O coronavírus relacionado à síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2) é um coronavírus que evoluiu dos vírus enzoóticos ancestrais. Muitas espécies de vertebrados domésticos e selvagens foram expostas durante a pandemia da doença do coronavírus (COVID-19) e a infecção clínica em hospedeiros não humanos foi relatada mundialmente, embora as epizootias de doenças causadas pelo SARS-CoV-2 sejam raras. A detecção em visom e veados-de-cauda-branca de várias linhagens do SARS-CoV-2, com novas variantes específicas para animais, gera preocupações sobre eventos de reorganização genética que poderiam envolver outros vírus animais. A possibilidade de transmissão para outros animais e seres humanos apresenta efeitos desconhecidos para a conservação e para a saúde pública, e justifica uma vigilância contínua como parte de uma abordagem abrangente de Saúde Única (One Health).
Os coronavírus são um grande grupo de vírus de importância médica e veterinária. Acreditava-se que os coronavírus causavam apenas infecções respiratórias e gastrointestinais leves em seres humanos até os surtos da síndrome respiratória aguda grave (SARS) em 2003 na China e da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) em 2012 em países do Oriente Médio. SARS e MERS foram causadas por novos coronavírus evoluídos de coronavírus de morcegos.
Em 2019, outro coronavírus novo, chamado coronavírus relacionado à síndrome respiratória aguda grave (severe acute respiratory syndrome-related coronavirus, SARS-CoV-2), também originado do coronavírus de morcego, desencadeou a pandemia sem precedentes da doença SARS-CoV-2 (COVID-19). Até meados de abril de 2023, foram relatados à Organização Mundial da Saúde mais de 763 milhões de casos confirmados de COVID-19 em seres humanos, com mais de 6,9 milhões de mortes.
A evolução do SARS-CoV-2 resultou no surgimento de milhares de variantes, inclusive novas linhagens com aumento da virulência e do risco de morte, que surgiram em ondas ao longo da pandemia de COVID-19. A família Coronaviridae apresenta centenas de cepas de 54 espécies conhecidas de vírus que podem infectar uma grande variedade de espécies de vertebrados, inclusive seres humanos. Espera-se que muitas espécies sejam reconhecidas devido ao avanço contínuo dos métodos de diagnóstico e da vigilância com sensibilidade mais elevada.
Os coronavírus apresentam uma capacidade extraordinária de evoluir por meio de eventos de transbordamento considerando sua ótima plasticidade genética e capacidade de recombinação durante as coinfecções. Essas características geraram, e podem continuar a gerar, surtos periódicos de novos vírus patogênicos que representam uma ameaça constante para a saúde pública e animal e efeitos sérios na economia global, comprometendo a segurança alimentar e o desenvolvimento humano no mundo todo.
O principal fator de transmissão comunitária e internacional na pandemia de COVID-19 foi a transmissão entre seres humanos, embora o número de casos de infecção por SARS-CoV-2 em animais domésticos e selvagens continue a aumentar. A pandemia de COVID-19, causada por um coronavírus que evoluiu de um coronavírus de morcego, enfatiza a importância da pesquisa sobre o bem-estar animal e estudos em Saúde Única.
Etiologia e patogênese da infecção por SARS-CoV-2 em animais
Taxonomia: SARS-CoV-2 é classificado no domínio Riboviria, reino Orthornavirae, filo Pisuviricota, classe Pisoniviricetes, ordem Nidovirales, subordem Cornidovirineae, família Coronaviridae, subfamília Orthocoronavirinae, gênero Betacoronavirus, subgênero Sarbecovirus e espécie Severe acute respiratory syndrome-related coronavirus (coronavírus relacionado à síndrome respiratória aguda grave).
Estrutura e genoma viral: como um coronavírus, SARS-CoV-2 é um vírus grande, aproximadamente esférico, envolto por uma biomembrana com cerca de 100 nm de diâmetro, com projeções de glicoproteínas proeminentes que podem atingir aproximadamente 20 nm de comprimento. O genoma do vírus é uma molécula de RNA de fita única positiva de aproximadamente 30 quilobases, um dos maiores genomas de RNA conhecidos, que codifica quatro proteínas estruturais, 16 proteínas não estruturais e seis proteínas acessórias.
