VERSÃO PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Aborto em bovinos

PorAhmed Tibary, DMV, DScS, PhD, DACT, Department of Veterinary Clinical Sciences, College of Veterinary Medicine, Washington State University
Revisado/Corrigido abr. 2021 | Modificado abr. 2025
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Também consulte Management of Reproduction: Cattle.

Considerando a baixa taxa de sucesso do diagnóstico, o alto custo dos exames laboratoriais e a baixa margem de lucro das indústrias de carne bovina e de laticínios, os veterinários não devem tentar estabelecer um diagnóstico etiológico de todos os casos de aborto. Eles devem se preocupar se a perda fetal for superior a 3%–5% ao ano ou ao mês.

Causas não infecciosas

A incidência real de aborto em vacas devido a fatores genéticos é desconhecida. Alguns abortos de origem genética podem não apresentar lesões fenotipicamente reconhecíveis. A maioria dos genes letais causa aborto precoce ou morte embrionária precoce.

As vitaminas A e E, o selênio e o ferro têm sido associados a aborto em bovinos, mas só existe documentação baseada em experimentos para a vitamina A.

O estresse térmico causa hipotensão, hipóxia e acidose fetal. A elevação da temperatura materna decorrente de febre pode ser mais importante do que o estresse térmico induzido pelo ambiente.

Traumas graves raramente resultam em aborto (o feto bovino é bem protegido pelo líquido amniótico), mas, sem dúvida, os criadores de gado atribuem muitos abortos a traumas.

Diversas toxinas podem causar aborto em vacas. As folhas do pinheiro-ponderosa podem causar aborto se ingeridas no último trimestre da gestação; as vacas podem ficar em estado moribundo após o parto e apresentar hemorragia excessiva. Os principais compostos abortivos presentes nas folhas do pinheiro-ponderosa são o ácido isocupressico e a resina de ládano. A erva-louca (Oxitropis ou Astragalus sp) contém um alcaloide indolizidínico que pode afetar o corpo lúteo, o alantocório e os neurônios, resultando em aborto ou deformidades. A ingestão da erva-vassoura (Gutierrezia microcephala) também pode causar aborto, assim como as cumarinas do veneno de rato, muitas gramíneas e o trevo-doce embolorado. O iodeto de sódio, administrado por via intravenosa, é contraindicado em vacas prenhes, mas alguns estudos não relataram aborto nem efeito adverso em vacas prenhes tratadas com uma dose única elevada. As micotoxinas, principalmente as que têm atividade estrogênica, têm sido implicadas em abortos bovinos. Os nitratos e nitritos também, mas as evidências experimentais são controversas.

Causas infecciosas

Língua azul como causa de aborto em bovinos

A língua azul é causada por um Orbivírus com 24 sorotipos e é transmitida por mosquitos do gênero Culicoides. A língua azul costumava ocorrer aproximadamente entre as latitudes 35°S e 40°N, exceto no oeste dos EUA, onde ocorria até 45°N. Após a introdução de uma vacina atenuada de vírus vivo do sorotipo 10 na década de 1950, ocorreram abortos, mumificações, natimortos e nascimentos de crias vivas com malformações do sistema nervoso central (SNC) em bovinos e ovinos. Desde então, vários sorotipos dessa febre foram identificados como causa de perda reprodutiva semelhante em bovinos e ovinos. A atenuação do vírus da língua azul pode aumentar sua capacidade de atravessar a placenta. Há evidências de que, antes de 2007, as perdas reprodutivas eram causadas por vírus vacinais atenuados da língua azul, seja pela vacinação de animais prenhes ou pela disseminação do vírus vacinal na natureza pelo Culicoides spp.

Em 2006, o vírus da língua azul do sorotipo 8 surgiu, se disseminou e tornou-se endêmico no noroeste da Europa (ao norte de 50 ºN), onde a língua azul era desconhecida. A partir de 2007, ocorreram abortos e nascimentos de bezerros letárgicos com malformações cerebrais em rebanhos infectados com língua azul; foi documentado que os bezerros afetados foram infectados ainda no útero. Muitos casos desse tipo foram reportados desde então.

