VERSÃO PARA DONOS DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Distúrbios da pele e das penas em aves de estimação

PorTeresa L. Lightfoot, DVM, DABVP (Avian), Avian and Exotics Department, Florida Veterinary Specialists
Revisado/Corrigido jan. 2020 | Modificado set. 2024
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Os distúrbios da pele e das penas estão entre os problemas de saúde mais comuns vistos em aves de estimação. A perda de penas e os distúrbios de pele podem ser sinais de uma doença localizada (ou seja, que afeta apenas a pele ou as penas) ou podem ser sinais de uma doença sistêmica.

Cistos de penas

Os cistos de penas ocorrem quando uma pena em crescimento não consegue romper a pele e se enrola dentro do folículo. A pena encravada resulta em um caroço ou uma massa que continua a crescer à medida que a pena aumenta de tamanho. Os cistos de penas aparecem como inchaços ovais ou alongados que envolvem um ou vários folículos de penas. Embora possam ocorrer em qualquer lugar, nos papagaios eles ocorrem mais comumente nas penas primárias das asas.

Esses cistos podem ser observados em todas as espécies; no entanto, são mais comuns em araras-canindé e em algumas raças de canários. Os cistos podem ser resultado de uma predisposição hereditária, como em certas espécies de canários, ou adquiridos como consequência de infecção ou trauma envolvendo o folículo da pena. Essa condição pode ser tratada por remoção cirúrgica dos folículos envolvidos. Se o folículo não for removido, a condição costuma reaparecer. Em canários com múltiplos cistos, a cirurgia geralmente não é viável.

Arrancar penas

Arrancar as penas, agora comumente chamado de comportamento destrutivo com as penas, refere-se a uma gama de comportamentos que vão desde uma leve limpeza excessiva das penas até a automutilação das penas e da pele. Existem muitas causas para o comportamento destrutivo com as penas, incluindo causas médicas reais (como doenças sistêmicas subjacentes, inflamação e infecção da pele, câncer, desnutrição e exposição a toxinas) e causas psicológicas (associadas a estresse, tédio ou frustração sexual).

A desnutrição talvez seja um fator contribuinte mais comum do que as condições médicas mencionadas acima. Dietas básicas à base de sementes e alimentos de mesa podem criar deficiências nutricionais que causam desenvolvimento anormal da pele e das penas. Isso pode resultar no comportamento de arrancar as penas, bem como em muitos outros problemas médicos. A umidade relativamente baixa na maioria das residências também exerce um efeito de ressecamento sobre a pele. A privação de luz solar natural, ar fresco, umidade e ciclo normal de claro/escuro têm efeitos fisiológicos e psicológicos negativos nas aves. Todos esses fatores podem contribuir para o comportamento destrutivo com as penas.

As causas comportamentais, incluindo a falta de estímulo mental suficiente e a frustração devida à ausência de parceiros sexuais, são geralmente suspeitas com base no comportamento da ave, e quando nenhuma outra causa médica subjacente pode ser identificada. O tratamento, que inclui injeções ou implantes hormonais para inibir o comportamento sexual, juntamente com o fornecimento de brinquedos ou outros meios de enriquecimento psicológico, é normalmente adaptado à causa subjacente suspeita.

Uma vez diagnosticado o problema e descartadas ou tratadas as causas médicas, algumas mudanças no ambiente da ave podem ajudar a reduzir esse comportamento.

  • A ave deve ter exposição direta à luz solar diariamente, seja levando a gaiola para fora ou colocando-a dentro de casa sob uma lâmpada ultravioleta própria para pássaros. Além disso, ela deve ter períodos de sono ininterruptos todas as noites, e sonecas durante o dia se a ave desejar

  • Dedique tempo à interação com a ave. Crie uma rotina para interagir com ela sempre no mesmo horário para reduzir a ansiedade e, consequentemente, o comportamento destrutivo.

  • É importante que a ave tenha brinquedos que a ajudem a ocupar o tempo livre e a se distrair do hábito de arrancar as próprias penas. Troque os brinquedos ou reorganize-os dentro da gaiola diariamente para manter o interesse da ave.

