A nutrição aviária melhorou muito nas últimas décadas, mas continua sendo um problema comum para aves de estimação. Hoje, já existem rações formuladas em forma de pellets e até mesmo rações orgânicas, e as aves criadas em cativeiro geralmente as aceitam bem. No entanto, as necessidades nutricionais de cada espécie ainda são bastante desconhecidas. Muitas aves ainda recebem dietas inadequadas. As duas causas mais comuns de desnutrição são permitir que as aves escolham o que querem comer entre misturas de sementes, nozes e pellets ou alimentá-las com uma dieta composta exclusivamente de sementes ou à base de sementes. Muitas das doenças observadas em aves de estimação têm origem na desnutrição. Elas incluem doenças hepáticas, insuficiência renal, problemas respiratórios, doenças musculoesqueléticas e problemas reprodutivos.
Algumas questões nutricionais específicas devem ser observadas em aves de estimação. O mofo que contamina sementes armazenadas incorretamente e amendoins próprios para animais de estimação pode causar doenças hepáticas, portanto, ofereça apenas alimentos frescos e devidamente armazenados.
Preste atenção ao que a ave realmente come e bebe. Muitos tutores oferecem uma dieta variada (como alimentos de mesa, ração peletizada, vegetais etc.), mas não percebem que o que a ave realmente consome são basicamente sementes, o que pode levar a deficiências e desequilíbrios nutricionais. As aves que se alimentam predominantemente de ração formulada não costumam precisar de suplementos vitamínicos e minerais adicionais, a menos que sejam prescritos por um veterinário. As aves cuja alimentação principal é baseada em sementes devem ser gradativamente adaptadas a uma dieta formulada e nutricionalmente completa, podendo necessitar suplementos até que a transição seja concluída. Os suplementos em pó não devem ser polvilhados sobre as sementes, pois a maioria das aves remove a casca antes de ingerir o grão e acaba não se beneficiando do suplemento. Os suplementos não devem ser colocados no bebedouro, pois podem alterar o sabor da água e impedir que a ave a consuma, o que pode levar à desidratação, ou podem se degradar em contato com a água. Para que tenham algum efeito benéfico, os suplementos devem ser colocados em alimentos úmidos que as aves provavelmente consumirão.
Obesidade
A obesidade é comum em aves de estimação. Dietas ricas em gordura (sementes, nozes e muitos alimentos de mesa), excesso de comida e um estilo de vida sedentário são fatores que contribuem para o problema. A obesidade é definida como uma ave que apresenta um excesso de peso de 20% em relação ao seu peso ideal. Cacatuas-rosa, araras, papagaios-amazônicos e papagaios-monge são propensos à obesidade. Os sinais podem não ser evidentes, mas as aves obesas podem ficar mancas ou ter dificuldade para respirar devido ao excesso de peso e gordura.
As aves obesas devem ser alimentadas com ração peletizada com porções controladas. O exercício deve ser incentivado colocando-as em uma gaiola maior com vários comedouros distribuídos, de forma a estimular o movimento. Poleiros de corda ou corda em espiral incentivam a escalada e o equilíbrio. As aves que voam podem ser colocadas em um viveiro que possibilite o voo ao ar livre, e aquelas que não voam podem ser colocadas em gaiolas onde sejam encorajadas a subir escadas ou caminhar. As aves obesas são mais propensas a desenvolver artrite, doença hepática gordurosa, doença arterial coronariana (aterosclerose) e doença cardíaca.
Deficiência de vitamina A
A deficiência de vitamina A pode não ser diagnosticada em aves de estimação. Aves cuja dieta é substancialmente composta por sementes e nozes são mais propensas a esse problema. Esse tipo de dieta é deficiente não apenas em vitamina A, mas também em várias outras vitaminas e minerais, além de conter excesso de gordura. A suplementação da vitamina A na dieta pode levar à suplementação excessiva e a efeitos colaterais graves, incluindo problemas reprodutivos, anomalias ósseas e doenças hepáticas.
