VERSÃO PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Esquistossomose em bovinos

PorSomu Yogeshpriya, BVSc&AH, PGDAW, Department of Veterinary Medicine, Veterinary College and Research Institute, Orathanadu, Tamil Nadu Veterinary and Animal Sciences University, India
Revisado/Corrigido mar. 2022 | Modificado set. 2024
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Esquistossomose é uma doença parasitária em bovinos e produz doença visceral e nasal em gado de leite e bois de trabalho. Os sinais clínicos são vômitos, perda de peso e anorexia. As lesões são granulomas nos intestinos e no fígado. É facilmente diagnosticável pelos sinais e é tratado com antiomalina ou praziquantel.

A esquistossomose é comum em bovinos e é raramente observada em outros animais domésticos na África e na Ásia. Embora os esquistossomas possam atuar como patógenos importantes em condições raras que favorecem a transmissão intensa, a maioria das infecções em áreas endêmicas são subclínicas. Entretanto, as altas taxas de prevalência das infecções subclínicas causam perdas significativas devido aos efeitos de longo prazo no crescimento e na produtividade, além do aumento da suscetibilidade a outras doenças parasitárias ou bacterianas. O valor de mercado de bovinos, especialmente os afetados com a doença do ronco, pode ser drasticamente reduzido.

Os esquistossomas fazem parte do gênero Schistosoma, da família Schistosomatidae. Os vermes adultos são parasitas obrigatórios do sistema vascular dos vertebrados. Os esquistossomas são dióicos. A fêmea madura é mais delgada do que o macho e normalmente é carregada em um sulco ventral, o canal ginecóforo, que é formado por projeções laterais ventralmente flexionadas do corpo do macho.

Tabela
Tabela

Das 19 espécies relatadas em animais naturalmente infectados, 8 — todos parasitas de ruminantes — receberam atenção especial, principalmente devido à sua significância veterinária reconhecida: Algumas dessas espécies são conhecidas por interagir em áreas onde coexistem e foram relatados casos de hibridização interespecífica, por exemplo, entre os parasitas bovinos S. bovis e S. curassoni. As inovadoras ferramentas moleculares também oferecem evidência da hibridização natural entre S. haematobium, um parasita de seres humanos, e S. mattheei, S. bovis e S. curassoni. A hibridização entre esquistossomas humanos e ruminantes é de interesse especial, pois para isso acontecer, deve ter ocorrido de S. mattheei, S. bovis, ou S. curassoni para pessoas, ou de S. haematobium para animais domésticos.

Para diferenciar as diversas Schistosoma spp., usa-se a morfologia (tamanho, forma) do ovo. As espécies também podem ser diferenciadas por meio das características taxonômicas, como morfologia (vermes adultos), ciclo de vida ou características comportamentais; cromossomos; especificidade do hospedeiro; ou estudos de enzima e DNA.

Ciclo de vida, transmissão e epidemiologia da esquistossomose em bovinos

Os esquistossomas vivem nas veias mesentéricas e hepáticas do hospedeiro (exceto por S. nasale, que vive nas veias nasais), onde se alimentam de sangue e produzem ovos com um espinho terminal ou lateral característico. Os ovos eliminados nas fezes precisam ser depositados na água para eclodirem e liberarem miracídios, que invadem caramujos aquáticos adequados (Bulinus, Biomphalaria, Indoplanorbis e Lymnaea spp.) e se desenvolvem por meio de esporocistos primários e secundários até se tornarem cercárias. Quando completamente maduras, as cercárias deixam o caramujo e nadam livremente na água, onde permanecem viáveis por várias horas. Os ruminantes são em geral infectados com as cercárias pela penetração na pele, embora a infecção possa ser adquirida por via oral enquanto os animais bebem água. Durante a penetração, as cercárias se desenvolvem em esquistossômulos, que são transportados pela linfa e pelo sangue até seus locais de predileção. O período pré-patente varia de acordo com as espécies, mas em geral dura entre 45 e 70 dias.

A ocorrência de esquistossomas de bovinos dentro de sua área de distribuição não é contínua, dependendo da presença de caramujos (os hospedeiros intermediários), do nível de infecção e da frequência de contato com a água. Nas áreas onde as condições são favoráveis, as taxas de prevalência de infecções em bovinos podem estar entre 40% e 70% e são comumente mais altas.

O aumento da variedade de hospedeiros dos parasitas híbridos e as alterações na distribuição dos hospedeiros observadas na África podem ter um impacto direto na transmissão desses esquistossomas. Observou-se que híbridos de laboratório adquirem características melhoradas, como infectividade, fecundidade e taxas de crescimento.