  • Observe a ave enquanto ela estiver arrancando as próprias penas. Pode haver algo no ambiente que a estimule a bicar. A identificação dos “gatilhos” é o primeiro passo para tratar o comportamento. Não reforce inadvertidamente esse comportamento repreendendo-a verbalmente durante o ato; esse reforço positivo apenas ensina que ela recebe atenção por arrancar as próprias penas. Faça o possível para ignorar esse comportamento e dê atenção a ela somente quando ela não estiver arrancando as penas.

  • Borrife água ou dê banho na sua ave regularmente. A frequência dos banhos varia de acordo com a espécie e seu habitat natural. Muitas espécies da floresta tropical (como papagaios-amazônicos e araras) apreciam banhos diários, enquanto aves de climas mais áridos que possuem penas pulverulentas (por exemplo, cacatuas e papagaios-cinzentos-africanos) se contentam com um banho semanal. Borrife ou molhe levemente a plumagem com água ou leve a ave para o banho com você e deixe-a pousar na barra do chuveiro ou na porta do box. Muitas aves adoram se limpar ao sol e arrumar a plumagem depois do banho. O banho induz comportamentos normais de limpeza das penas e impede o comportamento de arrancá-las.

  • Novos alimentos podem despertar o interesse da ave e ocupar o seu tempo. Ofereça opções saborosas (com moderação), como macarrão rotelle, painço em espiga, pães, cereais sem açúcar ou misturas de feijão.

  • Se a ave reagir a uma situação estressante, evite essa situação. Por exemplo, algumas aves não gostam que você acaricie suas penas, mas simplesmente apreciam pousar na sua mão. Deixe que ela se empoleire e mantenha as mãos afastadas.

  • Além disso, o carinho nas costas simula o comportamento de acasalamento e, embora seja apreciado por muitas aves, particularmente pelas cacatuas, pode aumentar os níveis hormonais e, como consequência, o comportamento de arrancar as penas.

  • Visitas ou consultas frequentes ao veterinário ou especialista em comportamento podem ser necessárias para o acompanhamento do caso. Existem muitos tratamentos disponíveis para reduzir comportamentos destrutivos com as penas. Talvez seja necessário experimentar vários deles para descobrir quais funcionam melhor para uma determinada ave.

  • Por fim, tenha em mente que, mesmo após descartar ou tratar todos os problemas médicos e fazer o possível para corrigir inadequações ambientais, nutricionais e sociais no ambiente, a ave ainda pode arrancar algumas penas.

A solução dos fatores médicos e ambientais pode reduzir a gravidade do comportamento destrutivo com as penas, mas um forte componente comportamental também costuma estar envolvido. O tratamento de alguns dos problemas mencionados acima pode levar a uma melhora inicial, seguida de uma recaída. Fatores de estresse psicológico podem levar a ave a arrancar penas. As condições psicológicas que podem causar esse comportamento em aves variam. A estimulação excessiva é um fator para algumas aves, enquanto outras podem fazê-lo por tédio. Infelizmente, mesmo depois de aliviar o fator de estresse, o hábito pode persistir.

Esse comportamento não ocorre na natureza, onde as aves estão ocupadas em encontrar comida, manter o status social no bando, procurar um parceiro, evitar predadores, se reproduzir e criar os filhotes. Portanto, muitas vezes, as aves mais bem cuidadas, que têm todas as suas necessidades aparentes atendidas, arrancam as penas por razões comportamentais. Os donos costumam relatar que suas aves estão mais territorialistas e agressivas e exibem comportamento sexual em relação a um humano ou objeto inanimado que elas percebem como parceiro.

