Cães podem nascer ou herdar vários tipos diferentes de anormalidades cutâneas. A maioria dessas condições é incomum ou rara. Algumas ocorrem com maior frequência em raças específicas de cães, como descrito abaixo. Algumas condições hereditárias estão presentes ao nascimento, enquanto outras podem levar meses para aparecer.
Doenças de pele congênitas
Epiteliogênese imperfeita, também chamada de aplasia cutis, pode ser descrita como pele ausente ou inexistente. É um quadro clínico congênito de causa desconhecida e é mais frequentemente observada em bovinos, suínos, ovinos e equinos. É uma doença rara em cães e gatos. Animais com epiteliogênese imperfeita não desenvolveram parte ou todas as camadas da pele. Como resultado, o animal nasce com úlceras ou áreas sem cobertura cutânea. A ausência de garras e outras anormalidades também pode ocorrer. O quadro clínico pode ser fatal se envolver grandes porções da pele. Pequenos defeitos podem ser corrigidos cirurgicamente.
Um nevo em seres humanos é uma área pigmentada congênita na pele que é frequentemente chamada de marca de nascença. Em animais, o termo é usado para qualquer área em que a pele apresente malformação, incluindo manchas anormalmente pigmentadas. Algumas formas de nevo deslocam as estruturas normais da pele, como os folículos pilosos; portanto, essas áreas são desprovidas de pelos. Quando não são extensos, os nevos podem ser removidos cirurgicamente ou tratados com laser ou crioterapia (congelamento); caso contrário, não há tratamento eficaz disponível.
Cistos dermoides são defeitos congênitos que podem ocorrer em leões-da-Rodésia (raça na qual são herdados) e, ocasionalmente, em outras raças de cães. São pequenas bolsas na pele onde se acumulam caspa, pelos, sebo e outros resíduos. São encontradas na pele acima da coluna vertebral, mas raramente estão associadas a déficits neurológicos da medula espinhal. Podem ser removidos cirurgicamente. Cistos foliculares ocorrem quando os folículos pilosos não se formam corretamente e ficam preenchidos com secreções.
Perda de pelos hereditária (alopecia)
Cães podem nascer total ou parcialmente sem pelos. A perda de pelos (alopecia) também pode ocorrer posteriormente na vida. Esses defeitos podem estar associados a dentes, garras e olhos anormais, ou a defeitos esqueléticos e outros defeitos de desenvolvimento. Raças de cães sem pelos (cão pelado-mexicano, cão de crista chinês, terrier pelado americano) foram criadas deliberadamente para manter esses defeitos. Muitos casos esporádicos ocorrem em outras raças de cães, mais frequentemente em machos. Muitos cães afetados, como a maioria das raças sem pelos, apresentam falhas ou padrões de ausência de pelo, bem como anomalias dentárias associadas. Todos os animais com desenvolvimento folicular anormal são propensos a obstrução dos folículos pilosos, infecções foliculares e inflamações por corpos estranhos nos folículos pilosos.
Em cães, há diversos tipos de anormalidades nos folículos pilosos. Uma síndrome conhecida como alopecia por diluição da cor está associada ao gene que faz com que pelos normalmente pretos ou de coloração fígado se tornem azuis, bege ou fulvos. Essa síndrome é mais conhecida em dobermans, mas também é comumente observada em dachshunds de coloração diluída, galgos italianos, galgos, whippets, yorkshire terriers, pastores alemães, labradores retrievers prateados e cães de caça tricolores. Os cães afetados nascem com pelagem normal, mas antes de 1 ano de idade começam a desenvolver inflamação dos folículos pilosos e perda progressiva de pelos nas áreas azuis ou fulvas. Displasia folicular do pelo preto se desenvolve mais cedo com perda de pelo mais completa em cães pretos e brancos. Desenvolve-se logo após o nascimento e afeta apenas as áreas pretas. Essa síndrome é mais comum nas raças papillon e bearded collies, e é herdada em grande munsterlanders. A alopecia sazonal no flanco pode aparecer em boxers e airedale terriers. Diversas síndromes relacionadas à pelagem lanosa e alopecia pós-tosquia podem ocorrer em raças do tipo spitz. A redução do crescimento do pelo em cães da raça spaniel d’água irlandês começa a ocorrer entre os 2 e 4 anos de idade. Outra condição chamada alopecia X ocorre em lulus da Pomerânia e em outras raças.