O diagnóstico é feito pela identificação de anticorpos pré-colostrais contra a língua azul ou do vírus por reação da cadeia de polimerase (PCR). Para o PCR, amostras do cérebro, baço e sangue total de fetos e recém-nascidos são as preferenciais. O controle da língua azul é feito por vacinação e manejo para reduzir a exposição ao mosquito. Existem vacinas de vírus vivos modificados e vacinas inativadas, mas sua disponibilidade e uso variam de país para país.

Diarreia viral bovina como causa de aborto em bovinos

Em várias pesquisas, a diarreia viral bovina (BVD) foi a principal causa de aborto bovino.

A patologia da BVD no feto em desenvolvimento é complexa. A infecção antes da inseminação ou nos primeiros 40 dias de gestação resulta em infertilidade ou morte embrionária. A infecção entre 40 e 125 dias de gestação resulta em nascimento de bezerros persistentemente infectados, caso o feto sobreviva. A infecção fetal durante o período de organogênese (100–150 dias) pode resultar em malformações congênitas do SNC (hipoplasia cerebelar, hidranencefalia, hidrocefalia, microencefalia e hipoplasia da medula espinhal). Também foram observadas anomalias oculares congênitas (catarata, neurite óptica, degeneração da retina, microftalmia). Após 125 dias de gestação, a BVD pode causar aborto ou a resposta imune fetal pode eliminar o vírus.

O diagnóstico é feito pela identificação do vírus por isolamento, coloração imunológica, ensaio de PCR ou detecção de anticorpos pré-colostrais em bezerros abortados. O vírus está presente em vários tecidos, mas o baço é o tecido de escolha para exame. O aumento dos títulos de anticorpos contra a BVD em animais que abortaram ou em animais do mesmo rebanho é um indicativo de infecção recente. O vírus da BVD é imunossupressor e é encontrado em muitos fetos com infecções causadas por outros agentes (por exemplo, bactérias e N. caninum). Surtos de aborto causados por organismos que normalmente provocam aborto esporádico devem levantar suspeitas de possível infecção concomitante pelo vírus da BVD.

A prevenção deve se concentrar na remoção de bovinos persistentemente infectados e na vacinação do rebanho.

Brucelose como causa de aborto em bovinos

A brucelose (doença de Bang) representa uma ameaça na maioria dos países onde se cria bovinos. Nos EUA, programas de controle ativo, incluindo testes, abate e vacinação de novilhas, reduziram bastante sua incidência. A brucelose causa aborto na segunda metade da gestação (geralmente por volta dos 7 meses), e cerca de 80% das vacas com gestação avançada não vacinadas abortam se expostas à Brucella abortus. Os organismos penetram pelas membranas mucosas e invadem a glândula mamária, os gânglios linfáticos e o útero, causando uma placentite, que pode ser aguda ou crônica. O aborto ou natimorto ocorre de duas semanas a cinco meses após a infecção inicial. Os cotilédones afetados podem apresentar-se normais ou necróticos, apresentando coloração vermelha ou amarela. A área intercotiledonária apresenta espessamento focal com aspecto úmido e coriáceo. O feto pode estar normal ou apresentar autólise associada a broncopneumonia. O diagnóstico pode ser feito por sorologia materna combinada com coloração de anticorpos fluorescentes da placenta e do feto ou por isolamento de B. abortus da placenta, do feto (conteúdo abomasal e pulmão) ou da secreção uterina. A prevenção é feita por meio da vacinação de novilhas ainda bezerras.

A brucelose é uma zoonose grave cuja notificação às autoridades competentes é obrigatória.

