VERSÃO PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Emergência e ressurgimento de doenças zoonóticas

PorAnna Rovid Spickler, DVM, PhD, Center for Food Security & Public Health, College of Veterinary Medicine, Iowa State University
Revisado/Corrigido fev. 2023 | Modificado out. 2025
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Doenças emergentes são definidas como doenças cuja incidência aumentou nas últimas duas décadas ou que provavelmente aumentarão em um futuro próximo. Muitas dessas doenças são zoonóticas.

Uma doença zoonótica pode surgir como resultado do aumento do contato humano com hospedeiros animais, tecidos animais, vetores ou fontes ambientais de patógenos. Também pode resultar de uma maior prevalência do agente em animais domésticos ou selvagens ou em vetores. Muitas doenças emergentes e reemergentes atuais têm reservatórios na vida selvagem ou são transmitidas por alimentos.

Os fatores que podem causar o surgimento de doenças incluem alterações na demografia ou no comportamento humano, que variam desde convulsões sociais (como guerras) que levam os humanos a deixar as áreas urbanas até simples mudanças nas preferências alimentares. Por exemplo, surtos devido à Escherichia coli (E. coli O157:H7) entero-hemorrágica foram associados a verduras pré-lavadas.

Falhas em medidas de saúde pública, como saneamento e vacinação, também aumentam a transmissão de doenças.

Uma mudança nos padrões de uso da terra pode alterar o número de hospedeiros reservatórios, aumentar a incidência de infecção nesses animais, estimular mudanças genéticas no patógeno (por exemplo, recombinação com outras cepas) ou aproximar hospedeiros animais ou vetores de doença dos seres humanos. Como muitos mosquitos se reproduzem preferencialmente nas bordas das florestas em vez de no meio das árvores, o desmatamento pode aumentar sua população, resultando em maior exposição a algumas doenças transmitidas por mosquitos. A degradação de habitats naturais, bem como a fácil disponibilidade de alimentos perto de habitações humanas, pode incentivar a vida selvagem a deslocar-se para áreas suburbanas.

O crescimento da população humana também exerce pressões que, em última análise, resultam em maior contato com a vida selvagem.

As mudanças climáticas podem ser um fator no surgimento de doenças, particularmente para patógenos transmitidos por artrópodes, como Rickettsia spp. Um clima mais quente não só permite que os vetores sobrevivam ao inverno, como também possibilita uma temporada de transmissão mais longa.

As mudanças tecnológicas e industriais na produção de alimentos podem contribuir para o surgimento de doenças, aumentando a concentração, a movimentação e a mistura de animais. O transporte de animais a longas distâncias tem sido associado ao aumento da disseminação de patógenos entéricos, incluindo a Salmonella. A diminuição da diversidade genética pode eliminar espécies, raças ou indivíduos com resistência inata a uma doença. O desenvolvimento de fazendas de produção em larga escala e instalações de processamento de alimentos levou à exposição de um número maior de pessoas a uma fonte de alimentos contaminada. O aumento da mobilidade de pessoas, animais e mercadorias permite que as doenças se disseminem rapidamente. Vírus que antes desapareciam após afetar um pequeno número de animais ou humanos agora podem encontrar muitos hospedeiros suscetíveis em um curto período. A síndrome respiratória aguda grave (severe acute respiratory syndrome, SARS), por exemplo, disseminou-se em quase 30 países em 6 continentes poucos meses após o surto inicial.

Ocasionalmente, o próprio patógeno pode se tornar mais virulento ou mais bem adaptado aos humanos, ou pode sofrer alterações que afetam os padrões de transmissão.

O aumento da suscetibilidade humana também contribuiu para o surgimento ou reconhecimento de alguns patógenos oportunistas. O número de pessoas imunocomprometidas aumentou devido a fatores como a epidemia de AIDS, o sucesso dos programas de transplante de órgãos e os avanços que permitem que pessoas com imunodeficiências primárias e secundárias vivam mais tempo. A medicina moderna também permite que mais seres humanos, muitos dos quais desenvolvem doenças crônicas, sobrevivam até uma idade avançada.

Por fim, algumas doenças estão surgindo não porque são mais comuns, mas porque são mais bem reconhecidas. O maior reconhecimento pode resultar de técnicas de diagnóstico aprimoradas, maior uso de laboratórios para identificação de patógenos específicos e maior conscientização entre os médicos. O vírus de Marburg, por exemplo, já foi considerado um parente muito raro e menos virulento dos vírus Ebola. No entanto, descobriu-se posteriormente que ele causava doenças hemorrágicas em trabalhadores de uma mina africana desde a década de 1980 ou antes. Essa atenção às infecções transmitidas por morcegos só foi reconhecida quando surtos altamente fatais afetaram centenas de pessoas na República Democrática do Congo entre 1998 e 2000. Da mesma forma, algumas espécies de Rickettsia estão surgindo, em parte, porque o uso crescente de técnicas moleculares facilita sua identificação e permite distingui-las de organismos semelhantes.

Pontos-chave

  • Alterações ambientais, aumento do contato entre humanos e animais selvagens, maior número de humanos suscetíveis e mudanças na produção e distribuição de alimentos podem resultar no aumento da incidência de algumas zoonoses.

  • Maior conscientização e melhores testes laboratoriais aprimoraram o reconhecimento de zoonoses emergentes.

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