Aborto é a interrupção artificial da gestação após a conclusão da organogênese, mas antes de o feto se tornar viável. Se a gestação termina naturalmente antes da organogênese, isso é chamado de morte embrionária precoce. Um feto a termo que nasce morto é considerado natimorto, o que é confirmado pela ausência de qualquer indício de insuflação pulmonar. Muitas causas de aborto também podem causar natimortos, recém-nascidos prematuros ou com problemas médicos e físicos e, ocasionalmente, fetos mumificados.
Determinar a causa de aborto em animais de grande porte é uma tarefa difícil e, frequentemente, frustrante. Diversos fatores podem dificultar o diagnóstico. O aborto costuma ocorrer após uma infecção aguda inicial que persiste por semanas ou meses. Assim sendo, o agente causador muitas vezes não está mais presente quando o aborto ocorre e no momento do exame post-mortem. A expulsão pode ocorrer horas ou dias após a morte fetal, e as lesões podem ficar obscurecidas pela autólise. É importante ressaltar que as membranas fetais e o feto abortado geralmente estão contaminados pela flora ambiental. Os casos esporádicos de aborto provavelmente resultam de causas não infecciosas (por exemplo, tóxicas ou genéticas). Muito pouco se sabe sobre essas etiologias em comparação com as causas infecciosas. Além disso, a maioria dos laboratórios de diagnóstico veterinário são equipados para focar apenas em causas infecciosas.
Um desafio diagnóstico adicional para veterinários que lidam com abortos em animais de grande porte é o conhecimento sobre a seleção e o manejo adequados das amostras. Recomenda-se que esses profissionais busquem a assistência do laboratório de diagnóstico sempre que possível. A melhor amostra é a unidade feto-placentária completa em estado fresco, juntamente com o soro materno. A placenta e o feto devem ser limpos com água ou solução salina, acondicionados em sacos plásticos limpos, refrigerados (mas não congelados) e transportados rapidamente para o laboratório de diagnóstico. Na maioria dos casos, a autólise é muito mais lenta em fetos do que em carcaças de animais nascidos vivos. Se forem resfriados logo, a maioria dos fetos mantêm condições adequadas para necropsia, mesmo que não cheguem ao laboratório antes de um ou dois dias. Os fetos de porcos, ovelhas e cabras geralmente são pequenos o suficiente para serem transportados ou enviados inteiros juntamente com a placenta. Caso haja múltiplos fetos, devem-se enviar de três a cinco juntamente com a placenta. O ideal é enviar bezerros e potros inteiros, mas, em casos de fazendas ou rebanhos afetados, pode ser mais conveniente fazer uma necropsia e coletar amostras de tecido para o envio.
As amostras utilizadas nos testes variam conforme o laboratório, mas, um conjunto básico que permite fazer um exame completo inclui conteúdo estomacal ou abomasal, sangue cardíaco ou fluido de uma cavidade corporal, pulmão, fígado, rim e baço não fixados (alguns laboratórios também pedem tecidos como glândula tireoide, timo, coração, cérebro, abomaso e estômago), placenta (se disponível) e soro da matriz. Essas amostras devem ser enviadas em recipientes estéreis para possibilitar as culturas microbiológicas. Por estar sempre contaminada, a placenta não deve ser misturada com os demais tecidos.
Amostras representativas dos seguintes tecidos também devem ser enviadas em formalina tamponada a 10% para exame histopatológico: pulmão, fígado, coração, rim, baço, cérebro, músculo esquelético, tireoide, glândulas adrenais, intestino e placenta. Na grande maioria dos casos, não estão presentes lesões macroscópicas além dos sinais de autólise (aumento do líquido pleural e peritoneal e edema subcutâneo com traços de sangue). No entanto, caso sejam encontradas lesões, devem ser incluídas amostras frescas e fixadas em formalina dos tecidos afetados.
A maioria dos agentes, especialmente bactérias e fungos, infectam a placenta conseguem penetrar no líquido amniótico, que é ingerido pelo feto. O conteúdo estomacal pode ser obtido de forma asséptica, portanto, é a melhor amostra para detecção de fungos e da maioria das bactérias. O isolamento no conteúdo estomacal é muito mais fácil do que na placenta, que está sempre muito contaminada. Pulmões, fígado, baço e rins também são bons para cultura. Diversos agentes (por exemplo, fungos, Chlamydia e Coxiella) afetam principalmente a placenta. Portanto, a inclusão da placenta nas amostras aumenta as chances de esses agentes serem identificados. Às vezes, os fetos produzem anticorpos contra alguns agentes (por exemplo, vírus da diarreia viral bovina, Neospora spp., Leptospira spp.), e esses anticorpos podem ser detectados em amostras de soro fetal ou fluido de uma cavidade corporal. A presença de anticorpos pré-colostrais é evidência de exposição intrauterina.
Um único título de anticorpos na matriz raramente fornece evidência de aborto causado por um agente específico, a menos que os níveis basais de títulos sorológicos do rebanho sejam conhecidos. Níveis elevados de anticorpos maternos podem ser o motivo para o animal não ter abortado devido a esse agente, mas a ausência de um título pode ser usada para excluir um agente. Títulos de anticorpos para agentes com programas de controle (por exemplo, Brucella abortus, vírus da pseudorraiva) são sempre significativos, mesmo que o aborto tenha sido causado por outro fator. É preciso demonstrar um aumento de quatro vezes no título de anticorpos para comprovar infecção ativa por um agente específico. O aborto costuma ocorrer semanas ou meses após a infecção inicial da matriz. No momento do aborto, seu nível de anticorpos está estável ou em declínio. Amostras de soro pareadas, obtidas com duas semanas de intervalo, de 10% do rebanho ou de, no mínimo, 10 animais, com frequência demonstram soroconversão e servem de evidência de infecção ativa no rebanho.