Ciclo de replicação: resumidamente, o ciclo de replicação viral apresenta a ligação de partículas de SARS-CoV-2 ao receptor celular da enzima conversora de angiotensina 2 (angiotensin-converting enzyme 2, ACE2), que é uma proteína expressa abundantemente em seres humanos e em alguns outros mamíferos em células de vários tecidos, como tecido pulmonar, nasal e da mucosa oral e da nasofaringe. Após a ligação, os vírions de SARS-CoV-2 acessam o citoplasma fundindo-se com a membrana celular por meio da clivagem pela serina protease transmembrana 2 (transmembrane serine protease 2, TMPRSS2) da célula. Quando está no citoplasma, o genoma viral perde seu revestimento e é liberado. Em seguida, os polipeptídeos traduzidos a partir da estrutura de leitura aberta são processados por proteases virais em 16 proteínas não estruturais.
O retículo endoplasmático (RE) rugoso é usado para formar o complexo replicase-transcriptase (RTC) do RNA, que vai orientar a síntese de cópias de RNA (–) de comprimento total, que serão usadas como moldes para genomas de RNA (+) de comprimento total. Por meio da transcrição, são produzidos os RNAs subgenômicos, como aqueles que codificam proteínas estruturais e acessórias. As proteínas estruturais traduzidas e o RNA genômico são montados no nucleocapsídeo e no envelope viral no complexo intermediário retículo endoplasmático-complexo de Golgi, e depois as partículas maduras são liberadas por exocitose.
Origem: os estudos filogenéticos que reconstroem as relações evolutivas entre o SARS-CoV-2 e seus parentes mais próximos sugerem que o ancestral do SARS-CoV-2 seja um vírus animal, provavelmente em morcegos-ferradura (Rhinolophus spp.). O vírus pode ter surgido na população humana por meio de um hospedeiro intermediário.
Os dados espaciais e genômicos sugerem que as duas linhagens iniciais de SARS-CoV-2 estavam associadas ao mercado de Huanan, localizado em Wuhan, na China. Mamíferos vivos, como cães-guaxinins (Nyctereutes procyonoides), eram vendidos no mercado no final de 2019, e as análises geoespaciais dentro do mercado mostram que amostras ambientais positivas para SARS-CoV-2 estavam fortemente associadas a vendedores que comercializavam animais vivos. Em conjunto, essas análises oferecem evidências do surgimento do SARS-CoV-2 por meio do comércio de animais selvagens vivos e identificam o mercado de Huanan como o epicentro inequívoco da pandemia de COVID-19.(1)
O ancestral animal imediato ou o vírus progenitor, identificado em civetas durante o surto de SARS em 2003 e em camelos durante o surto de MERS em 2012, permanece desconhecido para o SARS-CoV-2. Descobriu-se que o SARS-CoV-2 apresenta a deficiência mais extrema de dinucleotídeos CpG em todos os genomas de betacoronavírus conhecidos, semelhante a um coronavírus canino virulento, sugerindo que os caninos podem ser um hospedeiro intermediário do SARS-CoV-2.(2)
É fundamental aprofundar as pesquisas sobre a vida selvagem para identificar as espécies intermediárias que facilitaram a transmissão de morcegos para seres humanos e para avaliar a extensão da diversidade na filogenia dos sarbecovírus relacionados que representam alto risco para futuros transbordamentos. Vários coronavírus relacionados ao SARS-CoV-2 foram isolados em locais do Sudeste Asiático, alguns deles em morcegos coletados já em 2010.(3,4,5,6,7,8)
Patogenia: os estudos em seres humanos e animais naturalmente infectados, além dos modelos animais, têm sido úteis para elucidar a patogênese das infecções por SARS-CoV-2.(9) O vírus entra no trato respiratório do hospedeiro, nas vias aéreas e nas células epiteliais alveolares, onde as células endoteliais vasculares e os macrófagos alveolares são alvos da entrada viral devido à sua expressão relativamente alta de ACE2.(10) Pode-se encontrar títulos detectáveis do vírus no trato respiratório superior (orofaringe e nasofaringe) mesmo durante períodos prodrômicos, permitindo que a transmissão respiratória seja eficiente.
A lesão pulmonar pode incluir dano alveolar difuso, que poderia levar a um estado de “permeável” do epitélio e do endotélio que promove a inflamação e a coagulação. O desequilíbrio nos sistemas de coagulação e fibrinólise pode resultar em imunotrombose em casos graves.(11)
SARS-CoV-2 também pode causar infecções entéricas, pois ACE2 é abundantemente expresso no trato intestinal de mamíferos. O RNA viral pode ser encontrado nas fezes e nos swabs retais de seres humanos e animais infectados; a vigilância das águas residuais tornou-se cada vez mais importante na vigilância do vírus em nível comunitário.
