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Infecções micoplásmicas hemotrópica em animais

(Hemoplasmas)

PorJanet E. Foley, DVM, PhD, Department of Medicine and Epidemiology, School of Veterinary Medicine, University of California, Davis
Revisado/Corrigido mar. 2022 | Modificado set. 2024
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Hemoplasmas são bactérias do gênero Mycoplasma desprovidas de parede celular e se fixam aos eritrócitos dos hospedeiros alvos, possivelmente causando a anemia com base no sistema imune do hospedeiro. Muitas infecções são assintomáticas. O diagnóstico pode ter como base análise microscópica ou PCR. Os antibióticos e o tratamento de suporte são os tratamentos usuais.

Hemoplasmas, ou micoplasmas hemotrópicos, são os parasitas epieritrócitários dentro da ordem Mycoplasmatales. A taxonomia moderna aceita provisoriamente que o gênero Mycoplasma agora contém os gêneros previamente conhecidos como Haemobartonella e Eperythrozoon com base na ausência de parede celular dos hemoplasmas, no uso do códon UGA para codificar o triptofano e nas sequências do gene rRNA 16S. Essas espécies para as quais a caracterização não teve como base a cultura bacteriana recebem a designação “Candidatus”.

Hemoplasmas infectam uma ampla variedade de vertebrados em todo o mundo, com vários relatados por infectar seres humanos. Apresentam características morfológicas como estruturas na forma de bastonete, coco e anel, encontradas individualmente ou em cadeias no eritrócito, e com coloração gram-negativa devido à ausência de parede celular. Nenhum dos hemoplasmas foi cultivado in vitro. Hemoplasmas fixam-se à superfície dos eritrócitos do hospedeiro e podem, em determinadas condições, penetrar na célula.

Vários hemoplasmas representam importância veterinária ( consulte a Tabela: Hemoplasmas de importância veterinária). Além de variarem o tropismo do hospedeiro, esses organismos também variam em sua capacidade de causar anemia hemolítica clinicamente significativa.

Tabela
Tabela

Transmissão de micoplasmas hemotrópicos em animais

Hemoplasmas podem ser transmitidos pela transferência do sangue infectado (transfusão de sangue; uso de agulhas ou instrumentos contaminados; ou equipamentos contaminados para o manejo de rebanho ou bando) ou por meio de vetores artrópodes, como piolhos, moscas, carrapatos e mosquitos. A transmissão vertical da mãe para a prole foi relatada em gatos, suínos e camelídeos. A transmissão direta, possivelmente associada com brigas, é suspeita em gatos e respaldada por estudos que relatam a presença de DNA de hemoplasma na saliva, na gengiva e em arranhadores de gatos infectados.

Achados clínicos de micoplasmas hemotrópicos em animais

Hemoplasmas podem causar anemia hemolítica, mas a gravidade varia muito. A maioria dos animais desenvolvem infecções assintomáticas, sendo as anemias agudas mais graves associadas com determinadas cepas de hemoplasma, esplenectomia, imunocomprometimento, infecções concomitantes (como com vírus da leucemia felina ou vírus da imunodeficiência felina em gatos) ou coinfecção com várias espécies de hemoplasma. Digno de nota, M. haemofelis causa anemia hemolítica aguda, possivelmente grave ou fatal em gatos saudáveis. Os sinais clínicos comuns são letargia, anorexia e febre, e esplenomegalia e icterícia ocorrem com menos frequência.

M. haemocanis causa hemólise aguda em cães esplenectomizados, mas as infecções são em geral assintomáticas em cães saudáveis.

M. suis causa anemia hemolítica acompanhada por icterícia em leitões neonatos, leitões em fase de engorda e porcas prenhes. A infecção crônica está associada com baixas taxas de crescimento, diminuição das taxas de concepção, falha reprodutiva e redução da produção de leite.

A infecção por M. wenyonii em bovinos é em geral assintomática, mas uma síndrome de edema de glândula mamária e dos membros posteriores, diminuição da produção de leite, febre e linfadenopatia foi descrita em novilhas jovens, primíparas e não anêmicas. Relatou-se que a infecção em touros jovens causa edema escrotal e dos membros posteriores.

A infecção por M. ovis em ovelhas e cabras é frequentemente assintomática, mas pode ocorrer anemia hemolítica em animais jovens, especialmente aqueles com alta carga parasitária intestinal. A infecção crônica pode resultar em baixo ganho de peso, intolerância ao exercício, diminuição da produção de lã e anemia leve.

A infecção por hemoplasma em camelídeos pode causar uma anemia hemolítica grave em crias jovens.

