VERSÃO PARA DONOS DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Distúrbios que afetam múltiplos sistemas em aves de estimação

PorTeresa L. Lightfoot, DVM, DABVP (Avian), Avian and Exotics Department, Florida Veterinary Specialists
Revisado/Corrigido jan. 2020 | Modificado abr. 2025
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Diversas doenças podem afetar múltiplas partes ou sistemas do corpo de uma ave. Os sinais podem ser gerais (como fraqueza ou falta de interesse em comida ou atividades) ou mais específicos. Às vezes, nenhum sinal é observado. Os distúrbios mais comuns são apresentados a seguir.

Poliomavírus

O poliomavírus foi identificado pela primeira vez em periquitos (budgies), depois em outros papagaios e periquitos, e, mais recentemente, em tentilhões. O poliomavírus pode infectar aves de todas as idades, mas os filhotes e as aves jovens são os mais suscetíveis. As aves afetadas podem apresentar falta de apetite, diarreia e fraqueza generalizada, sendo que o início desses sinais costuma ser rápido. Podem ocorrer hematomas na pele e nos músculos, e a infecção pode atingir o coração, o fígado e os rins. A infecção costuma ser fatal, e a morte pode ocorrer em 24 a 48 horas. Se a ave sobrevive, pode apresentar crescimento anormal das penas, doenças cardíacas e danos no fígado na fase adulta. As aves adultas podem ser portadoras do vírus e disseminar a infecção. Acredita-se que a prevalência desse vírus em papagaios e periquitos adultos seja alta.

O poliomavírus pode ser transmitido da fêmea para o ovo, mas a maioria das infecções se espalha por contato direto, caspa nas penas e exposição às fezes. As fêmeas expostas podem desenvolver anticorpos protetores que são transmitidos aos filhotes e podem proporcionar imunidade temporária. A prole de fêmeas não expostas apresenta maior risco de infecção por não possuir anticorpos protetores.

Não há tratamento disponível para as aves infectadas. A disseminação do vírus pode ser controlada por meio de testes, isolamento das aves infectadas e vacinação. Como os adultos infectados só eliminam o vírus sob certas condições, a identificação dos adultos infectados pode ser difícil. O controle durante um surto pode ser mantido por meio da desinfecção de utensílios de alimentação manual, incubadoras e criadouros, bem como pela vacinação. As chances de exposição ao poliomavírus podem ser reduzidas seguindo-se rigorosamente os procedimentos padrão de higiene, impedindo o contato de visitantes e aves de fora com os filhotes e utilizando procedimentos de quarentena adequados para todas as novas aves. Primeiramente, o veterinário deve fazer uma triagem para garantir que o poliomavírus aviário não esteja presente.

Existe uma vacina contra a infecção pelo poliomavírus que é administrada em duas doses. Em geral, a vacinação não é recomendada para aves de estimação mantidas sozinhas sem contato com outras aves. A vacinação destina-se a aves que viajam ou têm contato regular com outras aves. A primeira dose pode ser administrada pelo veterinário já na 4ª semana de vida para completar adequadamente o ciclo de vacinação e para permitir o desenvolvimento de imunidade plena. Aves mais velhas recebem 2 vacinas com intervalo de 2 a 4 semanas, e depois 1 dose de reforço anual. Papagaios adultos e juvenis, tanto negativos quanto positivos, podem ser vacinados.

Doença de Pacheco (herpesvírus de Pacheco)

A doença de Pacheco é causada por um herpesvírus, é altamente contagiosa e se desenvolve rapidamente em papagaios. Essa doença está associada ao estresse, que pode fazer com que aves aparentemente saudáveis portadoras do vírus transmitam a infecção para aves suscetíveis. Ela é propagada pelo contato direto entre aves, pelo ar ou pela contaminação fecal de alimentos e água. Araras, papagaios-amazônicos, periquitos-monge e conures são frequentemente envolvidos em surtos da doença. Espécies do Velho Mundo têm menor probabilidade de serem portadoras ou suscetíveis à infecção.

As aves afetadas podem não apresentar sinais da doença até quando estão prestes a morrer. Em geral, elas estão em boas condições e têm um bom apetite. Penas eriçadas, perda de energia e fezes aquosas são sinais que às vezes podem ser observados em aves infectadas. A maioria das aves não se recupera da infecção. O diagnóstico da doença de Pacheco deve ser feito rapidamente para evitar a propagação da infecção. Para obter mais informações, consulte doença de Pacheco.