Os coronavírus, como o SARS-CoV-2, desenvolveram mecanismos para escapar das vias do interferon (IFN) do hospedeiro, para sobreviver nas células hospedeiras. Pacientes com doença clínica grave decorrente da infecção por SARS-CoV-2 apresentam frequentemente uma resposta imunológica desequilibrada, com concentrações elevadas de citocinas e quimiocinas inflamatórias, bem como baixas concentrações de IFN-beta e IFN-gama circulantes. A via de evasão do vírus pode envolver a evasão da sinalização do IFN pelo SARS-CoV-2 e a produção prejudicada de IFN.(10)
Nos casos de doença pulmonar grave, há uma elevação de citocinas inflamatórias séricas que leva a uma tempestade de citocinas e alterações imunopatológicas.
Epizootiologia na infecção de SARS-CoV-2 em animais
Período de incubação: em laboratório, o período de incubação do SARS-CoV-2 em alguns animais não humanos infectados experimentalmente parece ser semelhante ao período de seres humanos (2 a 14 dias).
Visons experimentalmente infectados (Neogale [anteriormente Neovison] vison) apresentaram RNA viral entre 1 e 7 dias após a infecção.(12)
Furões experimentalmente infectados (Mustela putorius furo) transmitiram SARS-CoV-2 para furões por meio de contato direto 2 dias após a infecção.(13)
O pico de eliminação viral oral e nasal foi registrado de 2 a 3 dias após a infecção em gatos e hamsters-sírios (Mesocricetus auratus) infectados experimentalmente, e o RNA viral foi detectado em swabs retais de cães de 2 a 6 dias após a infecção.(14,15,16)
As amostras de swab nasal de duas espécies de macacos e saguis (Callithrix jacchus) mostraram picos nas concentrações de RNA genômico viral 2 dias após a infecção.(17)
O vírus infeccioso foi eliminado pelos tratos respiratório e gastrointestinal de macacos-verdes-africanos (Chlorocebus sabaeus) de 2 a 7 dias após a infecção, seguido por recidiva em 14 a 21 dias após a infecção.(18)
O vírus infeccioso foi isolado do epitélio nasal e da traqueia de morcegos frutívoros (Rousettus aegyptiacus), inoculado por meio intranasal, 4 dias após a infecção.(19)
O RNA de SARS-CoV-2 foi detectado 2 dias após a infecção em swabs nasal, oral e retal de cervos-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) infectados experimentalmente.(20)
Musaranhos-arborícolas (Tupaia belangeri) com 6 a 12 meses de idade eliminam o SARS-CoV-2 em um estágio mais inicial da infecção do que os adultos, e o RNA genômico do SARS-CoV-2 pode ser detectado 6 dias após a infecção em swabs nasal, de garganta e anal.(21)
Morbidade: em uma revisão sistemática da literatura de relatos de casos publicados entre 1.º de janeiro de 2020 e 1.º de junho de 2021, 38 de 64 (59%) animais que tiveram resultado positivo para SARS-CoV-2 no ensaio RT-PCR apresentaram sinais clínicos.(22) No entanto, a maioria desses dados foi obtida por meio de vigilância passiva, que apresenta viés em relação aos casos clinicamente afetados.
Mortalidade e fatalidade de caso: em sua maioria, os casos em animais foram leves e autolimitados. No entanto, infecções em visons criados comercialmente causaram surtos de doenças respiratórias com óbitos decorrentes de pneumonia intersticial. As taxas de mortalidade em criações comerciais de visons adultos variaram de 2,4% a 9,8% na Holanda, mas em mais de 318.000 animais de diferentes espécies avaliados e relatados à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA; anteriormente OIE), a taxa de mortalidade foi de 0,2% e a taxa de letalidade de 1,4%.(23)
Distribuição geográfica: mais de 230 países relataram casos de COVID-19 humana à Organização Mundial da Saúde (OMS). O primeiro caso de infecção por SARS-CoV-2 em um animal não humano foi oficialmente relatado à OMSA por Hong Kong em 29 de fevereiro de 2021. Até 30 de abril de 2022, 35 países nas Américas, na África, na Ásia e na Europa relataram infecção em várias espécies de animais.
