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Hepatozoonose do velho mundo e hepatozoonose canina americana

PorKelly E. Allen, PhD, Department of Veterinary Pathobiology, College of Veterinary Medicine, Oklahoma State University
Revisado/Corrigido mar. 2022 | Modificado set. 2024
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A doença associada com a infecção por Hepatozoon canis ou hepatozoonose do Velho Mundo, varia de subclínica e crônica a grave e potencialmente fatal. Os sinais incluem febre, letargia, anorexia e anemia. H. americanum é o agente causador da hepatozoonose canina americana (HCA), um quadro clínico que é mais comumente grave a fatal, com características clínicas marcantes como febre, secreção ocular mucopurulenta, atrofia muscular, dor muscular e óssea, claudicação e decúbito. Em geral, H. canis é diagnosticado pela observação de parasitas intraleucocitários ou por PCR. As infecções são muito comumente tratadas com dipropionato de imidocarb por 2 a 3 meses. As infecções de HCA podem ser diagnosticadas por sinais clínicos, PCR, observação de parasitas ou lesões associadas em biópsias musculares e radiografias. O tratamento é feito com antibióticos e AINEs durante 2 semanas, seguido por decoquinato diariamente por pelo menos 2 anos.

Etiologia, epidemiologia e transmissão da hepatozoonose em cães

A hepatozoonose do Velho Mundo é uma doença transmitida por carrapatos, que afeta canídeos selvagens e domésticos, causada pelo agente protozoário Hepatozoon canis. O organismo é transmitido pelo carrapato-vermelho-do-cão, Rhipicephalus sanguineus. Na América do Norte, Hepatozoon americanum, o agente causador da hepatozoonose canina americana (HCA) é transmitido pelo carrapato da Costa do Golfo, Amblyomma maculatum em vez do carrapato-vermelho-do-cão. H. canis e H. americanum, embora muito relacionados, resultam em síndromes clinicamente diferentes em cães infectados, e as diferenças genéticas e antigênicas entre os organismos respaldam sua classificação como espécies diferentes.

O H. canis é relatado em muitas regiões do mundo, como Ásia, África, ilhas do Caribe, Europa e América do Sul. Antes de 2008, o H. canis não infectava canídeos na América do Norte, apesar da presença de R. sanguineus, mas evidências moleculares surgiram posteriormente sugerindo o contrário. Ainda, HCA permanece a forma mais comum e grave de hepatozoonose canina nos Estados Unidos. A hepatozoonose canina americana é uma doença emergente que foi disseminada primariamente para o norte e leste da costa do Golfo do Texas, onde foi detectada pela primeira vez em 1978. A distribuição desse parasita acompanha principalmente a distribuição do carrapato da Costa do Golfo, embora casos esporádicos tenham sido relatados em locais geográficos distintos, presumivelmente devido ao histórico de viagens. A tabela associada indica os estados nos quais as infecções por H. canis, H. americanum, e infecções concomitantes por H. canis e H. americanum foram relatadas em cães domésticos.

Tabela
Tabela

O modo de transmissão da hepatozoonose não representa o sentido clássico de uma doença transmitida por carrapatos, como outras espécies do gênero, as infecções por H. canis e H. americanum ocorrem quando os carrapatos infectados, o hospedeiro definitivo, são ingeridos pelos hospedeiros caninos. Os esporozoítos liberados dos oócitos maduros na hemocele dos carrapatos entram nos hospedeiros caninos por meio do trato gastrointestinal. Os cães também podem desenvolver HCA após ingerir os hospedeiros paratêmicos (transporte) que contêm os citozoicos, um estágio de repouso de H. americanum encistado dentro dos tecidos.

Em geral, os cães imunocompetentes parecem tolerar muito bem a infecção por H. canis. Embora tenham sido relatadas infecções que representam risco à vida, os sinais clínicos associados com a infecção por H. canis são mais frequentemente subclínicas a leves. Contudo, H. americanum causa sinais clínicos graves na maioria dos cães infectados, com ocorrência de morte em 1 a 2 anos sem tratamentos de suporte, a imunossupressão ou a doença concomitante não parecem induzir necessariamente a síndrome grave.

Achados clínicos de hepatozoonose em cães

Os estágios teciduais de H. canis residem na medula óssea, nos gânglios linfáticos e no baço e, diferentemente dos pacientes com HCA, os cães infectados pelo parasita do Velho Mundo não parecem apresentar dor na avaliação clínica inicial; em cães com doença manifesta, podem ser observados sinais clínicos inespecíficos, incluindo febre, letargia, depressão e anemia.