A prevalência de infecção crônica em ovelhas, porcos e cães criados em canis é alta e surtos da doença aguda foram relatados em animais durante os estudos. A presença da infecção por hemoplasma afeta os resultados experimentais e leva ao erro de interpretação dos dados.

A hemólise causada pelas infecções por hemoplasma é mediada pelo sistema imunológico e geralmente é extravascular, resultando em anemia regenerativa. A aglutinação de eritrócitos pode estar presente e os resultados do teste de Coombs são frequentemente positivos em gatos infectados por M. haemofelis. Cães esplenectomizados com hemólise aguda devido ao M. haemocanis podem ter aglutinação, esferocitose e resultado positivo para o teste de Coombs. A hipoglicemia secundária ao consumo de glicose pelas bactérias foi relatada em porcos, ovelhas, lhamas e bezerros altamente parasitados. Contudo, a rápida glicose bacteriana in vitro também pode causar diminuições artificiais da glicemia.

Diagnóstico de micoplasmas hemotrópicos em animais

  • Microscopia ou PCR

Historicamente, o diagnóstico de hemoplasmas foi feito com base na detecção de organismos nos esfregaços de sangue corados com Wright de rotina, no qual aparecem como estruturas pequenas (0,5 a 3 mcm), basofílicas, redondas, em forma de bastonete ou de anel presentes nos eritrócitos individuais ou em cadeias ou às vezes são observados livres no fundo. Entretanto, a sensibilidade do esfregaço de sangue pode ser baixa, porque a parasitemia em infecções crônicas pode ser cíclica e os organismos podem desaparecer de circulação em apenas 2 horas. Os hemoplasmas se dissociam dos eritrócitos e morrem após uma quantidade variável de tempo em EDTA, dificultando a detecção dos organismos em amostras antigas. A especificidade do teste também é baixa se houver poucos organismos e se a morfologia característica não estiver presente para se diferenciar do artefato da coloração ou de outras estruturas não patogênicas.

Os ensaios de PCR capazes de diferenciar os hemoplasmas melhoraram significativamente o diagnóstico desses parasitas e levam à identificação de várias novas espécies de Mycoplasma. PCR pode ser realizado em sangue completo e aspirados do baço.

Tratamento e controle de micoplasmas hemotrópicos em animais

  • Antimicrobiano e tratamento de suporte

Para as infecções hemoplasmáticas agudas, as tetraciclinas (doxiciclina, oxitetraciclina) são a base do tratamento; pradofloxacina e marbofloxacina também têm se mostrado eficazes contra M. haemofelis. Os glicocorticoides podem ser úteis para diminuir a eritrofagocitose em casos de hemólise grave porque o mecanismo primário do dano é o ataque imunomediado às células hospedeiras infectadas. Alguns animais podem precisar de transfusão de sangue, mas os animais precisam ser cuidadosamente monitorados porque o parasita pode infectar rapidamente as células transfundidas. Os animais tratados podem permanecer portadores e apresentar recidivas clínicas periódicas com parasitemia reemergente se o animal estiver estressado ou imunocomprometido.

Assim que uma infecção inicial for controlada, naturalmente ou após tratamento com antibiótico, a imunidade protetora se desenvolve contra a infecção repetida por M. haemofelis. Não se sabe por quanto tempo essa imunidade durará e se ela se aplica a outras infecções por hemoplasma.

Os doadores de sangue podem ser selecionados usando ensaios de DNA por PCR para evitar a transmissão para os destinatários da transfusão. A transmissão iatrogênica pode ser evitada pelo uso de agulhas e equipamentos adequadamente esterilizados. Recomenda-se o controle de vetores artrópodes, bem como a minimização do estresse no manejo de rebanhos e bandos.

Risco zoonótico de micoplasmas hemotrópicos

As infecções por hemoplasma são em geral específicas da espécie, exceto para M. ovis, que infecta ovelhas e cabras, e “Candidatus M. haemolamae”, que infecta lhamas e alpacas. Existem relatos de eperitrozoonose humana na Mongólia Interior, China, mas as evidências não são convincentes. Também há relatos raros de infecções por hemoplasma em pessoas imunocomprometidas que foram confirmadas por métodos moleculares. Um relato documentou um paciente humano positivo para HIV coinfectado com Bartonella henselae e um hemoplasma geneticamente semelhante a M. haemofelis. Esse indivíduo tinha cinco gatos e apresentava vários arranhões e mordidas. Todos os cinco gatos eram PCR positivos para espécies de Bartonella, e dois foram positivos para M. haemofelis, sugerindo a possibilidade de transmissão zoonótica. A coinfecção de um veterinário no Texas com B. henselae e M. ovis também foi relatada.