O teor de vitamina A e dos precursores da vitamina A deve ser avaliado na dieta das aves de estimação. A deficiência de vitamina A pode ser a causa subjacente de doenças crônicas, como pododermatite (inflamação na planta dos pés), sinusite e conjuntivite. Aves com doenças reprodutivas e dietas inadequadas devem ser consideradas deficientes.
Os sinais de deficiência de vitamina A dependem do sistema afetado, por exemplo, reprodutivo, digestivo ou respiratório. Podem incluir secreção nasal, espirro, inchaço ao redor dos olhos, dificuldade para respirar, aumento da ingestão de água e da frequência urinária, má qualidade das penas, arrancamento de penas e anorexia. Placas brancas podem se desenvolver dentro e ao redor da boca, dos olhos e dos seios da face. As manchas acabam por infeccionar, formando abscessos grandes e visíveis. Os abscessos podem distorcer a glote (abertura da traqueia), causando dificuldade respiratória e, eventualmente, asfixia. Os abscessos podem crescer a ponto de bloquear a coana (fenda no céu da boca). Quando isso acontece, a ave apresenta secreção nasal abundante e inchaço visível ao redor dos olhos.
A melhor forma de prevenir a deficiência de vitamina A é fornecer uma dieta formulada com precursores de vitamina A em quantidade suficiente, mas não excessiva. Um precursor é uma substância que pode ser convertida em vitamina A no organismo. Esses precursores, como o betacaroteno, têm muito menos probabilidade de causar a toxicidade que pode ocorrer com o consumo excessivo de vitamina A.
Se a sua ave não tiver uma dieta formulada, os alimentos que contêm vitamina A ou seus precursores incluem melão, mamão, pimenta, folhas e flores de brócolis, batata-doce, folhas de nabo, couve, endívia, manteiga, fígado, gema de ovo, beterraba, folhas de dente-de-leão e espinafre.
Deficiência de iodo
A glândula tireoide das aves fica dentro da cavidade torácica e não é palpável no pescoço, como em humanos. Quando alimentada com uma dieta composta exclusivamente de sementes e deficiente em iodo, essa glândula incha e pressiona a traqueia (via aérea) e o esôfago — uma condição chamada bócio. Os sinais clássicos são respiração ruidosa ou áspera, chiado no peito, estalo e alteração na voz. Em casos graves, ocorre regurgitação. As aves afetadas toleram mal o estresse. A solução de Lugol (1 gota por 1 xícara [250 mililitros] de água potável) pode ser usada para tratar a deficiência até que a ave faça a transição para uma dieta formulada nutricionalmente completa.
Desequilíbrio de cálcio, fósforo e vitamina D
As dietas à base de sementes levam a um desequilíbrio na proporção cálcio/fósforo das aves, além de causarem deficiências de aminoácidos. Essa proporção é importante porque o cálcio, o fósforo e a vitamina D3 trabalham em conjunto para o organismo desempenhar funções vitais, e a falta ou o excesso de qualquer um desses nutrientes pode afetar a capacidade do organismo de utilizá-los em conjunto. As sementes de girassol, que costumam ser as preferidas por muitas aves de estimação da família dos papagaios, são pobres em cálcio, deficientes em aminoácidos e ricas em gordura. Ao contrário da crença popular, as sementes de cártamo têm, na verdade, um teor de gordura mais elevado do que as sementes de girassol, além de conterem quantidades insuficientes de aminoácidos e cálcio. Uma dieta nutricionalmente equilibrada que inclua apenas uma quantidade limitada de sementes e nozes ajuda a prevenir esses desequilíbrios.
A vitamina D é produzida na pele em resposta à exposição à luz ultravioleta. A ingestão adequada de vitamina D é essencial para a correta absorção do cálcio presente na dieta, e dietas com deficiência de cálcio, juntamente com acesso insuficiente à luz solar direta, podem levar os papagaios a desenvolver doenças ósseas metabólicas. Nesse quadro clínico, também conhecido como hiperparatireoidismo secundário nutricional, os ossos das aves tornam-se moles e deformados, fraturando-se facilmente.
