VERSÃO PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Leptospirose em cães

PorKatharine F. Lunn, BVMS, PhD, DACVIM-SAIM, Department of Clinical Sciences, College of Veterinary Medicine, North Carolina State University
Revisado/Corrigido fev. 2022 | Modificado abr. 2025
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Cães são suscetíveis a infecção por muitos sorovares leptospirais, com sinais clínicos de leptospirose variando de leve, infecção subclínica a lesão renal aguda, doença respiratória ou morte. O diagnóstico é feito por exames sorológicos e identificação de leptospiras nos tecidos, no sangue ou na urina. A doxiciclina é o principal medicamento usado para o tratamento de cães, juntamente com o tratamento de suporte adequado. As vacinas polivalentes estão disponíveis para prevenção. Os sorovares específicos em uma área geográfica variam, portanto deve-se usar vacinas com os tipos adequados. Como é uma zoonose, os profissionais da saúde precisam se manter atentos à leptospirose e devem conhecer suas diferentes apresentações clínicas.

A leptospirose em cães é uma doença infecciosa causada por bactérias do gênero Leptospira.

Cães são os hospedeiros de manutenção para a Leptospira interrogans sorovar Canicola e, antes da difusão dos programas de imunização, os sorovares Canicola e Icterohaemorrhagiae foram os mais comuns em cães nos EUA. A prevalência dos sorovares caninos mudou significativamente nas últimas décadas, e os sorovares que causam doença em cães provavelmente variam de acordo com a região geográfica e a presença de hospedeiros reservatórios. Infelizmente, a compreensão atual dos sorovares que causam a doença natural em cães é limitada pelo fato de que o isolamento de leptospiras raramente é realizado. Assim, os estudos até o momento têm se baseado nos dados sorológicos.

Infelizmente, os resultados dos exames sorológicos (com o teste de aglutinação microscópica [MAT]) não predizem confiavelmente o sorovar infeccioso em cães (ou seres humanos) com leptospirose. Então, o verdadeiro sorovar infeccioso é desconhecido na maioria dos casos. Contudo, é provável que os sorovares que causam a doença em cães sejam aqueles circulantes na vida selvagem local.

A identificação do sorovar infeccioso em cães é essencial para os estudos epidemiológicos e para o desenvolvimento da vacina; é menos importante para o manejo clínico dos casos individualmente.

Atualmente não se sabe se os sorovares específicos estão associados a sinais clínicos específicos de leptospirose em cães, e não há evidência publicada para orientar o tratamento com base na identificação do sorovar. Portanto, é extremamente importante que veterinários mantenham um alto índice de suspeita de leptospirose, pois é uma zoonose que apresenta uma ampla variedade de apresentações clínicas em cães. Todas as idades, raças ou sexos de cães são suscetíveis à leptospirose e o diagnóstico não deve ser excluído com base nos sinais ou estilo de vida. A leptospirose canina não está restrita a cães de raça grande, machos ou que tenham um estilo de vida predominantemente ao ar livre.

Sinais clínicos e resultados do exame de leptospirose em cães

A lesão renal aguda foi a apresentação mais comum da leptospirose canina nos últimos anos. Os cães afetados pela leptospirose podem apresentar sinais clínicos como letargia, anorexia, vômito, dor abdominal e poliúria, oligúria ou anúria.

A bioquímica sérica e a gasometria podem mostrar anormalidades, como azotemia, hiperfosfatemia, acidose metabólica, hiponatremia e hipo- ou hipercalemia.

A urinálise poderia revelar anormalidades, como hipostenúria, isostenúria ou concentração mínima; proteinúria; glicosúria (com glicemia normal); cilindrúria; hematúria; ou piúria.

Cães que sobrevivem à lesão renal aguda podem voltar ao valor basal ou progredir para doença renal crônica. A leptospirose também pode ser considerada em qualquer cão previamente diagnosticado com doença renal crônica que desenvolve lesão renal aguda sobreposta à crônica.

Poliúria e polidipsia na ausência de azotemia também são observadas em alguns cães com leptospirose, possivelmente como resultado de diabetes insípido nefrogênico. A leptospirose também pode estar associada à acidose tubular renal.

A doença hepática aguda pode acompanhar a lesão renal aguda em cães com leptospirose, ou pode ocorrer isoladamente. Os sinais clínicos podem incluir icterícia, vômitos, anorexia e letargia.