Transmissão: os modos de transmissão da SARS-CoV-2 entre os animais não humanos são iguais aos categorizados para seres humanos: inalação e depósito de SARS-CoV-2 nas membranas mucosas expostas.
Furões inoculados por via intranasal e colocados em contato direto e indireto com furões não infectados 2 dias após a infecção transmitiram o SARS-CoV-2 por contato entre animais na mesma gaiola e por aerossol em animais de gaiolas diferentes. A rápida transmissão ocorreu mesmo após os furões infectados atingirem seu maior número de cópias de RNA viral nas lavagens nasais 4 dias após a infecção. A transmissão também ocorreu antes do pico de temperatura corporal e de perda de peso corporal em animais infectados, que é compatível com a capacidade de infecção dos indivíduos antes do aparecimento dos sinais clínicos.(13)
Gatos infectados experimentalmente liberaram o vírus tanto por via oral e nasal durante até 5 dias após a infecção, com os níveis virais máximos obtidos por eliminação nasal ocorrendo 3 dias após a infecção. No mesmo experimento, gatos não infectados que tiveram contato com gatos infectados eliminaram o vírus infeccioso por via oral durante 24 horas após a exposição, e a duração da eliminação viral foi prolongada em comparação com a dos gatos inoculados.
De modo diferente aos gatos, os cães não eliminaram o vírus após a infecção, apesar de apresentarem uma resposta de anticorpos neutralizantes antivirais.(14)
Cervos-de-cauda-branca jovens e não infectados foram colocados em contato com animais infectados experimentalmente e excretaram SARS-CoV-2 infeccioso em amostras oronasais 2 dias após o contato.(20)
Em um estudo experimental, swabs orais de pelo menos um cervo adulto não infectado que foi colocado em contato com um indivíduo infectado apresentaram RNA do SARS-CoV-2 detectável de 2 a 4 dias após o contato. A transmissão vertical de SARS-CoV-2 também foi avaliada, e dois dos três fetos de um cervo infectado apresentaram quantidades detectáveis de RNA viral em pelo menos um dos tecidos coletados 4 dias após a infecção.(24)
Saúde pública: a transmissão confirmada de SARS-CoV-2 de animais para seres humanos permanece rara. Evidências com base no sequenciamento mostram a transmissão para seres humanos de um vison na Europa, um cervo no Canadá e um gato na Tailândia.(25,26,27,28)
Após os surtos de SARS-CoV-2 em fazendas de visons na Dinamarca e na Polônia, novas variantes encontradas em visons apareceram subsequentemente na comunidade humana local.(25,29,30) Visons infectados experimentalmente transmitiram o SARS-CoV-2 Ômicron para outros indivíduos por contato.(12) Em Utah, visons selvagens, presumivelmente fugitivos de criadouros domésticos, apresentaram títulos elevados de anticorpos para SARS-CoV-2 após os surtos locais em fazendas de visons, sugerindo uma possível via de transmissão de criadouros domésticos de visons para a vida selvagem nativa.(31,32) Na Espanha, a infecção por SARS-CoV-2 foi detectada em dois visons selvagens capturados na natureza.
Uma nova linhagem altamente divergente de SARS-CoV-2 foi epidemiologicamente associada a um caso humano no Canadá, sugerindo a transmissão de cervos-de-cauda-branca para seres humanos.(27)
Um veterinário na Tailândia desenvolveu infecção por SARS-CoV-2 após receber o espirro de um gato infectado e clinicamente afetado com tutores infectados. A direcionalidade da transmissão de gatos para seres humanos foi comprovada por análises de sequências do genoma viral.
A infecção por SARS-CoV-2 em animais é uma doença que exige notificação à OMSA. Nos Estados Unidos, a definição de caso e os critérios de notificação incluem resultados positivos no ensaio de PCR de transcrição reversa quantitativa (RT-qPCR) com confirmação por sequenciamento a partir de amostras biológicas ou de isolados virais, ou a demonstração de anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2. Os laboratórios nos Estados Unidos e seus territórios são obrigados a notificar todos os resultados positivos ao teste para o Serviço de Inspeção Sanitária Animal e Vegetal (APHIS) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Outros coronavírus de importância médica: em animais, várias espécies de coronavírus estão envolvidas em um amplo espectro da doença em várias espécies de vertebrados.