Outras infecções por herpesvírus

Outros herpesvírus importantes em aves de estimação incluem a cepa responsável pelo crescimento de protuberâncias semelhantes a verrugas nos pés (chamadas papilomas) em espécies Cacatua e uma perda anormal de cor observada nos pés das araras. A doença papilomatosa interna das araras (principalmente araras-de-asa-verde, Ara chloroptera) e papagaios-amazônicos é causada por um herpesvírus relacionado ao que causa a doença de Pacheco. A traqueíte amazônica (inflamação da traqueia), que é uma infecção incomum, também é causada por um herpesvírus.

Infecções por poxvírus

Devido às restrições de importação, o poxvírus, que historicamente era comum em papagaios-de-testa-azul importados, raramente é visto em aves de estimação. No entanto, infecções por poxvírus ainda podem ocorrer em canários e pombos, bem como em diversas espécies de aves selvagens. Esses vírus não são contagiosos para psitacídeos (papagaios).

As aves de estimação podem apresentar um de 3 tipos de sinais clínicos. O primeiro tipo, infecção de pele, é o mais frequente. Essas aves apresentam crescimentos isolados, pequenos abscessos ou crostas na pele de áreas sem penas, como a face (especialmente ao redor dos olhos e da boca), as pernas e os pés. A forma diftérica ou “úmida” é o segundo tipo, que pode seguir a forma cutânea ou ocorrer isoladamente. O inchaço e a secreção ocular são seguidos por lesões nas membranas mucosas da garganta, das vias aéreas superiores e do esôfago. A terceira e mais grave forma ocorre com o rápido início de sinais generalizados, incluindo depressão, coloração azulada da pele, perda de apetite e morte súbita.

Os veterinários costumam recomendar tratamento com vitamina A e antibióticos, pomada para os olhos, calor, umidade, limpeza diária das áreas afetadas e atenção à dieta. As infecções por poxvírus são transmitidas por picadas de insetos (geralmente mosquitos) ou por lesões na pele. Portanto, o controle de mosquitos e o alojamento em ambientes fechados são vitais para prevenir surtos. Existem vacinas disponíveis contra a varíola dos canários e a varíola dos pombos, mas elas protegem apenas as espécies hospedeiras.

Micobacteriose (tuberculose aviária)

A micobacteriose é uma infecção bacteriana que, às vezes, é chamada de tuberculose aviária, embora seja diferente da tuberculose em mamíferos. Algumas espécies de micobactérias estão associadas à micobacteriose em aves de estimação.

A micobacteriose é observada com maior frequência em aves de estimação da família dos papagaios, nas quais geralmente afeta o trato intestinal. A maioria das aves infectadas são adultas. A doença é prolongada e progressiva, afetando o fígado e o trato gastrointestinal. Para muitas aves, a infecção é fatal.

Os sinais de infecção podem incluir perda de apetite, perda de peso (apesar de ter um bom apetite), depressão e diarreia. As aves com infecção em estágio inicial podem não apresentar sinais. O diagnóstico pode ser difícil e é feito de forma mais confiável com biópsia e coloração especial para os organismos. É difícil cultivar os organismos.

O tratamento pode ser difícil e levar até um ano. Além disso, a doença pode ser transmitida de aves para humanos, portanto, é preciso ter muito cuidado para evitar a infecção lavando bem as mãos com água e sabão após o contato com uma ave doente, usando luvas e adotando outras boas práticas de higiene. Embora algumas evidências sugiram que o risco de transmissão de aves de estimação para humanos seja baixo, pessoas idosas, muito jovens ou com sistema imunológico enfraquecido (como indivíduos infectados com o vírus HIV) devem evitar qualquer contato com aves infectadas.

Psitacose (clamidiose, febre do papagaio)

A psitacose ou clamidiose é uma infecção grave causada pela bactéria Chlamydia psittaci. As bactérias são encontradas nas secreções nasais e nas fezes de aves infectadas, aves em recuperação e aves portadoras. Como a doença pode ser transmitida de aves para pessoas, existem regulamentações específicas nos Estados Unidos referentes à notificação e quarentena de aves suspeitas de terem psitacose. Embora ainda seja uma doença preocupante, a infecção por clamídia diminuiu drasticamente desde que a importação de aves sul-americanas foi restringida.

Algumas aves, devido à sua resistência genética, têm menos probabilidade de adoecer quando infectadas e, consequentemente, têm mais chances de se tornarem portadoras. Entre elas, estão pombos, rolas, periquitos, calopsitas, cacatuas e cerca de 100 outras espécies. Outras espécies, como roselas, lóris, mainás, canários e alguns papagaios, têm baixa resistência natural.