A análise da bioquímica sérica poderia mostrar as seguintes anormalidades:

  • Atividade aumentada da fosfatase alcalina (FAL).

  • Atividade aumentada da alanina aminotransferase (ALT) (em geral menos aumentada do que a atividade da FAL).

  • Aumento da concentração de bilirrubina.

Dor muscular, rigidez, fraqueza, tremor ou relutância para se movimentar podem ocorrer em cães com leptospirose. Esses sinais podem ser resultantes de vasculite, miosite ou nefrite. Mialgia é mais comumente relatada na leptospirose humana e está associada à fase septicêmica da doença.

Manifestações menos comuns da leptospirose canina incluem distúrbios hemorrágicos, suspeitos de serem causados por vasculite. Sinais clínicos podem incluir hemorragias petequiais, epistaxe, melena e hematêmese. O hemograma completo (HC) poderia mostrar trombocitopenia leve a moderada (não suficientemente grave para causar o sangramento espontâneo). Os exames de coagulação podem revelar aumento nos produtos da degradação da fibrina, tempo de protrombina (TP) prolongado ou tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa) prolongado.

A hemorragia pulmonar agora é um dos sinais clínicos mais comuns nos surtos de leptospirose humana. Isso é um achado menos comum em leptospirose canina. Contudo, tosse ou dispneia, além de anormalidades radiográficas, foram observadas em vários animais afetados.

A uveíte é uma manifestação incomum da leptospirose em cães. Parece ser com pouca frequência associada à leptospirose canina experimental; contudo, existem relatos de casos raros.

Outros sinais clínicos relatados em cães com leptospirose são vômitos, diarreia, perda de peso, febre, hipotermia, secreção oculonasal, linfadenopatia, efusões e edema.

Outras alterações no HC não específicas podem ser neutrofilia, linfopenia, monocitose ou anemia leve.

As radiografias torácicas poderiam mostrar opacidades pulmonares reticulonodulares difusas ou caudodorsais, provavelmente devido à hemorragia pulmonar. As radiografias abdominais poderiam ser normais ou mostrar renomegalia ou hepatomegalia.

As alterações observadas no exame de ultrassonografia abdominal podem incluir renomegalia, pieléctasia, aumento da ecogenicidade cortical ou medular, derrame perinéfrico, banda medular renal hiperecogênica, hepatomegalia, fígado hipoecogênico, anormalidades da vesícula biliar ou derrame ou edema abdominal. Essas alterações não são específicas da leptospirose, e a ausência desses achados não exclui o diagnóstico.

Os achados macroscópicos de necropsia podem ser icterícia, efusões e hemorragias petéquicas ou equimóticas em qualquer órgão e em superfícies pleurais ou peritoneais. Os rins e o fígado podem apresentar aumento do tamanho e os pulmões podem estar úmidos, pesados e descoloridos. O fígado é frequentemente friável com um padrão lobular acentuado e pode ter uma descoloração amarelo-acastanhada. Os rins podem apresentar focos brancos na superfície subcapsular. Os achados microscópicos no fígado podem incluir necrose hepatocitária leve e aleatória, hepatite não supurativa e colestase intra-hepática; já nos rins, pode haver tumefação das células epiteliais tubulares, necrose tubular e uma reação inflamatória mista.

Diagnóstico de leptospirose em cães

  • Combinação dos seguintes achados: azotemia aguda, doença hepática colestática, trombocitopenia leve a moderada e glicosúria com glicemia normal

  • Exames sorológicos para detectar anticorpos combinados ao ensaio de PCR para detectar organismos

Os resultados de todos os exames de diagnóstico devem ser interpretados considerando a história de imunização do animal, sinais clínicos e achados clínico-patológicos. A tabela “Comparação dos testes usados para diagnosticar leptospirose em cães” resume os exames disponíveis atualmente, bem como suas vantagens e desvantagens. Recomenda-se a combinação de títulos de MAT agudos e convalescentes e ensaios de PCR no sangue (estágios iniciais da doença) ou na urina (estágios tardios da doença).

Tabela
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Tratamento da leptospirose em cães

  • Cuidados de suporte, juntamente com tratamento antimicrobiano específico

  • Doxiciclina para eliminar as fases leptospirêmica e portadora da infecção

As medidas de suporte para lesão renal aguda e doença hepática podem incluir: fluidoterapia, com suplementação de eletrólitos conforme necessário; correção de distúrbios ácido-base; antieméticos; quelantes de fosfato; medicamentos de suporte hepático; ou estimulantes de apetite.

