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Leptospirose em animais — Considerações gerais

PorKatharine F. Lunn, BVMS, PhD, DACVIM-SAIM, Department of Clinical Sciences, College of Veterinary Medicine, North Carolina State University
Revisado/Corrigido fev. 2022 | Modificado set. 2024
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A leptospirose é uma doença zoonótica com uma distribuição mundial, causada pela infecção por algum dos vários sorovares patogênicos de Leptospira. A doença afeta quase todos os mamíferos e conta com uma ampla variedade de efeitos, de infecção leve e subclínica até insuficiência de múltiplos órgãos e morte. Os principais achados são doença renal, hepática e respiratória. O diagnóstico é mais bem realizado pela combinação de exames sorológicos e ensaio de PCR. A terapia antimicrobiana em geral é eficaz; contudo, o dano ao órgão pode ser permanente.

Leptospirose é uma doença zoonótica causada pela infecção por algum dos vários sorovares patogênicos de Leptospira. A doença afeta quase todos os mamíferos e conta com uma ampla variedade de efeitos, de infecção leve e subclínica até insuficiência de múltiplos órgãos e morte. Leptospira se mantém na natureza por meio de infecção renal crônica dos animais portadores — em geral, ratos, cães, bovinos, cavalos, ovelhas, cabras e porcos. Esses animais podem eliminar leptospiras na urina por anos. Cães e ratos provavelmente são as fontes mais comuns de infecção em seres humanos.

Leptospirose em gatos continua pouco descrita, mas há evidência a partir de estudos com exames sorológicos e ensaio de PCR de que os gatos podem ser infectados com leptospiras e podem disseminar os organismos, sendo provável que gatos com acesso ao ambiente externo apresentem maior risco. Os gatos poderiam contribuir para a contaminação ambiental e possivelmente transmitir a infecção. Há muito trabalho a ser feito nesta área. Entretanto, é provável que os gatos sejam suscetíveis à leptospirose e possam apresentar sinais clínicos semelhantes aos dos cães, embora haja suspeita de que a maioria das infecções seja leve ou subclínica.

Etiologia da leptospirose em animais

Leptospiras são espiroquetas aeróbias, Gram-negativas, fastidiosas, de crescimento lento e apresentam motilidade semelhante à de um saca-rolhas. A taxonomia de Leptospira é complexa e pode ser confusa. Tradicionalmente, as Leptospiras são divididas em dois grupos: primeiro, as patogênicas, L. interrogans, e saprófitas, L. biflexa. Dentro de cada uma dessas espécies, os sorovares leptospirais eram frequentemente agrupados em sorogrupos relacionados antigenicamente. Com o aumento do uso de informações genômicas para a classificação de bactérias, o gênero Leptospira foi reorganizado em genomoespécies. A nomenclatura revisada agora é refletida na literatura científica, mas não em bulas e rótulos de vacinas e produtos farmacêuticos. Felizmente, para os profissionais da saúde, os nomes de sorovares e sorogrupos permanecem em uso comum e são úteis para a discussão da epidemiologia, exames sorológicos, características clínicas, tratamento e prevenção de leptospirose.

Suscetibilidade do hospedeiro, epidemiologia e transmissão da leptospirose em animais

Todos os mamíferos são potencialmente suscetíveis à infecção por Leptospira patogênica. Dentre os animais domésticos comuns e animais de produção, a leptospirose é mais frequentemente reconhecida em bovinos, suínos, cães e cavalos. A leptospirose na vida selvagem é comum, embora a doença seja mais frequentemente notada apenas quando os animais selvagens atuam como fonte de infecção de animais domésticos ou seres humanos.

A leptospirose é encontrada no mundo inteiro e é considerada uma doença infecciosa reemergente. A infecção (e a doença) é mais prevalente em climas quentes e úmidos e é endêmica na maior parte dos trópicos. Em climas temperados, a doença é mais sazonal, com incidência mais alta após períodos chuvosos.

