso resulta em atrofia muscular e dor em um lado da mandíbula. Eventualmente, o tronco cerebral pode ficar comprimido, levando à morte. A cirurgia pode ser muito benéfica em um estágio inicial, mas a recorrência é comum.

Na neuropatia paraneoplásica, um câncer fora do sistema nervoso causa danos aos nervos. Ela tem sido associada a uma variedade de tumores. Essa condição não é bem compreendida, mas pode ser causada por uma resposta do sistema imunológico a um tumor que, indiretamente, prejudica o sistema nervoso. Os sinais geralmente envolvem paralisia parcial em 2 ou 4 membros, que piora progressivamente ao longo de várias semanas. O diagnóstico requer a identificação do tumor subjacente. Os sinais podem regredir com o tratamento adequado do tumor.

Distúrbios tóxicos

Organofosforados são pesticidas comumente usados para proteger animais e plantas de insetos destrutivos. A intoxicação por organofosforados ocorre de três formas: aguda, intermediária e tardia. A intoxicação intermediária por organofosforados é especialmente comum em gatos, por causa da exposição a pesticidas que contêm clorpirifós. Muitas vezes, os sinais não são óbvios inicialmente, mas os gatos desenvolvem fraqueza nos quatro membros e incapacidade de manter a cabeça erguida vários dias após a exposição. Os gatos geralmente se recuperam após várias semanas de tratamento medicamentoso.

Uma classe de antibióticos usados para tratar gado, chamada ionóforos, pode envenenar gatos e outras espécies de animais. Por exemplo, em 1995, ração para gatos contaminada com um medicamento chamado salinomicina causou sinais neurológicos repentinos em aproximadamente 850 gatos. Animais envenenados com ionóforos geralmente se recuperam com tratamentos de suporte e remoção da ração contaminada.

A paralisia do carrapato é causada pela picada de um carrapato que resulta em paralisia de progressão rápida. As fêmeas de várias espécies de carrapatos produzem uma toxina na saliva que interfere no sistema nervoso dos gatos. Na Austrália, o carrapato Ixodes holocyclus causa uma forma especialmente grave de paralisia. Outras espécies de carrapatos em outros continentes podem causar paralisia do carrapato em cães, gado e, ocasionalmente, em pessoas. Os sinais começam com paralisia parcial nos membros posteriores, que piora dentro de 24 a 72 horas, levando à paralisia total nos quatro membros. A percepção sensorial e a consciência permanecem normais. Em casos graves, podem ocorrer dificuldade de deglutição, paralisia facial, fraqueza muscular na mandíbula e paralisia respiratória. O tratamento consiste em remover o carrapato e aplicar uma pomada na pele para matar quaisquer carrapatos ocultos. Em todos os casos, exceto nos causados por Ixodes holocyclus na Austrália, a recuperação geralmente ocorre em 1 a 2 dias. Existe um soro disponível para o tratamento da paralisia causada pela picada do Ixodes holocyclus, mas o óbito por paralisia respiratória pode ocorrer apesar do tratamento.

Lesões e traumatismos

A avulsão do plexo braquial ocorre em gatos devido a lesões nas raízes nervosas espinhais na região do pescoço e do ombro, que dão origem aos nervos que se estendem até os membros anteriores. Em casos de lesões graves, as raízes nervosas podem esticar ou lacerar, desprendendo-se da ligação com a medula espinhal. Os sinais variam dependendo da gravidade. Se os nervos forem completamente rompidos, ocorre paralisia da perna e perda de sensibilidade e de reflexos abaixo do cotovelo. O animal coloca pouco ou nenhum peso sobre o membro e arrasta a pata no chão. Pode ser necessário amputar o membro devido aos danos causados pelo arrastamento ou automutilação. A recuperação é possível em casos leves, nos quais as raízes nervosas estão lesionadas, mas não completamente rompidas.

Lesões de nervos periféricos são comuns em lesões traumáticas. O nervo ciático, que vai da parte inferior das costas até os membros posteriores, pode ser lesionado por fraturas do quadril ou durante uma cirurgia para corrigir uma pata quebrada. Substâncias irritantes injetadas no interior do nervo ou em sua proximidade também podem causar lesão no nervo. O membro pode ficar parcialmente paralisado ou o animal pode não conseguir dobrar o joelho. A pata e os dedos não conseguem flexionar ou estender. Pode haver perda de sensibilidade abaixo do joelho. Lesões nos ramos do nervo ciático na porção distal do membro, como o nervo tibial ou o nervo fibular, podem resultar na incapacidade de estender ou flexionar a pata ou os dedos e na redução da sensibilidade na superfície do pé.

Para que a função seja restaurada após a perda das conexões nervosas, o nervo deve se regenerar desde o ponto da lesão até o local onde termina no músculo. O tecido nervoso se regenera ou cicatriza muito lentamente. A recuperação é improvável se as terminações seccionadas do nervo estiverem muito separadas ou se o tecido cicatricial interferir na cicatrização. Medicamentos anti-inflamatórios têm sido usados para tratar lesões nervosas traumáticas, mas há poucas evidências de qualquer benefício. A cirurgia deve ser realizada imediatamente em casos em que o nervo é seccionado. Em casos de lesões causadas por queda ou objeto contundente, a exploração cirúrgica e a remoção do tecido cicatricial podem ser úteis. O tratamento de longo prazo consiste em fisioterapia para minimizar a atrofia muscular e manter as articulações em movimento. Pode ser necessário usar bandagens ou talas para ajudar a proteger um membro danificado.

Doenças dos vasos sanguíneos (vasculares)

A neuromiopatia isquêmica é uma doença dos nervos e músculos que ocorre devido à falta de fluxo sanguíneo para esses tecidos, geralmente por causa de coágulos sanguíneos. É mais comum em gatos com tromboembolismo arterial, um quadro clínico que se desenvolve secundariamente a uma doença do músculo cardíaco. Os coágulos sanguíneos que se formam dentro do coração são transportados pela corrente sanguínea e alojam-se nas artérias, bloqueando o fluxo sanguíneo para a área. O bloqueio ocorre mais comumente na aorta, resultando em danos aos músculos e nervos dos membros posteriores. Desenvolve-se uma paralisia parcial extremamente dolorosa, e o gato pode ficar incapaz de flexionar ou estender o membro, perder os reflexos do joelho e perder a sensibilidade na porção distal do membro. O diagnóstico é baseado no histórico e nos sinais, bem como no exame de ultrassonografia para analisar o fluxo sanguíneo para os membros. O tratamento inclui analgésicos e cuidados de enfermagem. A doença cardíaca subjacente também deve ser tratada. Os sinais neurológicos podem melhorar em 2 a 3 semanas, mas podem ser necessários 6 meses para a recuperação completa. É possível que ocorram danos permanentes. Os riscos para a saúde persistem para muitos animais em decorrência da doença subjacente e da alta possibilidade de recorrência. Aproximadamente 60% dos gatos morrem ou são sacrificados no início da doença.

Para obter mais informações

Consulte também conteúdo profissional sobre distúrbios dos nervos periféricos.