Campilobacteriose como causa de aborto em bovinos

A Campylobacter fetus venerealis causa doenças venéreas que geralmente resultam em infertilidade ou morte embrionária precoce, mas podem causar aborto entre o 4º e o 8º mês de gestação. A C. fetus fetus e a C. jejuni são transmitidas pela ingestão e subsequente disseminação hematogênica para a placenta. Ambas causam abortos esporádicos, geralmente na segunda metade da gestação. O feto pode estar fresco, com pulmões parcialmente expandidos, ou apresentar autólise grave. Pode-se observar pleurite e peritonite fibrinosas leves, bem como broncopneumonia. A placentite é leve, com cotilédones hemorrágicos e área intercotiledonária edematosa. Espécies de Campylobacter podem ser identificadas por exame em campo escuro do conteúdo abomasal ou por cultura da placenta ou do conteúdo abomasal. O isolamento e a identificação das espécies envolvidas são importantes para que a vacinação possa ser instituída. A campilobacteriose venérea pode ser controlada por inseminação artificial e vacinação. As espécies de Campylobacter são zoonóticas, e a C. jejuni é uma causa importante de enterite em humanos. ( See also page Bovine Genital Campylobacteriosis.)

Clamídia como causa de aborto em bovinos

A Chlamydophila abortus, agente causador do aborto enzoótico em ovelhas, causa aborto esporádico em bovinos. A maioria dos abortos ocorre perto do final do último trimestre, mas pode ocorrer antes. As lesões placentárias consistem em espessamento e exsudato amarelo-acastanhado aderido aos cotilédones e às áreas intercotiledonárias. Do ponto de vista histológico, a placentite está consistentemente presente, e pneumonia e hepatite podem ser observadas em alguns casos. A C. abortus pode ser identificada por exame de esfregaços corados da placenta ou por ELISA, coloração com anticorpos fluorescentes, PCR ou isolamento em ovos embrionados de galinha ou cultura de células. Os organismos podem ser identificados com frequência nos pulmões e no fígado, mas não de forma tão consistente quanto na placenta. Não existe vacina para bovinos, mas existe para ovinos. A bactéria é zoonótica, ocasionalmente causando doenças com risco de morte e aborto em mulheres grávidas.

Aborto epizoótico bovino (aborto nas encostas) em rebanhos

O aborto epizoótico bovino está localizado na região de encostas ao redor do Vale de Sacramento/San Joaquin e na Serra Nevada Oriental da Califórnia, Oregon e Nevada. O aborto epizoótico bovino geralmente causa uma onda prolongada de abortos, afetando principalmente novilhas ou vacas recentemente introduzidas na região geográfica; no entanto, o aborto pode ocorrer de 3 a 5 meses após a saída da área endêmica. O aborto normalmente ocorre no último trimestre a uma taxa que pode chegar a 60%. Os animais abortam sem apresentar sintomas de doença, e o feto raramente sofre autólise.

Uma nova deltaproteobactéria intimamente relacionada com a Myxococcales e a Pajaroellobacter abortibovis, foi identificada como o agente etiológico. É transmitida pelo carrapato da família Argasidae chamado Ornithodoros coriaceus (carrapato Pajahuello). O feto abortado pode apresentar hepatomegalia, esplenomegalia e linfomegalia generalizada. Microscopicamente, observa-se hiperplasia linfoide acentuada no baço e nos gânglios linfáticos, além de inflamação granulomatosa na maioria dos órgãos. Há aumento de IgG fetal. As vacas raramente abortam em gestações subsequentes, e as novilhas costumam ser expostas a áreas endêmicas antes da idade reprodutiva, em uma tentativa de prevenir abortos.

Rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR, herpesvírus bovino 1) como causa de aborto em bovinos

A rinotraqueíte infecciosa bovina (infectious bovine rhinotracheitis, IBR) é uma das principais causas de aborto viral em todo o mundo, com taxas de aborto de 5% a 60% em rebanhos não vacinados.

O vírus é amplamente disseminado, causa infecções latentes e pode ressurgir; portanto, qualquer vaca com um título positivo para IBR é uma possível portadora. O vírus é transportado para a placenta pelos glóbulos brancos; de duas semanas a quatro meses após, causa uma placentite, infecta o feto e o leva à morte em 24 horas.

O aborto pode ocorrer a qualquer momento, mas geralmente acontece entre o 4º mês e o termo da gestação. A autólise está consistentemente presente. Ocasionalmente, observam-se pequenos focos de necrose no fígado, mas na grande maioria dos casos não há lesões macroscópicas na placenta ou no feto. Microscopicamente, pequenos focos de necrose com inflamação mínima estão consistentemente presentes no fígado. A vasculite necrosante é comum na placenta.