Anemia infecciosa felina

(Hemoplasmose)

Em gatos, a micoplasmose hemotrópica pode produzir uma doença chamada anemia infecciosa de felinos (AIF), anteriormente conhecida como hemobartonelose. A M. haemofelis (anteriormente a cepa Ohio, ou a forma grande de Haemobartonella felis) é o organismo mais patogênico que causa AIF e pode causar anemia hemolítica em gatos imunocompetentes. “Candidatus M. haemominutum” (anteriormente a cepa da Califórnia, ou a forma pequena de H. felis) é o hemoplasma mais comum em populações de gatos no mundo inteiro, mas não foi claramente associada com a doença em gatos imunocompetentes. “Candidatus M. turicensis” nunca foi observado em esfregaços de sangue e sua patogenicidade não é bem compreendida. Ambas as espécies de Candidatus podem ser capazes de induzir anemia em gatos com doença imunossupressora subjacente, como infecção por vírus da leucemia felina.

No caso da infecção por M. haemofelis, um período de incubação de 2 a 30 dias é seguido por anemia, com alguns gatos desenvolvendo alterações cíclicas no hematócrito que coincidem com o aparecimento de um grande número de organismos em esfregaços sanguíneos. Em gatos não tratados, essa fase aguda dura 3 a 4 semanas, após esse período alguns gatos podem permanecer cronicamente infectados apesar dos valores de hematócrito estarem normais ou próximos ao normal. Sugeriu-se que a recidiva da anemia pode ocorrer quando esses gatos cronicamente infectados são submetidos a doenças debilitantes, estresse ou terapias imunossupressoras.

Todos os gatos anêmicos, especialmente os gatos com anemia apresentando evidência de regeneração (policromasia e/ou reticulocitose), podem levantar suspeita de AIF. A gravidade dos sinais clínicos se correlaciona com a rapidez da apresentação inicial da anemia. Os achados clínicos são fraqueza, palidez das membranas mucosas, taquipneia, taquicardia e ocasionalmente colapso. Os gatos com a doença aguda podem estar febris e gatos moribundos podem estar hipotérmicos. Outras anormalidades do exame físico podem ser sopros cardíacos, esplenomegalia e icterícia. Em casos crônicos ou de desenvolvimento lento, pode haver apresentação de temperatura corporal normal ou subnormal, fraqueza, depressão e perda de peso ou emagrecimento.

As anormalidades laboratoriais esperadas são anemia de moderada a acentuadamente regenerativa, aumento do número de eritrócitos nucleados, policromasia, anisocitose, corpúsculos de Howell-Jolly e aumento da contagem de reticulócitos. Os testes de Coombs podem se tornar positivos de 7 a 14 dias após os organismos aparecerem no sangue e permanecerem positivos durante toda a fase aguda, revertendo-se para negativo em gatos portadores cronicamente infectados.

A confirmação laboratorial tem tradicionalmente como base a identificação de organismos no sangue periférico usando microscopia óptica, embora M. haemofelis seja visível em menos de 50% das vezes em gatos com infecção aguda. Os ensaios de PCR estão disponíveis em muitos laboratórios e são consideravelmente mais sensíveis e específicos do que a avaliação do esfregaço de sangue.

Sem tratamento, um terço dos gatos com doença aguda podem morrer. O tratamento envolve tratamentos de suporte, como oxigênio e transfusões de sangue, bem como tratamento específico com doxiciclina (10 mg/kg/dia, via oral, por no mínimo 2 semanas). Devido à possibilidade de esofagite e estenoses esofágicas, a administração de preparações de hiclato de doxiciclina deve ser seguida pela administração de vários mililitros de água em bólus. Tanto a marbofloxacina como a pradofloxacina são alternativas adequadas à doxiciclina. O tratamento de gatos saudáveis com PCR positivo não é recomendado atualmente, pois ainda não foi identificado nenhum esquema terapêutico que elimine completamente o organismo. As doses imunossupressoras de glicocorticoides para suprimir a lesão de eritrócitos imunomediados podem ser usadas em gatos que não respondem à monoterapia antimicrobiana ou quando a anemia hemolítica imunomediada primária é uma causa possível.

Pontos-chave

  • Hemoplasmas são bactérias do gênero Mycoplasma que infectam eritrócitos de várias espécies de animais.

  • A infecção é frequentemente assintomática, mas pode ser diagnosticada por microscopia ou por PCR.

  • Os tratamentos incluem antibióticos e tratamento de suporte.

Para obter mais informações

  • Consulte também o conteúdo sobre a saúde de animais de estimação a respeito de parasitas sanguíneos em gatos e cães.