Entre os coronavírus animais mais comuns são as cepas de vírus da diarreia epidêmica suína que foram associadas a infecções clínicas que variam de sinais respiratórios leves a diarreia e vômitos graves em porcos e Alphacoronavirus 1, envolvido em diarreia e peritonite infecciosa felina em gatos e enterite em cães.(33,34,35)
As cepas de Betacoronavirus 1 do subgênero Embecovirus podem causar sinais respiratórios leves em cães e gado, bem como doença entérica em equinos e bovinos.
Uma espécie recentemente descoberta de DeltacoronavirusCoronavirus HKU15 foi associada ao surto de diarreia em suínos e demonstrou patogenicidade em galinhas e perus.
As cepas de coronavírus aviário podem causar bronquite infecciosa em galinhas, bem como diarreia em galinhas e perus.
As cepas de coronavírus murino pode infectar o cérebro, o fígado e o trato respiratório e pode causar doença aguda e crônica em roedores de laboratório.
Em camelos dromedários, MERS-CoV causa principalmente uma infecção do trato respiratório superior benigna e transitória.
Outros coronavírus foram identificados em ratos e camundongos livres na China, mas infecções clínicas permanecem desconhecidas.
Diversos coronavírus foram observados em morcegos. Mais de 4.000 sequências de coronavírus de 14 famílias de morcegos foram identificadas. Ainda não está claro se as espécies de morcegos são universalmente tolerantes à infecção por coronavírus; no entanto, infecções experimentais mostraram danos leves nos tecidos e não apresentam sinais clínicos evidentes de infecção.
Potencial para vias enzoóticas da evolução de SARS-CoV-2 e outros coronavírus: várias espécies demonstraram a capacidade de disseminar vírus infecciosos em infecções experimentais e, em última instância, atuar como fonte de infecção. As características biológicas e o nível de interação com seres humanos e outros animais geram interesse especial em algumas espécies.
Os cervos-de-cauda-branca demonstraram não apenas a capacidade de transmitir o SARS-CoV-2 horizontalmente para animais e seres humanos em contato, mas também de produzir cepas virais com substituições de aminoácidos no domínio de ligação ao receptor, que ocorrem raramente em seres humanos. A análise genômica de amostras de gânglio linfático retrofaríngeo de indivíduos infectados revelou 12 linhagens de SARS-CoV-2, o que sugere vários eventos de transbordamento zooantroponótico e transmissão entre cervos.(36)
As alterações genômicas foram encontradas nas cepas de SARS-CoV-2 isoladas de visons infectados e são motivo de grande preocupação, podendo indicar diferentes vias enzoóticas para a evolução.(25,37,38)
Novas linhagens altamente divergentes de SARS-CoV-2 detectadas em visons e em veados-de-cauda-branca apareceram posteriormente na comunidade humana local na Dinamarca e no Canadá.(25,27) Essas variantes possivelmente apresentariam maior transmissibilidade e virulência, aumentando a preocupação sobre seu efeito não apenas em seres humanos, mas também em populações de animais não humanos. O estabelecimento de ciclos enzoóticos de transmissão possivelmente resultaria em eventos de transbordamento para outras espécies animais e para a população humana, e, em última instância, gerar cepas recombinantes com vírus animais, resultando em cepas com efeito desconhecido para a saúde animal e pública.(39,40)
Apesar de raro, alguns coronavírus que infectam animais podem ser transmitidos para seres humanos e, em seguida, se disseminar entre eles, como foi demonstrado com o SARS-CoV-2. A detecção de coronavírus animais em seres humanos tem sido continuamente notificada no mundo todo.
Em 2010, as cepas semelhantes a Alphacoronavirus 1, previamente conhecido como coronavírus entérico de felinos, foram detectadas em swabs respiratórios de seres humanos com sinais respiratórios agudos que apresentaram resultado negativo para teste de gripe no Arkansas. A análise das sequências parciais revelou cepas semelhantes a Betacoronavirus 1, previamente conhecidas como coronavírus OC43 humano, sugestiva de coinfecção por Alphacoronavirus 1 e Betacoronavirus 1, ou possível recombinação.(41)
Das 192 amostras humanas coletadas de pacientes hospitalizados com pneumonia na Malásia entre 2017 e 2018, quatro apresentaram RT-PCR positivo para um vírus geneticamente semelhante ao Alphacoronavirus 1, anteriormente conhecido como coronavírus canino.(42)
Um novo Alphacoronavirus recombinante de coronavírus, anteriormente conhecido como coronavírus canino e felino, foi recentemente isolado de amostras respiratórias de um grupo de crianças com pneumonia na Malásia.(43)
Outro estudo encontrou um Deltacoronavirus, que causa diarreia em suínos, galinhas e perus, em amostras de plasma de três crianças haitianas com doença febril aguda indiferenciada.(44)
A descoberta de coronavírus animais e possivelmente recombinantes em seres humanos ressalta a ameaça à saúde pública representada pelos coronavírus animais e a necessidade urgente de fortalecer a vigilância de vírus animais. Apesar do aspecto autolimitante da transmissão entre espécies, a possibilidade de adaptação e geração de vírus recombinantes pode representar uma ameaça de epidemia ou pandemia.