O diagnóstico pode ser feito por coloração imunológica dos rins, pulmões, fígado, placenta e glândulas adrenais. O vírus da IBR pode ser isolado em aproximadamente 50% dos fetos infectados (com maior sucesso a partir da placenta). Na maioria dos casos, os títulos maternos atingem o pico no momento do aborto. Em surtos de aborto, frequentemente pode ser demonstrado aumento dos títulos em animais do mesmo rebanho. O controle é feito por meio da vacinação do rebanho; estão disponíveis vacinas intranasais, de vírus vivo modificado e inativadas. ( See also page Bovine Herpesvirus 1 (Infectious Bovine Rhinotracheitis Virus, Infectious Pustular Vulvovaginitis).)

Leptospirose como causa de aborto em bovinos

As leptospiras patogênicas eram classificadas como sorovares de Leptospira interrogans, mas foram reclassificadas em 7 espécies com mais de 200 sorovares reconhecidos. Os sorovares de Leptospira Grippotyphosa, Pomona, Canicola e Icterohaemorrhagiae geralmente causam aborto no último trimestre, de duas a seis semanas após a infecção materna. Os organismos mais comuns em bovinos são L. borgpetersenii sorovar Hardjo tipo hardjobovis, L. interrogans sorovar Hardjo tipo hardjoprajitno, L. interrogans sorovar Pomona, e L. kirschneri sorovar Grippotyphosa.

O sorovar Hardjo é adaptado aos bovinos e pode estabelecer infecções ao longo da vida nos rins e no trato reprodutivo. Além de causar aborto no terceiro trimestre, o sorovar Hardjo reduz as taxas de concepção em vacas portadoras e em vacas acasaladas com touros portadores.

Embora as vacas possam apresentar sinais clínicos de leptospirose, a maioria dos abortos ocorre em bovinos aparentemente saudáveis. As taxas de aborto variam de 5% a 40% ou mais.

As leptospiras causam placentite difusa com cotilédones avasculares de coloração castanha-clara e áreas intercotiledonárias edematosas e amareladas. O feto geralmente morre 1 a 2 dias antes da expulsão e, portanto, sofre autólise. Ocasionalmente, os bezerros nascem vivos, mas fracos. Fetos infectados com o sorovar Pomona podem apresentar icterícia. Não há lesões específicas, mas a placenta e o feto devem ser encaminhados ao laboratório para coloração com anticorpos fluorescentes ou teste de PCR para detecção de Leptospira.

Embora os títulos maternos provavelmente estejam diminuindo no momento do aborto, um título inicial superior a 1:800 pode ser suspeito. Aproximadamente um terço das vacas que abortam devido ao sorovar Hardjo apresentam títulos inferiores a 1:100 no momento do aborto. Vacas infectadas com o sorovar Hardjo podem eliminar o organismo na urina durante toda a vida. Para outros sorovares, a urina da matriz pode ser cultivada ou examinada para detecção de leptospiras em até duas semanas após o aborto.

Para o controle, as fontes de infecção (como ração ou água contaminadas por cães, ratos ou animais selvagens) devem ser identificadas e eliminadas. Há pouca ou nenhuma proteção cruzada entre os sorovares. A imunização baseia-se no uso de vacinas multivalentes. A vacinação primária requer duas doses com intervalo de 4 a 6 semanas, seguidas de um reforço anual. Em algumas áreas, o uso de uma bacterina a cada 6 meses proporciona boa proteção contra os sorovares Grippotyphosa, Pomona, Canicola e Icterohaemorrhagiae, mas não contra infecção e disseminação renal pelo sorovar Hardjo. Novas vacinas monovalentes contra o sorovar Hardjo, que previnem infecção, mas não curam infecções já existentes, estão disponíveis.

Os seguintes tratamentos demonstraram eliminar o estado de portador renal: uma única injeção de oxitetraciclina (20 mg/kg, IM), uma única injeção de tilmicosina (10 mg/kg, SC), ceftiofur (5 mg/kg/dia, IM, durante 5 dias ou 20 mg/kg/dia, IM, durante 3 dias) ou amoxicilina (15 mg/kg, IM, duas injeções com intervalo de 48 horas).