Há forte evidência de que existe imunidade adquirida à infecção por esquistossomas em bovinos. Essa imunidade atua principalmente por meio da supressão da fecundidade dos vermes. A análise de animais naturalmente infectados demonstrou que ocorre também proteção parcial contra a nova infecção, e a resistência adquirida aos esquistossomas é de grande importância na regulação da intensidade da infecção no campo.

Achados clínicos e lesões da esquistossomose em bovinos

Esquistossomose visceral

Na grande maioria dos casos, a esquistossomose visceral em áreas endêmicas é subclínica e caracterizada por uma alta prevalência de cargas baixas a moderadas de vermes na população de bovinos. Embora poucos ou nenhum sinal clínico evidente possa ser reconhecido a curto prazo, altas taxas de prevalência de infecções crônicas por esquistossomas causam perdas significativas no rebanho. Essas perdas se devem aos efeitos menos facilmente reconhecíveis no crescimento e na produtividade, bem como ao aumento da suscetibilidade a outras doenças parasitárias e bacterianas.

Relataram-se surtos ocasionais da esquistossomose intestinal clínica devido a S. mattheei, S. bovis ou S. spindale. Em geral, restringem-se a animais jovens e adultos que sofrem infecções primárias relativamente graves em condições de transmissão intensa. A doença é caracterizada por diarreia, perda de peso, anemia, hipoalbuminemia, hiperglobulinemia e eosinofilia grave que se desenvolve após o início da excreção de ovos. Os animais gravemente afetados se deterioram rapidamente e em geral morrem poucos meses após a infecção, enquanto os menos intensamente infectados desenvolvem doença crônica com retardo do crescimento.

Nas formas intestinal e hepática, os vermes adultos são encontrados nas veias portais, mesentéricas e submucosas e subserosas intestinais. Contudo, os principais efeitos patológicos estão associados aos ovos. Na forma intestinal, a passagem dos ovos pela parede do intestino causa as lesões, enquanto na forma hepática, os granulomas se formam ao redor dos ovos fixados nos tecidos. Outras alterações hepáticas incluem hipertrofia da camada média e hiperplasia das veias porta, desenvolvimento de nódulos linfoides e folículos por todo o órgão e fibrose periportal em casos mais crônicos. Também se observa formação extensa de granulomas no intestino. Em casos graves, são observadas numerosas áreas de petéquias e hemorragia difusa na mucosa, podendo-se encontrar grandes quantidades de sangue descolorido no lúmen intestinal. Frequentemente, os vasos sanguíneos com parasitas estão dilatados e tortuosos. Lesões vasculares também podem ser encontradas nos pulmões, no pâncreas e na bexiga de animais intensamente infectados.

Os eventos de hibridização relatados entre os esquistossomas animais e humanos podem resultar em características fenotípicas que influenciam a patologia (e a sensibilidade a fármacos).

Esquistossomose nasal

A esquistossomose nasal está associada a crescimentos semelhantes a couve-flor na mucosa nasal, causando obstrução parcial da cavidade nasal e sons de ronco durante a respiração. A secreção nasal hemorrágica e/ou mucopurulenta é uma característica comum. Vermes adultos são encontrados nos vasos sanguíneos da mucosa nasal, mas novamente, os principais efeitos patogênicos estão associados aos ovos, que causam abscessos na mucosa. Os abscessos se rompem e liberam ovos e pus na cavidade nasal, o que pode levar a uma fibrose extensa. Além disso, os grandes crescimentos granulomatosos são comuns na mucosa nasal e ocluem as passagens nasais e causam dispneia.

Esquistossomose em bovinos
Crescimento em couve-flor, cavidade nasal

Crescimento semelhante a couve-flor, que causa obstrução parcial da cavidade nasal.

Crescimento semelhante a couve-flor, que causa obstrução parcial da cavidade nasal.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

Cavidade nasal obstruída

Cavidade nasal obstruída na esquistossomose nasal.

Cavidade nasal obstruída na esquistossomose nasal.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

Granuloma nasal

Granuloma nasal obstruindo a passagem nasal.

Granuloma nasal obstruindo a passagem nasal.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

Schistosoma nasale

Miracídio completamente desenvolvido no ovo de S. nasale proveniente da lavagem nasal.

Miracídio completamente desenvolvido no ovo de S. nasale proveniente da lavagem nasal.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

Miracídio

Miracídio completamente desenvolvido dentro do ovo de esquistossoma.

Miracídio completamente desenvolvido dentro do ovo de esquistossoma.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

S. nasale

Ovo de S. nasale em formato de bumerangue proveniente de fezes.

Ovo de S. nasale em formato de bumerangue proveniente de fezes.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

Visualização rinoscópica, cavidade nasal

Crescimentos nodulares na cavidade nasal de uma vaca com esquistossomose.

Crescimentos nodulares na cavidade nasal de uma vaca com esquistossomose.

Cortesia do Dr. S. Yogeshpriya.