Características clínicas da infecção por SARS-CoV-2 em animais
A infecção clínica por SARS-CoV-2 manifesta-se predominantemente em seres humanos como uma infecção do trato respiratório; no entanto, células de diversos outros sistemas nos quais os receptores ACE2 são abundantes — incluindo os sistemas digestório, muscular, urinário, nervoso e cardiovascular — também podem ser infectadas. Por esse motivo, um amplo espectro de sinais e sintomas clínicos foi relatado em seres humanos infectados por diferentes variantes do SARS-CoV-2, tais como falta de ar, tosse, calafrios, febre, fadiga, dores musculares, desconforto no peito, cefaleia, diarreia, anorexia, náuseas, vômitos, perda do olfato e perda do paladar.
Sinais clínicos semelhantes ocorreram em vertebrados não humanos. As manifestações clínicas em animais podem ser: aumento da temperatura corporal, tosse, espirros, desconforto respiratório, secreção nasal, secreção ocular, vômitos ou diarreia, febre, inapetência e letargia.
Os visons infectados experimentalmente com a variante Ômicron do SARS-CoV-2 desenvolveram letargia, anorexia, diarreia, secreção nasal e lacrimal e espirros.(12) Os indicadores da doença em visons criados comercialmente e naturalmente infectados pelo SARS-CoV-2 em Utah foram, principalmente, morte súbita, anorexia e aumento do esforço respiratório.(31)
Os furões infectados experimentalmente desenvolveram aumento da temperatura corporal, perda de apetite, diminuição da atividade e tosse ocasional.(13,16,45)
Observaram-se aumentos na temperatura corporal em duas espécies de macacos (Macaca fascicularis e Macaca mulatta) e em um sagui, e perda de peso corporal foi notada 10 dias após infecção experimental dos macacos.(17)
A doença clínica foi leve nos macacos-verdes-africanos, e a função respiratória revelou uma diminuição transitória no volume de ar inalado, ou volume corrente, 7 dias após a infecção.(18)
Após a inoculação oronasal de porcos com SARS-CoV-2, um indivíduo desenvolveu sinais clínicos leves e inespecíficos, como tosse e letargia.(46)
Quando infectadas pelo SARS-CoV-2, as musaranhas-arborícolas (Tupaia belangeri), um mamífero da ordem Scandentia que apresenta uma relação genética mais próxima com os primatas do que com os roedores, desenvolveram apenas aumento da temperatura corporal, especialmente as fêmeas.(21)
Observou-se secreções oculares e nasais em cervos-de-cauda-branca infectados experimentalmente, entre 5 e 10 dias após a infecção, e uma leve elevação na temperatura corporal foi observada entre 0 e 3 dias após a infecção.(24)
Como nos seres humanos, a infecção assintomática pode ocorrer em animais. Em um estudo com gatos e cachorros vivendo em casas com casos de COVID-19 no Texas, os responsáveis por animais de estimação relataram sinais clínicos leves da doença, como vômitos, diarreia, letargia e espirros, em 37 de 169 (22%) animais infectados. A porcentagem de animais não infectados com esses sinais clínicos também não foi significativamente diferente (63/356 [18%]), sugerindo parcialmente que esses sinais podem não ser atribuídos à infecção por SARS-CoV-2 (comunicação pessoal).(47)
Achados histopatológicos e pós-morte:em visons naturalmente infectados, pneumonia intersticial aguda foi encontrada em quase todos os visons que morreram no auge dos surtos e foram examinados após a morte. Dano alveolar agudo foi um achado histopatológico consistente em visons que morreram com pneumonia.(23)
No exame histológico de um gato naturalmente infectado que foi submetido à eutanásia, observou-se pneumonia broncointersticial, degeneração e necrose miocárdica aguda e cardiomiopatia hipertrófica leve.(48)
Muitas outras espécies infectadas experimentalmente por SARS-CoV-2 desenvolveram alterações patológicas, principalmente no trato respiratório.