Os estágios teciduais de H. americanum induzem inflamação piogranulomatosa, resultando em sinais clínicos como febre, depressão, perda de peso, condição corporal ruim, atrofia muscular, dor e fraqueza; secreção ocular mucopurulenta é comum, e diarreia com sangue ocorre ocasionalmente. A febre, que pode variar conforme o aparecimento e desaparecimento dos sinais clínicos, varia de 39,3 °C a 41 °C (102,7 °F a 106 °F) e não responde a antibióticos. Surpreendentemente, muitos cães mantêm o apetite normal se o alimento for colocado diretamente na frente deles, mas frequentemente não se movem para se alimentar, aparentemente devido à dor intensa. Hiperestesia, presumidamente devido à inflamação grave dentro do músculo e às vezes no osso, manifesta-se como rigidez e relutância para se mover, bem como rigidez cervical e/ou do tronco. As sequelas de longo prazo são glomerulonefrite e amiloidose.

Diagnóstico de hepatozoonose em cães

  • Avaliação clínica e histórico do paciente

  • Hemograma completo (HC) e painel bioquímico

  • Citologia

  • PCR

  • Biópsia do músculo e avaliação histológica

  • Radiografia óssea

O histórico do paciente de exposição a carrapatos, viagens e, nos casos de suspeita de HCA, predação de roedores ou coelhos é um fator importante a ser considerado ao formular um possível diagnóstico de hepatozoonose canina, em conjunto com o exame clínico e os exames laboratoriais. A anormalidade mais comum no exame de sangue de cães infectados com H. canis é a anemia. As anormalidades da bioquímica sérica podem incluir aumento das atividades da creatina quinase (CK) e da fosfatase alcalina (FA) bem como hipoproteinemia com hiperglobulinemia policlonal e hipoalbuminemia. A parasitemia em cães com infecção clínica por H. canis é frequentemente muito alta e o diagnóstico pode ser facilmente realizado por exame microscópico de lâminas de sangue coradas com Romanowsky para visualizar os leucócitos com parasita ou por PCR para detectar o DNA do parasita no sangue periférico. Hepatite, pneumonia e glomerulonefrite associados aos estágios teciduais de H. canis foram relatados pós-morte em alguns animais com parasitemia extremamente alta.

Em cães com HCA, a anormalidade laboratorial mais padronizada é a leucocitose neutrofílica, com contagens variando de 20.000 a 200.000 células/μL. Em geral, trata-se de uma neutrofilia acentuada e madura, embora possa estar presente um desvio à esquerda. Também é comum a anemia leve a moderada. A contagem de plaquetas é, em geral, de normal a alta. As anormalidades de bioquímica sérica em pacientes com HCA são semelhantes às observadas ocasionalmente em pacientes com H. canis . O diagnóstico definitivo de HCA em pacientes com suspeita é feito pela identificação de gamontes raros nos leucócitos do sangue periférico, pela detecção ocasional do parasita circulante por PCR ou pela identificação de cistos patognomônicos em “casca de cebola” ou piogranulomas em cortes corados de músculo obtidos por biópsia.

Apesar de invasiva, a biópsia muscular é considerada o padrão ouro para diagnosticar HCA, porque os parasitas e as lesões associadas são frequentemente amplamente distribuídos por todo o tecido muscular (especialmente em áreas com atrofia observável); biópsias múltiplas ou sequenciais podem ser necessárias em alguns animais.

As radiografias em pacientes com HCA podem mostrar reações periósteas envolvendo qualquer osso, inclusive o crânio e as vértebras. As lesões se assemelham às da osteopatia hipertrófica, exceto pelo fato de tenderem a ser proximais em vez de distais, e frequentemente muito evidentes em ossos longos; desconhece-se a base fisiológica da proliferação óssea em animais com infecção por H. americanum.

Não foram desenvolvidos ensaios sorológicos disponíveis comercialmente para detectar a infecção hepatozoonose canina. Os métodos de PCR para detectar Hepatozoon spp. circulantes estão disponíveis em diversas instituições acadêmicas, embora os ensaios possam ter pouca sensibilidade no diagnóstico de infecções por H. americanum devido aos baixos níveis de parasitemia em pacientes com HCA. O uso desses testes moleculares revelaram que a hepatazoonose causada por H. canis é mais comum na América do Norte do que era previamente conhecido.