Para tratar o problema, é necessário entender o ambiente e as alterações comportamentais associadas ao início do ato de arrancar as penas. Em alguns casos, mudanças simples no ambiente, como mover a gaiola para uma área onde a família costuma se reunir, podem ajudar. Em outros, as mudanças ambientais são associadas a tratamentos médicos, como hormônios ou medicamentos para reduzir a ansiedade ou a agressividade. No entanto, os medicamentos disponíveis geralmente não produzem resultados positivos a longo prazo e podem apresentar efeitos colaterais. Além das terapias médicas tradicionais, a acupuntura e suplemento dietético como ácidos graxos ômega têm se mostrado úteis em alguns casos. O encaminhamento a um consultor comportamental pode ser útil.

Infecções da pele

As inflamações de pele podem resultar de infecções por vários organismos. Acredita-se que as bactérias, incluindo as espécies de estafilococos, estreptococos e Bacillus, sejam responsáveis pela maioria das infecções de pele em papagaios. As bactérias da espécie estafilococos são frequentemente isoladas de áreas de pododermatite (infecção da planta do pé) em muitas espécies de aves. Um veterinário pode identificar e prescrever antibióticos adequados para essas infecções bacterianas. A criação e a nutrição inadequadas podem ser fatores contribuintes. Aves recém-nascidas e jovens são especialmente suscetíveis.

Várias infecções fúngicas podem afetar a pele de aves de estimação. A dermatofitose, uma infecção fúngica, é ocasionalmente relatada em aves de estimação. Fungos do gênero Cryptococcus raramente têm sido relatados como causa de dermatite facial em aves, mas, como esse organismo também pode causar infecções em pessoas, deve ser considerado em casos de infecção cutânea verdadeira. Inflamações cutâneas causadas pela levedura Malassezia foram relatadas em aves engaioladas que tinham o hábito de arrancar as penas. Para tratar essas infecções, o veterinário pode prescrever um medicamento para administração oral ou um spray tópico.

Parasitas

Ácaros da face escamosa ou das patas são comuns em periquitos-australianos, mas raros em outras espécies de papagaios. Os ácaros causam uma condição semelhante à sarna na face ou nas patas das aves afetadas. Os sinais de infestação incluem crostas brancas nos cantos da boca, nas narinas, no bico e, ocasionalmente, ao redor dos olhos ou das patas, que podem causar deformidades se não forem tratadas. A deformidade no bico pode persistir mesmo após o tratamento. Outras espécies de aves, como canários e tentilhões, também podem ser infestadas por esse parasita, mas apresentam sinais diferentes, como crostas que se formam nas patas e na superfície dos dedos (conhecidas como pé de borla). A presença de prurido não é comum. Os ácaros podem ser diagnosticados por meio de raspagem da pele nas áreas afetadas. O veterinário pode prescrever um medicamento antiparasitário administrado por via oral ou por injeção.

Os ácaros de penas, ao contrário da crença popular, raramente afetam aves de estimação. Ocasionalmente, pode-se encontrar infestação por ácaros vermelhos em viveiros ao ar livre. Os sinais de infestação por ácaros de penas incluem inquietação (especialmente à noite), anemia e morte, particularmente em filhotes jovens confinados ao ninho. Para coletar e identificar os ácaros, pode-se cobrir a gaiola com um lençol branco à noite e examinar a parte de baixo da cobertura na manhã seguinte.

O veterinário pode prescrever um medicamento em spray, em pó, oral ou injetável. O tratamento da caixa-ninho consiste em misturar um pó medicamentoso na forragem da caixa. As gaiolas devem ser limpas cuidadosamente, e as caixas-ninho de madeira podem precisar ser descartadas e substituídas.

Doença do bico e das penas dos psitacídeos (circovírus)

A doença do bico e das penas dos psitacídeos é causada por um vírus. O nome “doença do bico e das penas” é um tanto enganoso, pois os sinais típicos não incluem anomalias no bico, nem as anomalias graves nas penas que foram observadas em cacatuas quando a doença foi documentada pela primeira vez. Essa infecção grave foi relatada em aves selvagens e domésticas. A triagem do vírus diminuiu consideravelmente sua presença em cacatuas; no entanto, a doença ainda é observada em papagaios-cinzentos africanos, papagaios Eclectus, agapórnis, lóris e outras espécies do Velho Mundo, como Ásia, África e Austrália.