A leptospirose é uma zoonose, e a urina e o leite das vacas podem ser infecciosos por até 3 meses, exceto no caso do sorovar Hardjo, no qual as vacas podem permanecer infecciosas por toda a vida se não forem tratadas. ( See also page Leptospirose)

Listeriose como causa de aborto em bovinos

A Listeria monocytogenes pode causar placentite e septicemia fetal. Os abortos geralmente são esporádicos, mas podem afetar de 10% a 20% do rebanho. O aborto pode ocorrer em qualquer fase da gestação, e a matriz pode apresentar febre e anorexia antes do aborto; a retenção de placenta é comum. O feto é retido por dois a três dias após a morte, portanto, a autólise pode ser extensa. Polisserosite fibrinosa e focos necróticos brancos no fígado e/ou nos cotilédones são achados comuns. O diagnóstico é feito por cultura de Listeria a partir do feto ou da placenta. Não há bacterina disponível. A listeriose é uma doença cuja notificação é obrigatória em muitas regiões e constitui uma zoonose grave com possibilidade de disseminação pelo leite pasteurizado de forma inadequada.

Aborto micótico em bovinos

A placentite fúngica causada por Aspergillus sp (fungos septados, 60%–80% dos casos) ou Mucor sp, Absidia, Rhizopus sp e alguns outros fungos não septados é uma causa importante de aborto bovino esporádico. Os abortos ocorrem a partir do 4º mês até o final da gestação e são mais comuns no inverno. Acredita-se que os fungos penetrem pelas vias oral ou respiratória e se desloquem por via hematogênica até a placenta. A placentite é grave e necrosante. Os cotilédones ficam aumentados e necróticos, com as margens voltadas para dentro. A área intercotiledonária fica espessa e coriácea. É comum haver placentação adventícia. O feto raramente apresenta autólise, embora possa estar desidratado; cerca de 30% apresentam lesões cutâneas acinzentadas semelhantes à micose, afetando principalmente a cabeça e os ombros. O diagnóstico é baseado na presença de hifas fúngicas associadas a placentite necrosante, dermatite ou pneumonia. Os fungos também podem ser isolados a partir do conteúdo estomacal, da placenta e de lesões cutâneas. O isolamento deve ser correlacionado com lesões microscópicas e macroscópicas para se excluir contaminação após o aborto.

Para controle, deve-se evitar o fornecimento de ração embolorada. ( See also page Mycotoxicoses.)

Neosporose como causa de aborto em bovinos

O Neospora caninum é encontrado em todo o mundo, sendo a causa mais comum de aborto em bovinos leiteiros e de corte em muitas partes dos EUA.

Cães e coiotes são hospedeiros definitivos do N. caninum e podem ser fontes de infecção. O aborto pode ocorrer a qualquer momento após o 3º mês de gestação, mas é mais comum entre o 4º e o 6º. O Neospora pode estar associada a abortos esporádicos ou surtos de aborto. Abortos recorrentes em vacas já foram relatados.

A maioria das infecções resulta em bezerros infectados congenitamente e assintomáticos. Alguns bezerros infectados nascem com paralisia ou déficit proprioceptivo. As vacas não apresentam sintomas clínicos de doença, e a retenção da placenta não é comum. O feto geralmente apresenta autólise ou, em alguns casos, mumificação, e raramente apresenta lesões macroscópicas.

Microscopicamente, inflamação não supurativa é comum no cérebro, no coração e nos músculos esqueléticos. Os organismos podem ser identificados nesses tecidos e nos rins por meio de coloração imuno-histoquímica e ensaio de PCR. Muitos fetos em estágio final de gestação apresentam anticorpos pré-colostrais detectáveis. Eles permanecem infectados por anos e, possivelmente, por toda a vida. A transmissão vertical é comum.

Durante a gestação, organismos de Neospora hughesi podem ser ativados e infectar o feto. Considera-se essa a fonte mais comum de infecção. Não há tratamento. Higiene rigorosa para prevenir a contaminação fecal da ração por cães ou coiotes pode auxiliar na prevenção. Existe uma vacina comercial disponível.