Os sinais de psitacose variam dependendo da espécie de ave afetada. Os sinais típicos de infecção incluem penas eriçadas, depressão, respiração ofegante, secreção nos olhos e no nariz, falta de apetite e ausência de vocalização. A presença de fezes verde-limão ou amarelas, especialmente quando a urina também está descolorida, é comum em casos de psitacose. Uma forma de psitacose que ocorre raramente envolve o sistema nervoso central e inclui sinais como tremores, espasmos, torção da cabeça e convulsão. Essa forma é mais reconhecida em papagaios-cinzentos africanos e cacatuas. Além disso, calopsitas e espécies Neophema (periquitos-turquesa, periquitos-de-peito-escarlate) podem apresentar sinais oculares semelhantes a uma conjuntivite ou terçol. A psitacose pode afetar diversos órgãos internos, incluindo o fígado e o coração.

Uma vez diagnosticada a psitacose, o tratamento geralmente envolve a administração de antibióticos por um período prolongado. Aves com crise de clamídia necessitam cuidados intensivos e de suporte (antibióticos injetáveis, fluidos, calor, isolamento, condições extremamente limpas, ausência de estresse), bem como tratamento para os demais sinais.

A melhor maneira de controlar a psitacose é manter as aves suscetíveis longe do agente infeccioso. Como as bactérias podem permanecer infecciosas por muitos meses em excrementos secos, a limpeza e a desinfecção são essenciais. Eliminar correntes de ar e pulverizar a área com desinfetantes apropriados ajuda a minimizar a presença de penas e poeira infecciosas. As aves que já tiveram a doença ou estão em tratamento podem ser reinfectadas.

Como a bactéria pode causar doença tanto em pessoas quanto em aves, deve-se ter o cuidado de sempre praticar uma boa higiene ao cuidar de uma ave doente. Isso inclui o uso de luvas ao manusear a ave, lavagem completa das mãos com água e sabão e desinfecção diária de gaiolas, comedouros e outros utensílios. Todas as aves novas devem ser submetidas a exames de sangue gerais para detecção de psitacose e outras doenças infecciosas antes de serem introduzidas na casa.

Na maioria das regiões, os médicos devem notificar os casos de psitacose às autoridades sanitárias locais, e o tratamento pode precisar ser coordenado e aprovado pelo órgão governamental competente.

Tabela
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Doenças clostridiais

As bactérias clostridiais causam diversos distúrbios em aves, dependendo da espécie envolvida e do local da infecção. As aves são infectadas ao ingerir alimentos ou água contaminados, ao inalar esporos ou bactérias presentes no ar ou em outras superfícies contaminadas ou por infecção de feridas. Um método comum de entrada em aves ocorre quando as bactérias invadem o tecido cloacal danificado (a área onde a urina, as fezes e os uratos aguardam para serem eliminados) em aves com prolapso cloacal ou papilomatose.

Os sinais variam dependendo do tipo de infecção por Clostridium. As cepas patogênicas da bactéria produzem uma toxina no intestino delgado das aves, resultando em rápida perda de condição física e de peso, comportamento letárgico, diminuição do apetite e alimentos com sangue ou não digeridos. A toxina e seus efeitos podem permanecer no organismo por um longo período, mesmo após o tratamento da infecção bacteriana original.

Para prevenção, minimize o estresse e a superlotação, assegure uma ventilação adequada e forneça uma dieta nutricionalmente equilibrada. Armazene a ração corretamente para impedir o crescimento de bactérias. Os esporos podem estar presentes no milho e em produtos derivados de grãos, bem como em rações extrusadas ou pellets industrializados, e podem desenvolver crescimento bacteriano se não forem armazenados adequadamente. As fezes de animais de estimação (cães e gatos) também podem abrigar essas bactérias.

Outras doenças bacterianas

Vários tipos de bactérias podem causar doenças em aves. Algumas dessas bactérias estão normalmente presentes no corpo ou no ambiente da ave, mas não causam doenças, exceto em certas circunstâncias, como em aves muito jovens, idosas, fracas, estressadas ou com sistema imunológico comprometido. Espécies de Pseudomonas, Aeromonas, Salmonella, Klebsiella, Enterobacter, Proteus e Citrobacter, bem como Escherichia coli e Serratia marcescens são bactérias frequentemente isoladas em aves. As espécies de Pasteurella foram relatadas como possíveis agentes causadores de infecção em aves mordidas por outros animais, como gatos domésticos ou ratos.