Ovo de Schistosoma bovis

Um ovo embrionado de Schistosoma bovis, conforme observado em uma amostra fecal de uma vaca. Observe o formato característico fusiforme.

Um ovo embrionado de Schistosoma bovis, conforme observado em uma amostra fecal de uma vaca. Observe o formato caracter

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Cortesia de Francis McNeilly.

Diagnóstico de esquistossomose em bovinos

  • Sinais clínicos, identificação de ovos e sorologia

Como os sinais e a história isoladamente são insuficientes para diferenciar a esquistossomose visceral de outras doenças debilitantes, o diagnóstico deve ser confirmado pela presença e pela identificação de ovos nas fezes do animal infectado. Na necropsia, o exame macroscópico das veias mesentéricas para detectar a presença de vermes adultos ou o exame microscópico de raspagens da mucosa intestinal ou de tecido hepático triturado (ambos para ovos) podem ser mais fáceis.

Os ovos de S. bovis, S. curassoni e S. mattheei têm forma fusiforme. Devido à hibridização interespecífica entre S. bovis e S. curassoni e à hibridização natural entre S. haematobium e S. mattheei, S. bovis e S. curassoni, podem ser observados ovos com morfologia intermediária. Os ovos de S. spindale são mais alongados e retificados em um lado e os ovos de S. nasale têm o formato de bumerangue. Os ovos ovais de S. japonicum são relativamente pequenos, com um espinho rudimentar.

A excreção muito baixa de ovos fecais é comumente observada em infecções crônicas; portanto, pode ser preferível usar técnicas quantitativas de eclosão de miracídios que, além de serem mais sensíveis, também oferecem informações sobre a viabilidade dos ovos excretados nas fezes.

A análise molecular pode ajudar a identificar um organismo e sua relação com parentes filogenéticos próximos. Durante os últimos anos, vários autores tentaram desenvolver novas ferramentas de diagnóstico com maior especificidade e sensibilidade, algumas com base na detecção de DNA de Schistosoma por PCR.

Tratamento e controle de esquistossomose em bovinos

  • Antiomalina ou praziquantel

O praziquantel (25 mg/kg, via oral, em água para búfalos; 30 mg/kg, via oral, em bovinos) é altamente eficaz no tratamento da esquistossomose em bovinos; no entanto, podem ser necessários dois tratamentos com intervalo de 3 a 5 semanas. Contudo, por motivos práticos e econômicos, a esquistossomose em animais domésticos raramente é tratada em determinadas áreas. Somente na China, onde o gado infectado representa um importante reservatório de infecção humana, os tratamentos em massa com praziquantel têm sido amplamente praticados. Na Índia, todo o gado afetado que é levado para atendimento veterinário é tratado com antiomalina ou praziquantel. O triclabendazol demonstrou efeito adulticida na dose de 20 mg/kg contra vermes fêmeas de esquistossoma.

Para esquistossomose nasal, o tratamento é iniciado com uma injeção de antiomalina (tiomalato de lítio e antimônio, 15 mL, IM). Vacas afetadas respondem após a primeira dose de antiomalina e haverá redução no tamanho do granuloma nasal. As injeções de antiomalina podem ser repetidas em intervalos semanais, se necessário, até a redução do tamanho do granuloma nasal ser atingida e os sons de ronco se reduzirem. Duas ou três injeções em geral produzem uma recuperação completa.

O meio mais eficaz de controlar a esquistossomose bovina em áreas endêmicas é prevenir o contato entre os animais e o parasita por meio do cercamento de águas perigosas e pelo fornecimento de água limpa. Infelizmente, isso nem sempre é possível em partes do mundo onde prevalecem condições de gestão nômades. Outros métodos de controle são a destruição da população de caramujos hospedeiros intermediários nos locais de transmissão, por métodos químicos ou biológicos, ou sua remoção por meio de barreiras mecânicas ou armadilhas para caramujos. Medidas ecológicas contra os caramujos, que visam tornar seu habitat inadequado para a sobrevivência, como drenagem, remoção de plantas aquáticas e aumento do fluxo de água, também se mostraram valiosas. Essas medidas não apenas ajudam a reduzir a transmissão de esquistossomose, mas também auxiliam no controle de outros trematódeos parasitários, como Fasciola gigantica e paramfistomídeos, que também têm caramujos aquáticos como hospedeiros intermediários e são frequentemente encontrados nas mesmas localidades que os esquistossomas.

Pontos-chave

  • O controle de caramujos, evitar o pastoreio de animais perto de áreas infestadas por caramujos, a vermifugação periódica de bois e o tratamento no estágio inicial da infecção ajudarão no controle da esquistossomose em ruminantes.

  • A transmissão da infecção na esquistossomose nasal ocorre por penetração percutânea da cercária de S. nasale de caramujos infectados por Indoplanorbis sp.

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