Tricomoníase como causa de aborto em bovinos

A infecção por Tritrichomonas foetus causa doenças venéreas que geralmente resultam em infertilidade, mas podem causar aborto na primeira metade da gestação. A placentite é relativamente leve, com cotilédones hemorrágicos e áreas intercotiledonárias espessadas cobertas com exsudato floculento. A placenta com frequência fica retida após o aborto. Uma proporção significativa das vacas desenvolve piometra.

O feto não apresenta lesões específicas, embora o T. foetus possa ser encontrado no conteúdo abomasal, nos fluidos placentários e nas secreções uterinas. As vacas infectadas geralmente eliminam o organismo em 20 semanas, mas os touros, principalmente os infectados após os três anos de idade, podem se tornar portadores por toda a vida. Não existe um tratamento legal e eficaz para animais individuais. O tratamento do rebanho baseia-se na identificação e separação das fêmeas prenhes das fêmeas "em risco" por um período ≥5 meses e na identificação e eliminação de todos os touros infectados. A prevenção é feita por inseminação artificial ou inseminação natural utilizando touros não infectados. Existe uma vacina de células inteiras inativadas disponível para uso em vacas para ajudar a reduzir a disseminação. See also page Trichomoniasis.)

Trueperella pyogenes como causa de aborto em bovinos

A Trueperella pyogenes provoca aborto esporádico em qualquer fase da gestação. A incidência raramente atinge níveis epizoóticos em um rebanho. A bactéria está presente na nasofaringe de muitas vacas saudáveis e em abscessos. Normalmente, não está presente, nem mesmo como contaminante, em fetos ou membranas fetais, e o isolamento é quase sempre significativo. Ela entra na corrente sanguínea e causa endometrite e placentite, que se manifestam de forma difusa, com coloração que varia do marrom-avermelhado ao marrom. O feto geralmente apresenta autólise, podendo ocorrer pericardite fibrinosa, pleurite ou peritonite.

A broncopneumonia pode ser evidente na histopatologia, mas é melhor obter cultura de T. pyogenes da placenta ou do conteúdo abomasal. O aborto costuma ser esporádico, e não há bacterina eficaz disponível.

Infecção por Ureaplasma diversum como causa de aborto em bovinos

A Ureaplasma diversum é uma habitante comum da vagina e do prepúcio de bovinos, que também causa aborto. Os abortos costumam ser esporádicos, mas surtos graves ocorrem ocasionalmente. A infecção também pode resultar em natimortos e no nascimento de bezerros fracos. A maioria dos fetos é abortada no terceiro trimestre e encontra-se bem preservada. As vacas não apresentam doença clínica, mas é comum haver retenção placentária. Placentite e necrose da membrana amniótica são achados frequentes. As áreas intercotiledonárias geralmente são espessadas e, às vezes, contêm áreas de deposição de fibrina e hemorragia. Não há lesões macroscópicas no feto. Microscopicamente, observa-se placentite não supurativa e pneumonia caracterizada por acúmulo de linfócitos ao redor dos brônquios e por alveolite difusa. O diagnóstico é feito por isolamento da U. diversum a partir da placenta, dos pulmões e/ou do conteúdo abomasal.

Outras causas de aborto em bovinos

O vírus Akabane (quando presente) causa aborto e anomalias fetais. O vírus da parainfluenza-3 causa aborto em bovinos soronegativos inoculados experimentalmente, mas raramente, ou nunca, é diagnosticado em casos de aborto em campo. Ocasionalmente, a Salmonella spp. causa surtos de aborto. As vacas geralmente apresentam doença clínica, e os fetos e as placentas apresentam autólise e enfisema. As salmonelas podem ser isoladas a partir do conteúdo abomasal, dos tecidos fetais, dos fluidos uterinos e das fezes das matrizes. Micoplasma spp., Histophilus somni e várias outras bactérias também podem causar abortos esporádicos em bovinos. O vírus Schmallenberg, descoberto na Europa em 2011, pertence ao sorogrupo Simbu e tem sido associado a infertilidade, aborto e malformação fetal em várias espécies de ruminantes.