A infecção ocorre principalmente em aves jovens, com poucos casos observados em aves com mais de 3 anos de idade. Os sinais típicos incluem perda de penas (inclusive em áreas onde a ave não conseguia alcançar para arrancá-las), penas com crescimento anormal (constritas, em forma de clava ou atrofiadas), penas maduras anormais (sangue na haste) e falta de penugem em pó em algumas espécies. Pode ocorrer perda de pigmento em penas coloridas. Infecções mais rápidas também podem ocorrer, com vários dias de depressão e morte súbita.

A doença do bico e das penas dos psitacídeos se propaga pelo contato direto com aves infectadas e pela disseminação de pó das penas, caspa e material fecal. Ela pode ser transmitida dos adultos para os filhotes e até ser contraída em uma caixa-ninho que não tenha sido usada por muitos meses ou anos. O vírus é muito estável no ambiente e resistente a desinfetantes.

As aves afetadas devem ser isoladas; muitas vezes, recomenda-se a eutanásia. Não existe tratamento eficaz, mas medidas de suporte podem aumentar a duração e a qualidade de vida. Uma higiene rigorosa, com atenção ao controle do pó, métodos de triagem diagnóstica e longos períodos de quarentena em colônias de criação de cacatuas são altamente recomendados para prevenir o estabelecimento e a disseminação da doença.

Muda de penas

As aves substituem a maior parte das penas pelo menos uma vez por ano; algumas espécies normalmente passam por uma muda parcial 6 meses depois. Na América do Norte, a maioria das espécies inicia a muda principal por volta de meados de fevereiro e a termina cerca de um mês depois. Os papagaios sul-americanos geralmente não trocam de penas no outono, mas os papagaios do Velho Mundo (especialmente as calopsitas) às vezes perdem penas no início de setembro.

É importante saber se a ave está passando por um processo normal de troca de penas ou se a perda se deve a outros motivos.

Tipos de danos às penas

As penas podem ser mastigadas rente à pele, juntamente com a penugem residual ou apenas nas pontas, deixando uma aparência de terem sido comidas por traças. Algumas aves arrancam as penas completamente, muitas vezes vocalizando de dor durante esse processo. Outras simplesmente mastigam, limpam as penas de forma anormal ou desgastam a plumagem.

Os danos às penas também podem ocorrer devido a desgaste natural, causas infecciosas, parasitas, cortes feitos por aves companheiras de gaiola e traumas causados pela gaiola. Os parasitas causam a quebra das penas ou atrito entre a plumagem e a pele, o que também danifica a plumagem.

Causas de danos às penas

  • Parasitas — ao contrário do que se pensa, os parasitas raramente são a causa da perda de penas. Ácaros vermelhos, ácaros das penas e piolhos são encontrados ocasionalmente.

  • Bactérias e fungos — ambos os tipos de organismos podem causar infecção folicular e, geralmente, respondem bem à medicação.

  • Nutrição — a desnutrição pode causar anomalias nas penas diretamente, bem como ao afetar o funcionamento dos órgãos e do sistema imunológico da ave.

  • Arrancamento de penas por outras aves — os companheiros de gaiola podem arrancar as penas das aves que vivem com eles.

  • Comportamentais — além da falta de fatores estressantes naturais que impedem a ave selvagem de arrancar as próprias penas, existem fatores comportamentais que podem contribuir para os danos às penas de papagaios de cativeiro, como frustração sexual, tédio, territorialidade, compulsividade, estresse causado por predadores domésticos (animais de estimação da casa) e falta de treinamento parental para limpeza das penas.

  • Médicas — doenças orgânicas, como danos no fígado, insuficiência renal, tumor, infecções respiratórias e outras infecções podem contribuir para a perda de penas induzida pelo estresse ou autotraumatismo.

  • Outras causas — substâncias irritantes, como picadas de insetos, tônicos aplicados na plumagem, pomadas, cremes para as mãos ou óleos do dono que são transferidos inadvertidamente para as penas da ave e penas de voo aparadas incorretamente podem levar à mastigação.

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