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Distúrbios congênitos e hereditários do sistema nervoso em cães

PorThomas Schubert, DVM, DACVIM, DABVP, Small Animal Clinical Sciences, College of Veterinary Medicine, University of Florida
Revisado/Corrigido fev. 2018 | Modificado set. 2024
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Alguns defeitos congênitos (defeitos presentes ao nascimento) são herdados dos pais, enquanto outros são causados por fatores ambientais no útero, como deficiências nutricionais ou algumas infecções virais. Em muitos casos, a causa é desconhecida.

O sistema nervoso não está totalmente desenvolvido quando o filhote nasce, e as deficiências congênitas podem não se tornar aparentes até que ele comece a andar. Em alguns casos, as evidências de um distúrbio hereditário podem não ser observadas até que o cão atinja a idade adulta, mesmo que o defeito esteja presente desde o nascimento.

As deficiências congênitas do sistema nervoso são classificadas de acordo com a região primária afetada: prosencéfalo, cerebelo, tronco cerebral, medula espinhal, nervos periféricos e músculos, ou distúrbios multifocais que incluem sinais em mais de uma área. Muitos desses distúrbios hereditários são raros, específicos a uma determinada raça ou ambos. Alguns dos distúrbios mais comuns em cada área são descritos abaixo.

Distúrbios do prosencéfalo

Distúrbios do prosencéfalo (defeitos no cérebro) frequentemente causam problemas de visão, alterações de consciência ou comportamento, movimentos ou posturas anormais e convulsões.

Hidrocefalia, também conhecida como “água no cérebro”, é o excesso de líquido cefalorraquidiano que exerce pressão no cérebro e pode danificá-lo. Essa condição não é incomum em filhotes, especialmente em raças pequenas e braquicefálicas, como pugs, buldogues e bullmastiffs. A hidrocefalia geralmente resulta em sinais semelhantes aos de uma lesão cerebral e pode piorar com o tempo. No entanto, alguns animais podem não apresentar sinais evidentes. Também pode ocorrer cegueira ou deficiência visual. A ultrassonografia ou a RM podem confirmar o diagnóstico. Essa condição pode ser tratada com omeprazol ou corticosteroides, mas a cirurgia pode ser necessária em casos graves.

A epilepsia idiopática é caracterizada por crises epilépticas de causa desconhecida. Pode ser hereditária em certas raças, incluindo beagles, keeshondens, setters irlandeses, tervurens belgas, huskies siberianos, springer spaniels, labradores retrievers, golden retrievers e pastores alemães. O diagnóstico da epilepsia idiopática depende da eliminação de outras causas de convulsão, particularmente de anomalias estruturais do cérebro (como hidrocefalia), encefalite e distúrbios metabólicos, como encefalopatia hepática.

A encefalopatia hepática geralmente é causada por uma deficiência congênita que leva a anomalias nos vasos sanguíneos do fígado ou, em casos raros, resulta de uma deficiência enzimática no fígado. As raças mais afetadas incluem schnauzer miniatura, yorkshire terrier, cairn terrier, boiadeiro australiano, ovelheiro inglês e maltês. Os sinais de problemas no sistema nervoso costumam se tornar evidentes antes de o filhote completar 6 meses de idade. Os sinais incluem “olhar fixo no vazio”, latido ou choramingo inapropriado, agressividade e agitação. Em estágios avançados da doença, podem ocorrer depressão, cegueira, movimentos involuntários repentinos, estupor, coma ou convulsões. A encefalopatia hepática é diagnosticada por meio de técnicas de diagnóstico por imagem, como TC ou ultrassonografia. Exames de sangue podem auxiliar no diagnóstico.

A hipoglicemia em filhotes, ou baixo nível de açúcar no sangue, é observada em raças de pequeno porte nos primeiros 6 meses de vida. Parece estar relacionada a uma relativa imaturidade do fígado. Essa condição costuma ser controlada com alimentação frequente de ração comercial para filhotes. O problema geralmente desaparece quando o animal amadurece.

Distúrbios cerebelares

Os distúrbios cerebelares (defeitos no cerebelo) podem causar tremor, postura anormal e falta de coordenação na cabeça, no tronco e nas pernas.

A hipoplasia cerebelar é uma condição na qual o cerebelo não se desenvolve completamente. Normalmente, os tremores não pioram com a idade, e o cão pode ser um bom animal de estimação. A hidrocefalia também pode ser encontrada em animais com distúrbios cerebelares.

Abiotrofias cerebelares se desenvolvem quando as células do cerebelo envelhecem prematuramente e se degeneram. Os sinais são semelhantes aos observados em lesões cerebelares graves, incluindo tremor e controle motor deficiente, com a diferença de que os sinais se desenvolvem após o nascimento e pioram progressivamente ao longo do tempo.

Distúrbios do tronco cerebral

Os distúrbios do tronco cerebral podem causar disfunção dos nervos cranianos, fraqueza e incapacidade de manter o equilíbrio, andar ou ficar em pé corretamente. Animais gravemente afetados podem parecer apáticos ou desatentos ao que acontece ao seu redor.