Hipocalcemia aguda em papagaios-cinzentos africanos
A hipocalcemia aguda, causada por níveis insuficientes de cálcio no sangue, é mais comum em papagaios-cinzentos africanos alimentados exclusivamente com sementes e é caracterizada por fraqueza, tremores e convulsões. A causa exata é desconhecida, embora haja suspeita de anomalias no hormônio da paratireoide. O tratamento com cálcio injetável ou oral pode levar a uma melhora imediata. Para tratar essa condição, os veterinários podem prescrever suplementos de cálcio e exposição a várias horas de luz ultravioleta (UV) diariamente. A exposição à luz ultravioleta é fundamental para a formação de vitamina D na pele, que, por sua vez, é essencial para a absorção do cálcio presente na dieta. Existem lâmpadas UV (diferentes das lâmpadas para plantas ou répteis) que emitem luz especificamente na parte do espectro UV que as aves necessitam para produzir vitamina D.
Excesso de vitamina D
Embora o consumo excessivo de cálcio não seja considerado a causa de problemas na maioria dos casos, o excesso de vitamina D3 pode causar acúmulo prejudicial de cálcio em tecidos como os rins. Os suplementos devem ser usados com cautela, e o excesso de vitamina D3 não deve ser administrado a espécies suscetíveis, como as araras.
Doença do armazenamento de ferro
A doença do armazenamento de ferro ocorre quando há um acúmulo excessivo de ferro no fígado. O corpo precisa de uma certa quantidade de ferro para produzir hemoglobina, que é a molécula que transporta moléculas de oxigênio dos pulmões para todas as outras células do corpo. No entanto, quando há um acúmulo excessivo de ferro, o corpo começa a armazená-lo no fígado, depois no coração, nos pulmões e em outros órgãos, onde pode causar danos significativos, levando eventualmente à morte. O óbito pode ocorrer sem sinais prévios.
Quando ocorrem sinais, podem ser perda de peso, depressão, abdômen distendido com acúmulo de líquido, dificuldade para respirar e insuficiência circulatória. O diagnóstico é feito por biópsia do fígado. O tratamento pode envolver a remoção periódica de sangue, a captura de ferro livre e a modificação da dieta.
Essa condição é comum em mainás e tucanos de estimação, bem como em certas aves de zoológico, como a ave-do-paraíso. Ela também foi relatada em aves de estimação da família dos papagaios, particularmente os lóris. Embora a doença do armazenamento de ferro pareça estar associada à ingestão excessiva de ferro na dieta, nem todas as aves são afetadas quando mantidas com dietas semelhantes. Estresse e fatores genéticos também podem contribuir. Alguns alimentos ricos em vitamina C, como as frutas cítricas, aumentam a absorção de ferro da dieta. O consumo excessivo de vitamina A também pode estar envolvido.
Espécies como mainás, lóris, lorikeets e tucanos são propensas a desenvolver a doença do armazenamento de ferro quando consomem altos níveis de ferro na dieta. Elas devem ser alimentadas com rações comerciais formuladas contendo ferro em níveis <100 ppm na dieta e não devem receber frutas cítricas. Certos alimentos, como pêssego, ameixa, melão e maçã sem casca, são pobres em ferro. Banana, manga, mamão, abobrinha e batata cozida sem casca têm um teor de ferro um pouco mais elevado, mas ainda podem estar dentro da faixa aceitável. Alimentos a evitar incluem papinhas, sucos e néctares para bebês que contêm ferro, alimentos enriquecidos com ferro ou sulfato ferroso (incluindo restos de comida), produtos de origem animal, itens como biscoitos para primatas e grandes quantidades de frutas cítricas.
Para obter mais informações
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