Síndromes de crescimento cutâneo anormal (síndromes hiperplásicas e seborreicas)
Há síndromes em que as células da pele crescem de maneira anormal, resultando em descamação e espessamento da camada superior da pele. Algumas dessas síndromes estão associadas a várias outras condições hereditárias e podem ser ligadas ao sexo. Algumas envolvem apenas porções localizadas da pele e outras produzem sinais generalizados.
A dermatose ictiosiforme canina ocorre esporadicamente em diversas raças, incluindo dobermans, rottweilers, setters irlandeses, collies, springer spaniels ingleses, cavalier king charles spaniels, golden retrievers, labrador retrievers, buldogues americanos e terriers (incluindo jack russell terriers). Existem boas evidências de um padrão de herança familiar para essa condição em jack russell terriers e golden retrievers. Em cães com dermatose ictiosiforme, o corpo é coberto por grandes escamas que podem se desprender em grandes lâminas. O nariz e as patas podem apresentar um espessamento visível, acompanhado de aparente desconforto. O tratamento é difícil, mas os sinais podem ser amenizados com xampus especiais ou soluções. Alguns tratamentos experimentais foram úteis. O controle de infecções secundárias é frequentemente necessário. O seu veterinário vai prescrever o tratamento mais adequado para o seu animal de estimação.
A hiperqueratose familiar do coxim plantar é uma síndrome relatada em terriers irlandeses e dogues de bordeaux. A hiperqueratose é o aumento da espessura da camada mais externa e rígida da pele. Todos os coxins plantares estão envolvidos desde pouca idade. A doença em geral não está presente no nascimento (congênita). Quando a hiperqueratose é severa, podem ocorrer calos, rachaduras (fissuras) e infecções secundárias, causando dor e claudicação. Não há outras anormalidades presentes na pele. Os tratamento se concentra no alívio de sinais e frequentemente envolve limpeza dos coxins, aplicação de loções emolientes e tratamento de quaisquer infecções bacterianas.
A adenite sebácea granulomatosa destrói as glândulas sebáceas e, em algumas raças de cães, está associada com secreção intensa de sebo e perda de pelo. É hereditária em poodles padrão e possivelmente em akitas. Aparece inicialmente quando o cão é um jovem adulto. O espessamento visível da pele precede a perda da textura normal do pelo e progride para queda de pelo em áreas específicas. Akitas tendem a ter mais oleosidade e perder menos pelos do que os poodles. A resposta ao tratamento é inconsistente e incompleta. Os cães levemente afetados são tratados com xampus medicamentosos. As infecções secundárias são tratadas conforme necessário. Um medicamento chamado ciclosporina A modificada também pode ser eficaz. A resolução abrupta dos sinais também foi observada em alguns cães.
A paraqueratose folicular congênita hereditária é uma síndrome reconhecida recentemente que afeta fêmeas de rottweilers e fêmeas de huskies siberianos. Esse é um defeito severo no processo de formação das queratinas que são um componente importante da pele. Esta síndrome está associada a várias anormalidades em outras áreas do corpo. Atualmente, pouco se conhece sobre esta síndrome.
A dermatose psoriasiforme-liquenoide afeta springer spaniels ingleses jovens. Presume-se que essa síndrome seja hereditária (de origem genética). Os sinais mais óbvios são anormalidades vermelhas e simétricas, que consistem em pequenos nódulos na pele e áreas sólidas elevadas próximas às orelhas ou à virilha. As anormalidades são cobertas com escamas e tornam-se cada vez mais espessas e duras (hiperqueratóticas) se não forem tratadas. Em alguns cães, as anormalidades podem se disseminar. A melhora espontânea ocorre em alguns cães, embora em outros os sinais vão e voltam. Em alguns cães, o tratamento com antibiótico ou outros medicamentos proporciona alívio. Na maioria dos casos, contudo, a dermatose psoriasiforme-liquenoide não responde ao tratamento.
Anormalidades pigmentares
Algumas anormalidades na cor da pele podem ser adquiridas, enquanto outras podem ser hereditárias. As anormalidades na cor da pele e do pelo estão por vezes relacionadas. Algumas das associações são mencionadas na perda de pelos hereditária (consulte acima).