Embora mais de 250 sorovares de Leptospiras patogênicas sejam reconhecidos, os sorovares leptospirais em um determinado subgrupo são prevalentes em uma região ou um ecossistema particular, além de serem associados a um ou mais hospedeiros de manutenção, que servem como reservatórios de infecção. Os hospedeiros de manutenção são frequentemente espécies selvagens e, às vezes, animais domésticos e animais de produção. Nos hospedeiros de manutenção, a leptospirose é caracterizada, em geral, pela alta prevalência de infecção, baixos níveis de anticorpos, poucos organismos nos tecidos, sinais clínicos agudos relativamente leves e infecção persistente nos rins e, algumas vezes, no trato genital.

Tabela
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Em hospedeiros incidentais, a leptospirose é caracterizada pela baixa prevalência de infecção, sinais clínicos graves e uma fase renal curta da infecção. As infecções em hospedeiro incidental produzem uma resposta de anticorpos acentuada, e há grande número de organismos nos tecidos dos animais infectados. São exemplos deste tipo de infecção: infecção em cães pelo sorovar Grippotyphosa ou infecção em bovinos e suínos pelo sorovar Icterohaemorrhagiae.

A transmissão entre os hospedeiros de manutenção é frequentemente direta e envolve o contato com urina, líquidos placentários ou leite infectados. Além disso, a infecção pode ser transmitida por meio sexual ou transplacentário. A infecção de hospedeiros incidentais é mais comumente indireta, por meio do contato com áreas contaminadas com urina de hospedeiros de manutenção afetados subclinicamente que liberam leptospiras na urina. A sobrevivência de leptospiras é favorecida pela umidade e por temperaturas moderadamente quentes; a sobrevivência é curta em solo seco ou em temperaturas < 10°C or >34 °C. Os organismos são eliminados pelo congelamento, pela desidratação ou pela luz solar direta.

Patogênese da leptospirose em animais

A leptospira invade o corpo após penetrar nas membranas mucosas expostas ou na pele lesionada. Após o período de incubação variável (entre 4 e 20 dias), as leptospiras circulam no sangue e replicam-se em muitos tecidos, como fígado, rins, pulmões, trato genital e SNC durante 7 a 10 dias. A fase de bacteremia e colonização do tecido leva a sinais clínicos de leptospirose aguda. Os anticorpos aglutinantes podem ser detectados no soro logo após a leptospiremia ocorrer e coincidem com a depuração das leptospiras no sangue e na maioria dos órgãos. Como os organismos são depurados, os sinais clínicos de leptospirose aguda começam a se resolver, embora os órgãos danificados possam levar algum tempo para retornar à função normal ou, em casos graves, podem não se recuperar.

As leptospiras permanecem nos túbulos renais de hospedeiros incidentais por um curto período e são liberadas na urina de poucos dias a várias semanas. Nos hospedeiros de manutenção, contudo, as leptospiras frequentemente permanecem nos túbulos renais, no trato genital e, menos comumente, nos olhos, apesar da presença de altos níveis de anticorpo sérico. As leptospiras são liberadas na urina e nas secreções genitais de animais persistentemente infectados durante meses a anos, e esses animais se tornam uma reserva importante de infecção, com potencial para transmitir a infecção para outros hospedeiros reserva ou para hospedeiros incidentais em risco de desenvolver a doença.

Achados clínicos de leptospirose em animais

Os sinais clínicos de leptospirose dependem das espécies hospedeiras, da patogenicidade da cepa e do sorovar de Leptospira e da idade e do estado fisiológico do animal. Infecções subclínicas são comuns, especialmente em hospedeiros de manutenção. Em hospedeiros incidentais, a leptospirose é uma doença aguda, sistêmica, frequentemente febril, caracterizada pelo dano renal e hepático. Além disso, pode haver efeitos nos outros sistemas do corpo resultando em problemas clínicos, como uveíte, pancreatite, sangramento, anemia hemolítica, dor muscular ou doença respiratória.

Tanto em hospedeiras incidentais quanto nas de manutenção que estejam prenhes no momento da infecção, a localização e a persistência do organismo no útero pode resultar em infecção fetal, com aborto subsequente, natimorto, nascimento de neonatos fracos ou nascimento de neonatos saudáveis, mas com prole infectada. Em geral, as hospedeiras incidentais abortam agudamente, embora em hospedeiras de manutenção os abortos ou outras sequelas reprodutivas possam ser atrasadas em várias semanas ou meses.