Tratamento da hepatozoonose em cães

  • Terapia antiprotozoária

  • Cuidados de suporte

  • Produtos para controle de carrapatos

  • Como evitar a predação

A hepatozoonose é geralmente considerada uma infecção por toda vida em cães. Não existe nenhum regime terapêutico conhecido que permita que os animais fiquem completamente livres desses organismos. As infecções por H. canis são tratadas com dipropionato de imidocarbe, duas vezes ao mês, entre 5 e 6 mg/kg, SC, até que o parasita não seja mais evidente em esfregaços de sangue durante 2 a 3 meses consecutivos. O prognóstico frequentemente depende do grau da parasitemia; os cães com baixa parasitemia em geral respondem bem ao tratamento, enquanto os cães com alta parasitemia podem não responder, especialmente se apresentarem doença concomitante.

A remissão de sinais clínicos associados com a infecção por H. americanum pode em geral ser atingida ao fim de um período de 14 dias da terapia de combinação, citada como TCP, composta por trimetoprima-sulfadiazina (15 mg/kg, via oral, a cada 12 horas), clindamicina (10 mg/kg, via oral, a cada 8 horas) e pirimetamina (0,25 mg/kg, via oral, a cada 24 horas), ou ponazuril (10 mg/kg, via oral, a cada 12 horas). A remissão com essas terapias frequentemente é temporária, muitos cães apresentam recidivas em 2 a 6 meses. Decoquinato misturado à alimentação em uma dose de 10 a 20 mg/kg é administrado a cada 12 horas como uma terapia adjunta ao TCP inicial ou tratamento com ponazuril durante pelo menos 2 anos para ajudar a prevenir a recidiva. Os AINEs podem ser o melhor tratamento para controle da febre e da dor, especialmente durante os primeiros dias iniciais do tratamento com TCP ou ponazuril. A administração de glicocorticoides deve ser evitada porque, embora os esteroides possam oferecer alívio temporário, o uso em longo prazo pode exacerbar a doença.

A prevenção do acesso a carrapatos e a desestimulação da predação são as formas mais eficazes de controlar a hepatozoonose. A predação representa um risco duplo para obter HCA: a presa capturada ou ingerida por cães pode estar infectada por carrapatos em seus pelos, que proporcionariam uma fonte de esporozoítos; além disso, as presas podem ter cistozoítos (pelo menos no caso de H. americanum), que também são infecciosos. Ademais, os cães diagnosticados com hepatozoonose não devem ser usados como matrizes, porque a transmissão transplacentária de H. canis foi documentada. Embora a transmissão vertical de H. americanum não tenha sido relatada, pode ser possível.

Não há risco zoonótico conhecido associado à hepatozoonose.

Pontos-chave

  • A hepatozoonose canina é causada por H. canis e H. americanum, que são protozoários parasitas transmitidos por carrapatos causando manifestações clínicas em pacientes caninos após a ingestão de carrapatos infectados.

  • A infecção por H. canis frequentemente leva a doença clínica leve a moderada, com anemia em alguns casos, enquanto a infecção por H. americanum frequentemente resulta em uma síndrome clínica grave conhecida como hepatozoonose canina americana (HCA), cujos pacientes em geral exibem febre, secreção ocular mucopurulenta, dor intensa, atrofia muscular e contagens elevadas de neutrófilos.

  • O diagnóstico da hepatozoonose canina é frequentemente baseado no histórico do paciente, sinais clínicos, exames de sangue e citologia, PCR do sangue periférico e, no caso da HCA, lesões histopatológicas características evidentes no tecido muscular biopsiado.

  • As infecções por H. canis são tratadas com dipropionato de imidocarb (5 a 6 mg/kg, SC), 2 vezes ao mês por 2 a 3 meses consecutivos, enquanto as infecções por H. americanum são tratadas com terapia antibiótica de combinação por 14 dias (trimetoprim-sulfadiazina em 15 mg/kg, via oral, a cada 12 horas; clindamicina a 10 mg/kg, via oral, a cada 8 horas; e pirimetamina a 0,25 mg/kg, via oral, a cada 24 horas) ou ponazuril (10 mg/kg, via oral, a cada 12 horas) seguido pela administração em longo prazo de decoquinato (10 a 20 mg/kg, via oral, a cada 12 horas, misturado na alimentação); os produtos para controle de carrapatos são recomendados para ajudar a prevenir a infecção.

  • Os esquemas de tratamento recomendados para hepatozoonose canina não são curativos e os prognósticos são considerados reservados, especialmente para pacientes com HCA. Os sinais clínicos geralmente diminuem com o tratamento e os animais voltam a ter uma boa qualidade de vida.

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