Albinismo é raro em cães. O albinismo verdadeiro está sempre associado com as íris rosa ou pálidas e com problemas de visão. O albinismo é diferente do malhamento branco extremo. Em ambos os casos, os animais afetados apresentam risco aumentado de câncer de pele devido à radiação solar, especialmente em áreas com pelo curto ou fino. Alguns animais com piebaldismo extremo (malhado ou com manchas pretas e brancas) ou branco dominante apresentam anomalias neurológicas associadas ou surdez em um ou ambos os ouvidos. Em cães, a surdez também pode estar associada à pelagem merle e é encontrada em dálmatas, sealyham terriers, dogues alemães arlequins, collies e bull terriers brancos. Leões-da-Rodésia com pelagem clara estão associados com doença neurológica (especificamente degeneração cerebelar).
O vitiligo é hereditário, mas não é perceptível ao nascimento. O início ocorre geralmente na idade adulta jovem. Os cães afetados desenvolvem áreas descoloridas na pele que, ocasionalmente, também envolvem a pelagem e as garras. A maioria das manchas se concentra na face, especialmente no dorso do focinho ou ao redor dos olhos. A perda da cor pode ir e voltar, com graus variados de gravidade. O vitiligo ocorre em algumas famílias de cães, especialmente tervurens belgas e rottweilers. A remissão completa pode ocorrer, mas é rara. O vitiligo não causa outros problemas de saúde. Não há tratamento disponível. Os tratamentos utilizados em pessoas com vitiligo dificilmente ajudam os animais.
A aurotriquia adquirida é uma síndrome observada em algumas linhagens de schnauzers miniatura e, ocasionalmente, em outras raças de cães. Em cães afetados, o pelo ao longo do meio das costas, acima da coluna, muda do preto ou cinza normais para dourado. Isso em geral começa na idade adulta jovem. A alteração pode estar associada a afinamento da pelagem. Em muitos casos, não há outras alterações na pele nem outros sinais sistêmicos. Na maioria dos cães, a cor da pelagem volta ao normal em 1 a 2 anos.
Defeitos de integridade estrutural
Algumas doenças de pele são defeitos genéticos que afetam a integridade ou a continuidade da pele.
A astenia cutânea (também chamada de dermatosparaxis ou síndrome de Ehlers–Danlos) é uma doença em que a pele não produz colágeno suficiente. Isso causa pele frouxa, elástica e frágil, além de problemas nas articulações. A pele frágil é evidente desde o nascimento. As feridas cicatrizam lentamente ou não cicatrizam completamente. A pele fica pendurada no corpo. Podem se desenvolver cistos e hematomas. A doença não é fatal em cães. Animais mais velhos desenvolvem dobras de pele pendentes e apresentam cicatrizes extensas. Alguns apresentam problemas articulares e oculares. O diagnóstico se baseia em sinais visíveis e em biópsias para avaliar a estrutura do colágeno. Para gatos e cães, foi desenvolvido um índice de extensibilidade cutânea para ajudar o veterinário a diagnosticar esta síndrome. Houve relatos de melhora em cães afetados após suplementação com vitamina C, e o veterinário poderá determinar se essa suplementação pode ajudar seu animal.
As síndromes de epidermólise bolhosa são um grupo de defeitos congênitos hereditários que afetam as ligações entre as camadas externa e interna da pele, resultando em formação de bolhas. As várias formas de epidermólise bolhosa foram relatadas em collies, pastores de Shetland, poodles toy, bracos alemães de pelo curto, golden retrievers, akitas, cães sem raça definida e possivelmente pastor-de-beauce. Traumas cutâneos menores resultam na separação das camadas da pele. Bolhas se formam e logo se rompem, deixando úlceras planas e brilhantes. As bolhas podem estar presentes ao nascimento ou se desenvolver nas primeiras semanas de vida. As bolhas mais graves ocorrem nos pés, na boca, na face e nos genitais. Na maioria dos casos, a doença é fatal.
A mucinose cutânea é considerada um problema familiar em algumas linhagens de shar-peis chineses. Shar-peis normais apresentam uma concentração maior de uma proteína chamada mucina do que outros cães. Em alguns cães jovens, há mucina em quantidade tão excessiva que a pele apresenta dobras pronunciadas e bolhas. O diagnóstico é feito por punção das bolhas ou por biópsia de pele. À medida que esses cães envelhecem, a síndrome pode se tornar menos grave. Contudo, essa condição pode ser exacerbada pelo desenvolvimento de doença de pele alérgica, que é comum na raça.