Diagnóstico de leptospirose em animais

  • Sinais clínicos

  • Combinação de exames sorológicos para detectar anticorpos e ensaio de PCR para detectar organismos

Os profissionais da saúde precisam estar cientes da variedade de sinais clínicos da leptospirose ou o diagnóstico pode passar despercebido. A melhor abordagem é uma combinação de exames sorológicos e ensaio de PCR para detectar, respectivamente, anticorpos e organismos.

Testes de detecção dos anticorpos disponíveis

O teste de aglutinação microscópica (microscopic agglutination test, MAT) é mais frequentemente usado no exame sorológico para diagnosticar leptospirose, embora os testes rápidos à beira do leito sejam cada vez mais usados em animais de pequeno porte (consulte Leptospirose em cães). O MAT envolve a mistura de diluições apropriadas de soro com leptospiras vivas dos sorovares prevalentes naquela região. A presença de anticorpos é indicada pela aglutinação de leptospiras, com a titulação relatada como a mais alta diluição do soro que resulta em 50% de aglutinação. O MAT é um teste complexo para realizar e interpretar e exige manutenção das culturas vivas de leptospiras. Um ensaio ELISA para diagnosticar leptospirose canina é oferecido por um laboratório comercial nos EUA. Esse teste detecta anticorpos para LipL32, uma proteína de membrana encontrada em leptospiras patogênicas. O ensaio atualmente disponível oferece um resultado qualitativo negativo ou positivo e também detectará os anticorpos induzidos pela vacinação. Em geral, os títulos numéricos disponibilizados pelo MAT revelam mais informações diagnosticamente úteis do que o ELISA qualitativo, especialmente quando os títulos de MAT agudo e convalescente são realizados.

Interpretação dos resultados de MAT

Os anticorpos produzidos em um animal como resposta à infecção com um determinado sorovar de Leptospira frequentemente reagem de maneira cruzada com outros sorovares no MAT. Reações paradoxais podem ocorrer também com o MAT no início da evolução de uma infecção aguda, com uma resposta acentuada do anticorpo aglutinante a um sorovar do que ao sorovar infeccioso. Além disso, há evidência de falta de padronização entre os laboratórios de diagnóstico. Por esses motivos, o sorovar infeccioso em um animal individualmente não pode ser identificado com confiança nos resultados do MAT. O valor real do MAT é oferecer um título numérico para permitir a comparação de valores agudos e convalescentes.

Como usar os resultados do MAT

Com uma história clínica compatível e vacinação no período >3 meses anteriores, um título único de 1:800 a 1:1.600 é uma boa evidência presumível de leptospirose aguda; contudo, o título baixo do anticorpo inicialmente não exclui um diagnóstico de leptospirose, porque os títulos são frequentemente baixos na doença aguda e nas infecções do hospedeiro de manutenção. Portanto, recomenda-se fortemente, sempre que possível, o uso de títulos pareados nas fases aguda e convalescente, com confirmação da infecção em geral por um aumento de quatro vezes no título de anticorpos em amostras de soro pareadas coletadas com intervalo de 7 a 10 dias. Os títulos de anticorpos podem persistir por vários meses após a infecção e a recuperação, mas diminuem gradualmente com o tempo. A vacinação de cães e animais de produção com vacinas leptospirais também complica a interpretação de exames sorológicos leptospirais. Em geral, animais vacinados desenvolvem títulos de anticorpos aglutinantes relativamente baixos (1:100 a 1:400) em resposta à vacinação e esses títulos persistem durante 1 a 4 meses após a vacinação. Contudo, alguns animais desenvolvem altos títulos após a vacinação que persistem por 6 meses ou mais. Novamente, os títulos pareados agudos ou convalescentes permitem distinguir entre os títulos vacinais e a infecção natural.