A terapia de reposição renal com hemodiálise intermitente ou terapia de reposição renal contínua deve ser considerada para cães que estejam anúricos ou oligúricos apesar da terapia de suporte adequada. A terapia antimicrobiana é indicada se houver a suspeita de leptospirose e deve ser instituída antes dos resultados do exame confirmatório estarem disponíveis. Há relatos de caso limitados em cães, e não há estudos experimentais, para orientar a seleção de protocolos antimicrobianos para esta espécie.

As recomendações atuais são tratar com doxiciclina (5 mg/kg, via oral, a cada 12 horas, durante 2 semanas). Para cães que não toleram doxiciclina, a terapia inicial com uma penicilina é adequada. Entretanto, esse curso de terapia deve ser seguido por um curso de 2 semanas do tratamento com doxiciclina para eliminar a fase de portador renal da infecção. Enrofloxacino ou claritromicina também podem ser usados para eliminar a fase de carreador. Os cães recentemente expostos à leptospirose podem ser tratados profilaticamente com administração via oral de doxiciclina por 14 dias.

Prevenção da leptospirose em cães

Bacterinas comerciais para cães estão disponíveis para os sorovares Canicola, Icterohaemorrhagiae, Grippotyphosa e Pomona nos EUA. Não se sabe se os cães vacinados são suscetíveis à infecção com outros sorovares, embora haja alguma evidência experimental para proteção cruzada. Em geral, as vacinas disponíveis atualmente oferecem boa proteção contra a doença por no mínimo um ano, e também reduzem a colonização renal e a liberação na urina. Há preocupações sobre as reações de hipersensibilidade após a vacinação leptospiral em cães. Contudo, a vacinação contra Leptospira (um organismo que pode causar uma doença fatal) é segura na maioria dos casos e os estudos não demonstraram aumento significativo nas reações de hipersensibilidade, em comparação com outras vacinações. As reações adversas podem estar associadas com o uso de vacinas com maior nível de pureza. As recomendações anteriores para imunização a cada 6 meses também não se justificam mais.

Referências

Yao PJ, Stephenson N, Foley JE, et al. Incidence rates and risk factors for owner-reported adverse events following vaccination of dogs that did or did not receive a Leptospira vaccine. J Am Vet Med Assoc. 2015 Nov 15;247(10):1139–45. doi: 10.2460/javma.247.10.1139.

Risco zoonótico de leptospirose em cães

Como a leptospirose é uma zoonose, toda a equipe veterinária deve tomar as precauções adequadas ao manusear animais com infecção suspeita ou conhecida. Esses cães não precisam ser colocados em isolamento. Mas eles devem ser acolhidos com precauções de barreira, prestando atenção especialmente para evitar a exposição da pele ou das membranas mucosas à urina e ao sangue. Deve-se permitir que os cães infectados urinem em áreas designadas que podem ser subsequentemente limpos e desinfetados. Os organismos são eliminados por todos os desinfetantes de uso comum. Os tutores de cães recentemente diagnosticados com leptospirose canina devem ser aconselhados da natureza zoonótica da doença e a entrar em contato com seus médicos caso tenha alguma preocupação de saúde. Os tutores devem usar luvas ao limpar a urina e lavar suas mãos após a limpeza do cão, pelo menos até o curso da terapia antimicrobiana ser concluída.

Pontos-chave

  • A leptospirose é uma zoonose encontrada em várias espécies selvagens e domésticas, como cães, e é frequentemente transmitida pelo contato direto com urina e outros líquidos corporais de um hospedeiro infectado, embora a contaminação ambiental pela urina possa levar à transmissão, se as condições forem adequadas.

  • O diagnóstico é feito por exames sorológicos, juntamente com ao menos um método para identificar o organismo em tecidos ou líquidos corporais.

  • A opção de tratamento é doxiciclina com adequado manejo de suporte, conforme necessário. Outros antimicrobianos, como enrofloxacino, também podem ser eficazes. As vacinas podem ser usadas para prevenção. As vacinas de múltiplas cepas com os sorovares localmente prevalentes devem ser usadas.

  • As infecções zoonóticas não são comuns; entretanto exposições ocupacionais são um fator de risco. A via principal de infecção com Leptospira é o contato com líquidos corporais infectados.

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