Várias cepas patogênicas de bactérias Leptospira infectam ruminantes. Algumas são especificamente adaptadas ao gado, embora outras sejam incidentais, mas ainda causem a doença. Os sinais clínicos podem ser abortos, prole enfraquecida e leite com corado por sangue. O diagnóstico pode se basear em cultura bacteriana, sorologia ou ensaio de PCR. O tratamento e o controle podem ser feitos com antimicrobianos, vacinação e alterações no manejo.
A leptospirose ocorre mundialmente e é causada por Leptospira patogênica. Há 64 genomoespécies de Leptospira classificadas filogeneticamente em dois clados principais: “Patógenos” (37 genomoespécies), com todas as espécies responsáveis pelas infecções em seres humanos e/ou animais; e “Saprófitas” (27 genomoespécies) com as espécies ambientais para as quais a situação de virulência não foi comprovada. Soroepidemiologicamente, as leptospiras são classificadas em cerca de 300 sorovares, e os sorovares relacionados antigenicamente foram agrupados em sorogrupos por conveniência. Os sorovares patogênicos e não patogênicos podem pertencer à mesma genomoespécie, e considerando que a heterogeneidade genética dentro do mesmo sorovar foi previamente demonstrada, o uso de ambas as classificações para a determinação de uma cepa é bem estabelecida.
Etiologia da leptospirose em ruminantes
Dois grupos importantes de agentes são definidos classicamente. O primeiro é representado pelas cepas adaptadas ao hospedeiro afetado, que são carregadas por ele e são influenciadas pelas condições ambientais, mas de maneira não dependente, para a transmissão. Nesse grupo, os membros do sorogrupo Sejroe, como o sorovar Guaricura nas Américas e o sorovar Hardjo, predominam mundialmente. O outro grupo é composto por infecções incidentais causadas por cepas que são carregadas pelos animais de vida livre ou domésticos (de outras espécies). A transmissão dessas cepas é mais dependente das práticas ruins de manejo e das condições ambientais. Esse grupo inclui principalmente os sorovares Pomona, Grippotyphosa e Icterohaemorrhagiae. Além disso, os animais selvagens podem ser portadores de outras cepas de Leptospira, o que pode aumentar a exposição do gado a um ambiente com carga alta e diversa de contaminação.
Achados clínicos de leptospirose em ruminantes
A leptospirose bovina é uma doença reprodutiva bem reconhecida. A leptospirose aguda fortemente associada com cepas incidentais é observada menos frequentemente e em geral representa um surto. Essa síndrome é caracterizada principalmente por abortos em algum momento da prenhez bem como no nascimento de uma prole fraca. Em vacas lactantes, foi relatado leite corado de sangue. Por outro lado, a apresentação mais frequente é uma infecção crônica e silenciosa com insuficiência reprodutiva, como perdas de embriões e repetição de estro. Os sorovares Hardjo e Guaricura são capazes de colonizar e persistir no trato genital de vacas e touros infectados; assim, essas cepas estão mais relacionadas à forma reprodutiva crônica da infecção. Essa apresentação genital de leptospirose tem sido cada vez mais reconhecida como a principal síndrome de leptospirose que afeta bovinos.
Diagnóstico de leptospirose em ruminantes
Cultura bacteriana, sorologia ou ensaio de PCR.
O método de diagnóstico padrão-ouro é a cultura bacteriana, mas não é frequentemente realizada devido às limitações técnicas e de custo. Contudo, o isolamento e a caracterização molecular dos isolados são importantes para os estudos epidemiológicos de cepas que infectam animais de uma determinada região.
O diagnóstico de infecções incidentais ou clínicas em bovinos é relativamente simples. Na doença aguda, os animais infectados desenvolvem títulos elevados do sorovar infeccioso; um título de anticorpos ≥800 detectado por teste de microaglutinação (MAT) é considerado evidência de leptospirose. Nesses casos, as leptospiras também podem ser demonstradas na placenta e no feto por imunofluorescência, ensaio de PCR e imuno-histoquímica.
Por outro lado, o diagnóstico de infecção subclínica ou crônica causada pelas cepas Sejroe é mais difícil. A sorologia isoladamente falha frequentemente em identificar animais infectados porque os excretores soronegativos são comuns nos rebanhos de bovinos infectados. Mostrou-se repetidamente que a sorologia em nível individual não coincide com o status de eliminação. Nesses casos, a triagem em nível de rebanho por sorologia (MAT) pode identificar rebanhos suspeitos, mas a cultura, a imunofluorescência ou, preferencialmente, o ensaio de PCR são necessários para um diagnóstico individual. Embora a urina tenha sido amplamente usada como uma amostra primária, estudos recentes demonstraram a utilidade do muco cervicovaginal para o diagnóstico da infecção genital.
Tratamento, controle e prevenção de leptospirose em ruminantes
Um programa integrado de antimicrobianos, alterações no manejo e vacinação é frequentemente recomendado.
Devido à sua epidemiologia complexa e dinâmica, o controle da leptospirose bovina ainda é controverso e frequentemente frustrante. Recomenda-se frequentemente um programa integrado com base em antimicrobianos, mudanças específicas no manejo e vacinação. O tratamento antimicrobiano supostamente previne abortos e outros problemas reprodutivos. Estreptomicina (25 mg/kg, IM, dose única) é normalmente usada e em geral elimina a situação de portador renal. Supõe-se que oxitetraciclina, tulatromicina e ceftiofur também sejam eficazes.
Considerando a correção dos fatores ambientais e de manejo, a subdivisão de animais em grupos menores, a impermeabilização do solo e a limpeza regular das áreas de ordenha demonstraram reduzir significativamente a exposição dos animais às leptospiras. Deve-se evitar o acesso do gado a água acumulada, poças ou áreas pantanosas, bem como o pastoreio conjunto (especialmente com porcos).
A vacinação é o método de controle mais barato e representa uma medida essencial para o controle de leptospirose; sua adoção é fortemente recomendada. Sua eficácia varia e a falha de vacinas comerciais na prevenção de colonização renal foi demonstrada. Em geral, a vacinação contra leptospirose ocorre a cada seis meses, a primeira é realizada preferencialmente antes da época de reprodução, coincidindo com o início da primavera, quando a contaminação ambiental é mais intensa.
A eficácia das medidas de controle varia dependendo da cepa de infecção. Embora as infecções incidentais sejam mais facilmente controladas, as infecções pelas cepas Sejroe são impossíveis de erradicar, exigindo vigilância constante e um programa com base na redução de problemas reprodutivos e consequente riscos econômicos.
Pontos-chave
As cepas de Leptospira podem ser especificamente adaptadas a bovinos (por exemplo, membros do sorogrupo Sejroe) ou atuar como patógenos incidentais (por exemplo, Grippotyphosa e Icterohaemorrhagiae).
As cepas incidentais normalmente levam a surtos e doença aguda com sinais clínicos, enquanto as cepas adaptadas geralmente causam infecções reprodutivas assintomáticas.
O controle é desafiador, mas é possível e depende de vacinas, mudanças no manejo e antimicrobianos.
Para obter mais informações
Loureiro AP, Lilenbaum W. Genital bovine leptospirosis: A new look for an old disease. Theriogenology. 2020 Jan 1;141:41-47.