Intoxicação por metais pesados

Os metais pesados, como o chumbo e o zinco, são comuns no meio ambiente, por isso, é importante limitar a exposição das aves a eles. As aves não devem brincar fora da gaiola sem supervisão. O ambiente deve ser inspecionado para verificar a presença de metais pesados, e as fontes devem ser removidas da área se possível. Como os materiais utilizados em gaiolas e cercas são fontes comuns de metais pesados, é importante selecionar materiais não tóxicos. Devem-se usar aço inoxidável e arame soldado. Os grampos da gaiola devem ser feitos de ligas que não contenham chumbo e zinco.

A intoxicação por chumbo e zinco são as duas causas mais comuns de intoxicação em aves engaioladas. A intoxicação por zinco é mais comum do que por chumbo, devido à maior conscientização sobre os perigos do chumbo e ao aumento do uso de materiais galvanizados. A galvanização é um processo de revestimento de outros metais, como o ferro, com uma superfície à base de zinco para evitar a ferrugem. Essa galvanização é encontrada em grande parte dos arames e de outros componentes utilizados na construção de gaiolas caseiras.

As possíveis fontes de chumbo são tinta antiga, vitrais, contrapesos de chumbo para cortinas, pesos de chumbo para pesca e solda de chumbo. Os sinais de intoxicação por metais pesados incluem regurgitação de água, sede excessiva, depressão, falta de energia e fraqueza. Tremor, falta de coordenação, excitabilidade ou convulsão podem ocorrer em casos de intoxicação por chumbo.

O veterinário suspeita de intoxicação por metais pesados quando os sinais de toxicidade são acompanhados pela presença de metal na moela, detectada em uma radiografia. A tinta, porém, não é visível na radiografia. Portanto, o diagnóstico de intoxicação por metais pesados só pode ser confirmado com certeza pelos níveis de chumbo, zinco ou outros metais no sangue. O tratamento inicial, além dos cuidados de suporte, geralmente consiste em um dos medicamentos da classe dos agentes quelantes, que são injetados no músculo até que a ave não apresente mais sinais. Quando a ave estiver estável, pode-se administrar um agente quelante por via oral em casa. Se a toxicidade não for grave, a resposta da ave ao tratamento costuma ser rápida. Como em todos os casos de intoxicação, a prevenção é fundamental.

Intoxicação por vapores e aerossóis

Muitos responsáveis sabem do perigo que ocorre quando superfícies revestidas com produtos antiaderentes ou outros fluoropolímeros são superaquecidas. Utensílios de cozinha e assadeiras antiaderentes, fornos autolimpantes, algumas lâmpadas de aquecimento (fabricadas para a indústria alimentícia), muitas fritadeiras elétricas sem óleo, alguns fornos elétricos e máquinas de waffle e até mesmo certos secadores de cabelo contêm revestimentos de fluoropolímero. Quando aquecidos, esses aparelhos podem liberar um gás inodoro e incolor que pode ser instantaneamente fatal para as aves se inalado. Os fluoropolímeros começam a liberar partículas a temperaturas tão baixas quanto 202 °C (396 °F) e liberam partículas de fluoropolímero vaporizadas a partir de 240 °C (464 °F). Essas temperaturas são normalmente atingidas durante o cozimento normal. Por exemplo, ao cozinhar carne, a temperatura normal de fritura situa-se entre 204 e 232 °C (400 a 450 °F). Quando aquecidos a 360 °C (680 °F) ou mais, os fluoropolímeros liberam vapores ácidos que podem ser letais para as aves. Essa temperatura pode ser atingida ao cozinhar carne em grelhas ou ao usar a função de limpeza em alguns fornos autolimpantes.

Os vapores de fluoropolímeros não são o único risco químico para aves em ambientes domésticos. Diversos produtos em aerossol (incluindo alguns desodorizadores de carpetes), plásticos derretidos ou queimados em forno de micro-ondas ou novos sistemas de dutos de aquecimento também podem ser irritantes ou tóxicos para aves engaioladas ( See also heading on page Household Hazards for Pet Birds).

Os sinais de intoxicação incluem dificuldade para respirar, sinais neurológicos e morte súbita. Na maioria dos casos, a exposição é fatal antes que qualquer providência possa ser tomada, mas se você tiver tempo, leve a ave para um local com ar fresco e, em seguida, ao veterinário o mais rápido possível. O ideal é colocar a gaiola bem afastada de qualquer vapor que possa ser produzido durante o cozimento. As gaiolas devem estar sempre bem ventiladas.

Para obter mais informações

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