Distúrbios multissistêmicos que afetam a pele
A dermatomiosite familiar é uma doença inflamatória da pele e dos músculos de collies e pastores de Shetland jovens. Problemas nos vasos sanguíneos da pele e dos músculos ocorrem nos estágios iniciais inflamatórios da doença, levando à redução de tamanho ou ao definhamento (atrofia) desses tecidos. O início ocorre tipicamente antes dos 6 meses de idade. A doença é variável, e cada filhote dentro da ninhada pode ser afetado de maneira diferente. Úlceras, crostas e perda de pelos aparecem no rosto, nas pontas das orelhas, na ponta da cauda e nas patas. Calor, exposição ao sol e feridas pioram o quadro clínico. Os músculos mais afetados são os da cabeça e dos membros. O diagnóstico é estabelecido por meio da avaliação dos irmãos da mesma ninhada e da história familiar, além de biópsia de pele, eletromiografia e biópsia muscular, que devem ser realizadas precocemente no curso da doença. Esteroides, pentoxifilina, vitamina E e ácidos graxos ômega 3 podem ajudar. Cães gravemente afetados raramente respondem bem ao tratamento.
A vasculopatia familiar foi descrita em pastores alemães e em parson russell terriers. Nesses cães, as úlceras cutâneas se desenvolvem logo após a primeira série de vacinas de filhote e pioram após vacinações subsequentes. Os principais sinais são inchaço dos coxins plantares e perda de cor, que pode progredir para úlceras. Todos os coxins normalmente são afetados. Também podem ocorrer crostas e úlceras nas pontas das orelhas e da cauda, bem como perda de cor no dorso do focinho. Conforme os cães envelhecem, a doença pode desaparecer, mas as úlceras nos coxins podem ser tão graves que a eutanásia é justificada. Não há tratamento conhecido que seja uniformemente eficaz, embora alguns cães pareçam responder a altas doses de esteroides. Uma forma severa de vasculite neutrofílica foi descrita recentemente em shar-peis chineses jovens; ela pode ser hereditária.
A dermatose lupoide hereditária é uma doença relatada em braco alemão de pelo curto. A doença é geralmente observada inicialmente quando o cão tem cerca de 6 meses de idade. Os primeiros sinais são descamação e crostas na cabeça e nas partes superiores do corpo e dos membros. Ela progride rapidamente para uma descamação generalizada da pele acompanhada de vermelhidão (eritema) causada pela congestão dos pequenos vasos sanguíneos (capilares) na pele. Essa doença de pele é dolorosa ou pruriginosa para o animal afetado. Esses cães desenvolvem febre e linfonodos aumentados. Alguns cães desenvolvem doença digestiva e perda de peso. Quando examinadas em laboratório, amostras de biópsia de pele mostram sinais de uma afecção cutânea semelhante ao lúpus. Essa doença é progressiva e pode ser fatal. Não há relatos de tratamento bem-sucedido.
As síndromes hereditárias de deficiência de zinco ocorrem em algumas raças. Em bull terriers brancos, acrodermatite letal apresenta sinais como crescimento deficiente, espessamento da pele dos membros e pústulas ao redor das membranas mucosas. Esses sinais aparecem por volta das 10 semanas de idade e depois são acompanhados de diarreia, pneumonia e morte antes dos 2 anos de idade. A vida de cães afetados pode ser prolongada pelo tratamento das infecções secundárias. Esses cães não respondem ao tratamento com zinco administrado via oral. Em malamutes do Alasca, huskies e braco alemão de pelo curto, a dermatopatia responsiva ao zinco responde à suplementação de zinco. Os sinais se desenvolvem durante o desmame ou mais tarde e incluem pele com crostas e espessamento nos membros e ao redor das mucosas. Frequentemente, as fêmeas desenvolvem sinais associados ao ciclo de cio ou ao parto e à lactação. Infecções secundárias são comuns. O diagnóstico é feito com biópsia da pele e resposta à suplementação oral de zinco.
Tumores de pele congênitos e hereditários
Os cães raramente nascem com tumores de pele. Algumas linhagens de pastor alemão podem desenvolver dermatofibrose nodular, que resulta em várias massas pigmentadas na pele (chamadas nevos). As massas que se formam nos pés podem ulcerar ou causar deformidades nos pés ou claudicação. As massas aparecem durante a idade adulta e indicam a presença de outros tipos de tumores em órgãos internos, como rins ou útero.
Para obter mais informações
Consulte também o conteúdo profissional sobre doenças de pele congênitas e hereditárias em cães.