A doença vestibular congênita parece ser hereditária em pastores alemães, cockers spaniels ingleses e dobermans pinschers. Essa doença causa surdez permanente e disfunções de equilíbrio e postura. Não existe tratamento, mas os animais podem aprender a compensar a disfunção melhorando o equilíbrio e a postura.

Distúrbios da medula espinhal

Os distúrbios da medula espinhal não afetam a coordenação dos movimentos da cabeça, mas causam perda de função motora e de coordenação nas pernas ou da propriocepção.

As malformações vertebrais congênitas envolvem os ossos da coluna vertebral, chamados vértebras. Essas malformações podem causar danos à medula espinhal. Entre eles estão hemivértebras (vértebras encurtadas ou deformadas), vértebras em bloco (fusionadas) e vértebras de borboleta (vértebras fendidas). As hemivértebras são mais comuns em raças de cães com cauda em espiral, como pugs, buldogues e boston terriers. Exames de imagem especializados, como a TC, podem ser necessários para determinar se o defeito na coluna vertebral pode ser corrigido cirurgicamente.

Na espondilomielopatia cervical caudal, também chamada de síndrome de Wobbler, a coluna vertebral fica deformada na região do pescoço. As raças mais afetadas são borzois, basset hounds, dobermans e dogues alemães. Essa condição pode ser hereditária, e os sinais começam a aparecer em diferentes faixas etárias. Os sinais variam desde uma leve dificuldade para andar até a paralisia das quatro pernas. Os cães afetados costumam manter o pescoço flexionado de forma inadequada, o que pode causar dor. A cirurgia pode diminuir a pressão na medula espinhal.

A subluxação atlantoaxial é mais comum em cães jovens de raças pequenas ou miniaturas, mas também pode ser observada em cães de raças grandes. Os sinais geralmente se desenvolvem nos primeiros anos de vida e consistem em dor no pescoço repentina ou com piora progressiva e dificuldade de movimentação. Os sinais podem ser leves ou progredir para a paralisia das quatro pernas. A cirurgia é necessária para estabilizar o quadro clínico do cão, e o prognóstico é incerto.

Distúrbios musculares e dos nervos periféricos

Distúrbios dos nervos periféricos, da junção neuromuscular (o ponto de contato entre nervos e músculos) e dos músculos podem causar fraqueza muscular e movimentos desajeitados ou descoordenados, semelhantes aos observados em distúrbios da medula espinhal. Além disso, podem causar perda dos reflexos e da sensibilidade à dor, atrofia ou definhamento muscular. Embora várias dessas doenças possam afetar raças específicas, elas são bastante raras na maioria dos cães.

A neuropatia hipertrófica em mastins tibetanos é uma doença hereditária que causa fraqueza nas pernas traseiras em filhotes de mastim tibetano por volta das 8 semanas de idade. Essa condição pode evoluir para fraqueza em todas as pernas. O prognóstico é incerto e não há tratamento. Alguns filhotes conseguem recuperar a capacidade de andar, mas permanecem fracos.

A polineuropatia do malamute do Alasca afeta malamutes do Alasca com idade entre 10 e 18 meses. Esses cães geralmente têm dificuldade para se exercitar e apresentam fraqueza nas pernas traseiras que se espalha para as dianteiras, atrofia muscular e, às vezes, paralisia das cordas vocais (paralisia laríngea). Não há tratamento eficaz. Em alguns cães, os sinais não pioram, mas a maioria precisa ser submetida à eutanásia devido ao agravamento da incapacidade.

A paralisia laríngea congênita é uma paralisia das cordas vocais que ocorre em filhotes de husky siberiano, rottweiler, bull terrier e bouvier des flandres com menos de um ano de idade. Os cães afetados têm dificuldade para respirar e se exercitar. Os veterinários diagnosticam a condição examinando as pregas vocais enquanto o cão está sedado. A paralisia laríngea também pode ocorrer com disfunção generalizada dos nervos periféricos em diversas raças, incluindo dálmatas, rottweilers e cães dos Pirineus. O prognóstico é de reservado a ruim.

A neuropatia sensorial em dachshunds de pelo comprido causa descoordenação, comprometimento da propriocepção (senso de posição das patas) e diminuição da sensibilidade em filhotes de dachshund de pelo comprido com 8 a 12 semanas de idade. Eles também podem apresentar comprometimento das funções digestivas e urinárias. Não existe tratamento, mas esses cães podem ter uma qualidade de vida relativamente boa, desde que não se mordam excessivamente.

A neuropatia sensorial em border collies causa descoordenação, comprometimento da propriocepção (senso de posição das patas) e diminuição da sensibilidade em filhotes de border collie com 5 a 7 meses de idade. Não existe tratamento e, infelizmente, a doença evolui a tal ponto que a maioria dos cães afetados precisa ser submetida à eutanásia.

A neuropatia sensorial de pointers é observada em pointers ingleses nos EUA e em pointers de pelo curto na Europa. Quando esses filhotes têm menos de 6 meses de idade, começam a morder excessivamente os próprios dedos dos pés. A sensibilidade à dor é reduzida nas pernas dianteiras e ausente nas traseiras. Não há tratamento e o prognóstico é ruim.