Outros exames

A imuno-histoquímica é útil para identificar leptospiras em tecido fixado em formalina. Contudo, como pequenos números de organismos podem estar presentes em alguns tecidos, a sensibilidade dessa técnica varia. Uma série de procedimentos de PCR está disponível e cada laboratório pode selecionar um procedimento levemente diferente. Infelizmente, poucas publicações confirmaram a validade de todos os ensaios de PCR disponíveis comercialmente, que provavelmente apresentam variação de desempenho. O uso das técnicas de PCR permite a detecção de leptospiras patogênicas em amostras de sangue, urina ou tecido, mas não determinam o sorovar infeccioso. Cultura de amostras de sangue, urina ou tecido, seguida por tipagem molecular, é o único método para identificar definitivamente o sorovar infeccioso. O sangue pode ser cultivado no início da evolução clínica, a urina tem maior probabilidade de ter resultado positivo em 7 a 10 dias após a apresentação dos sinais clínicos. A cultura raramente produz crescimento após a terapia antimicrobiana começar. A cultura de leptospiras exige meio de cultura especializado, pois os organismos são fastidiosos e de crescimento lento, e os laboratórios de diagnóstico raramente cultivam amostras para avaliar a presença de leptospiras. Assim, a cultura tem pouco valor para profissionais da saúde.

Prevenção da leptospirose em animais

É difícil evitar a exposição a animais selvagens em liberdade e domésticos que podem ser hospedeiros de manutenção para Leptospira porque roedores, guaxinins, gambás e cangambás são frequentemente encontrados em ambientes rurais e urbanos. A base da prevenção da leptospirose é a imunização com vacinas inativadas polivalentes. Presume-se que a imunidade à leptospirose seja específica do sorovar. Contudo, essa hipótese tem sido questionada.

Risco zoonótico de leptospirose em animais

Seres humanos são suscetíveis à infecção com a maioria dos sorovares patogênicos de Leptospira. Entretanto, são hospedeiros incidentais e, portanto, não são reservatórios importantes de infecção. A exposição ocupacional é um fator de risco, e veterinários, sua equipe e as pessoas que lidam com animais de produção, além de trabalhadores de laticínios estão em risco aumentado. Além disso, a exposição recreativa a águas contaminadas com urina de animais domésticos ou selvagens representa um risco.

A via principal de infecção com Leptospira é o contato com líquidos corporais infectados (sangue, em casos agudos, ou urina) por meio das membranas mucosas.

Em seres humanos, a leptospirose varia de subclínica a grave e pode ser fatal como resultado de insuficiência hepática ou renal ou síndrome hemorrágica pulmonar. Os sinais clínicos mais comuns são febre, cefaleia, erupção cutânea, dor ocular, mialgia e mal-estar. Infecção transplacentária, aborto e infecção de bebês por meio da amamentação foram descritos, tornando a exposição de mulheres grávidas uma preocupação especial. As técnicas laboratoriais são necessárias para um diagnóstico definitivo.

Devido à dificuldade do diagnóstico de leptospirose em animais com base nos sinais clínicos, convém ao veterinário implementar um programa de controle de infecção no qual os líquidos corporais do animal sejam manuseados apenas com luvas e a lavagem das mãos seja uma rotina. Também é essencial que a equipe tome precauções ao manusear ou tratar os animais com leptospirose suspeita ou confirmada. As precauções adequadas são o uso de aventais, protetores de calçados e luvas para evitar a contaminação da pele exposta ou a transmissão de microrganismos. Protetores faciais devem ser usados durante o manuseio de camas molhadas e a limpeza de gaiolas, baias ou recintos para evitar o contato de organismos no aerossol com as membranas mucosas.

Pontos-chave

  • A leptospirose é mantida no ambiente por uma variedade de animais portadores que normalmente não são clinicamente afetados, mas liberam os organismos na urina.

  • A doença ocorre quando os hospedeiros incidentais são expostos a ambientes contaminados pela urina de animais portadores.

  • A leptospirose é uma zoonose. Os clínicos devem manejar casos suspeitos de leptospirose adotando precauções de isolamento com barreiras.

  • As pessoas precisam procurar atendimento médico se forem expostas à leptospirose ou apresentarem sinais clínicos que poderiam ser compatíveis com a doença.

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