Os sinais de polineuropatia hereditária em cães leonberger começam quando eles têm entre 1 e 9 anos de idade. Os sinais incluem fraqueza, dificuldade para se exercitar e respirar, além de uma mudança no som do latido.

A síndrome de Musladin-Lueke é uma condição que aparece em beagles logo após o nascimento. A contratura muscular e a formação de cicatrizes (fibrose) fazem com que esses filhotes pareçam estar andando na ponta dos pés. Os cães afetados podem apresentar cartilagem auricular espessada e olhos bem separados. Podem ocorrer crises epilépticas. Não há tratamento, mas, geralmente, os sinais não evoluem.

A miastenia grave congênita é notada em parson russell terriers, fox terriers de pelo liso e springer spaniels quando eles têm de 5 a 10 semanas de idade. Também já foi observada em cães da raça braco dinamarquês com 12 a 16 semanas de idade. Esses filhotes ficam fracos depois de brincar e podem regurgitar devido ao esôfago dilatado. O prognóstico é incerto, e os filhotes que nascem com miastenia grave tendem a ter um prognóstico pior do que os cães mais velhos que desenvolvem a doença.

A cãibra de scotty causa aumento do tônus muscular em filhotes de terrier escocês, que piora com excitação, exercício e saúde debilitada. Os filhotes apresentam marcha exagerada e uma curvatura tão acentuada na coluna vertebral que os faz dar cambalhotas quando correm. Relaxantes musculares podem aliviar esses sinais.

A mioclonia congênita em labradores retrievers (mioclonia reflexa familiar) causa espasmos musculares e aumento do tônus muscular em labradores jovens. Esses filhotes ficam com os músculos tão rígidos que podem não conseguir andar. O prognóstico é muito ruim.

A miotonia congênita é uma rigidez severa ao se levantar em chow chows, staffordshire terriers, dogues alemães e schnauzers miniatura. Os sinais são semelhantes aos observados em cabras "desmaiadas", que congelam e caem quando assustadas. O prognóstico é incerto, mas os medicamentos podem melhorar bastante os sinais.

A miopatia em labrador retriever causa marcha rígida e atrofia muscular em filhotes com apenas 3 meses de idade. Um cão afetado pode até mesmo não conseguir manter a cabeça erguida. Exercício, estresse e baixa temperatura pioram os sinais. Felizmente, os sinais não pioram após os 6 a 8 meses de idade, e esses cães podem ser bons animais de estimação.

A dermatomiosite em collies e pastores de Shetland ocorre em filhotes com apenas alguns meses de idade. A doença afeta raças como collies, pastores de Shetland, pastores-de-beauce, corgis galeses de Pembroke, boiadeiros australianos, terriers de Lakeland, chow chows, pastores alemães e kuvasz. Provoca atrofia dos músculos da mandíbula usados para mastigar e dos músculos da parte inferior das pernas. Isso pode levar à fraqueza, dificuldade para abrir a boca e regurgitação devido ao aumento do esôfago. Os cães afetados também apresentam inflamação na pele da face e das pernas. Os sinais, que não costumam ser graves, podem ir e vir.

As doenças de armazenamento de glicogênio causam fraqueza muscular e dificuldade para se exercitar em cães jovens das raças pastor alemão, akita, cães-da-Lapônia e springer spaniel inglês.

A miopatia mitocondrial foi observada nas raças clumber spaniel, spaniel de Sussex e ovelheiro inglês. Os cães afetados têm dificuldade para se exercitar e podem apresentar colapso. A condição é diagnosticada por meio da análise de amostras de tecido obtidas por biópsia.

A miopatia do núcleo central pode causar fraqueza, perda muscular, dificuldade para se exercitar e colapso em cães jovens da raça dogue alemão. Essa doença foi relatada no Reino Unido. Os sinais começam aproximadamente aos seis meses de idade. O prognóstico é ruim.

O megaesôfago congênito descreve um esôfago dilatado observado ao nascimento. É uma característica hereditária em fox terriers de pelo duro e schnauzers miniatura e pode ser herdada em pastores alemães, dogues alemães, setters irlandeses, terras novas, shar-peis chineses e galgos. Os alimentos ficam presos no esôfago dilatado e são regurgitados. Esses cães podem inalar o alimento, o que pode levar à pneumonia. O prognóstico é incerto.

Distúrbios multifocais

Animais com distúrbios multifocais apresentam sinais consistentes com mais de uma localização anatômica.

Deficiências congênitas diversas

A surdez congênita ocorre com mais frequência em dálmatas, mas também foi diagnosticada em várias outras raças, incluindo pastor australiano, setter inglês, boston terrier e ovelheiro inglês. O teste chamado potencial evocado auditivo de tronco encefálico ( consulte Exames laboratoriais e de imagem) identifica filhotes surdos em idade precoce.

Para obter mais informações

Consulte também o conteúdo profissional sobre distúrbios congênitos e hereditários do sistema nervoso.