A necropsia de macacos e babuínos infectados experimentalmente revelou que os pulmões foram o órgão mais afetado. Observou-se inflamação mononuclear intersticial multifocal mínima a leve, em geral composta por macrófagos e linfócitos que expandiam os septos alveolares com infiltrados variáveis de neutrófilos ou fibrose. No mesmo estudo, observou-se pneumonite intersticial e alveolar em saguis, apesar de não ser tão prevalente quanto em macacos ou babuínos. As alterações patológicas foram de moderadas a graves em babuínos, moderadas em macacos e leves em saguis idosos.(49)
Em camundongos transgênicos que expressam o receptor ACE2 humano, o diagnóstico histopatológico comum foi pneumonia intersticial com infiltração proeminente de células inflamatórias ao redor dos bronquíolos e vasos sanguíneos.(50)
Alguns coelhos infectados experimentalmente desenvolveram aumento do tamanho de linfonodos traqueobrônquicos, compatíveis com hiperplasia linfoide leve.(51)
No trato respiratório de cervas-de-cauda-branca prenhes infectadas, observou-se rinite linfocítica e neutrofílica multifocal leve a moderada, traqueíte erosiva a supurativa e bronquite erosiva com peribronquiolite mista. Bronquíolos e vasos sanguíneos foram delimitados por linfócitos perivasculares e peribronquiolares, histiócitos e alguns neutrófilos; também foi observada amigdalite erosiva leve. Os pulmões fetais ocasionalmente continham focos intrabronquiais e intrabronquiolares de células escamosas; no entanto, não foi detectado nenhum antígeno viral nos pulmões fetais ou na placenta.(24)
Estudos patológicos em furões infectados experimentalmente revelaram perivasculite e vasculite linfoplasmocitária graves, bem como peribronquite leve nos pulmões.(16)
Nas necropsias de cães-guaxinins (Nyctereutes procyonoides), identificou-se rinite leve afetando as regiões respiratória e olfativa em todos os animais infectados experimentalmente. As lesões histopatológicas indicativas de replicação de SARS-CoV-2 foram encontradas nas conchas nasais.(52)
Lesões macroscópicas não foram observadas em nenhum cão ou gato infectado experimentalmente. Histologicamente, observou-se rinite linfoplasmocítária ulcerativa e supurativa moderada nas conchas nasais, juntamente com traqueíte linfoplasmocitária leve em gatos.(14)
Infecções naturais: várias espécies de mamíferos selvagens e domésticos foram infectadas naturalmente pelo SARS-CoV-2 em todo o mundo. De modo mais comum, a doença nesses animais foi, em sua maioria, assintomática ou leve. Em situações raras, algumas espécies podem desenvolver sinais clínicos de infecção de moderados a graves.(45) Das 19 espécies de vertebrados relatadas como infectadas pelo SARS-CoV-2 em todo o mundo até março de 2022 (OIE, 2022b), a infecção clínica grave foi principalmente restrita ao vison e, em raras ocasiões, a indivíduos com quadros clínicos subjacentes.
A maioria das espécies selvagens possivelmente infectadas são animais de cativeiro em zoológicos. Acredita-se que foram expostos a funcionários ou visitantes infectados. Entre os animais de zoológico relatados como infectados pelo SARS-CoV-2 estão grandes felinos, como o tigre-malaio (Panthera tigris jacksoni), o leão (Panthera leo), o leopardo-das-neves (Panthera uncia), o gato-pescador (Prionailurus viverrinus), o lince-euroasiático (Lynx lynx), o lince-canadense (Lynx canadensis) e a puma (Puma concolor), bem como outros grupos, como o gorila, a hiena-malhada, o quati, o binturongue, a lontra e o hipopótamo.
A infecção natural de grandes felinos confinados causou sinais clínicos de letargia, anorexia e sinais respiratórios anormais. Além disso, gorilas expostos em zoológicos desenvolveram sinais respiratórios leves, como tosse e congestão.(53) Em março de 2020, quatro tigres e três leões no Zoológico do Bronx, em Nova Iorque, desenvolveram sinais respiratórios leves e anormais causados pela infecção por SARS-CoV-2. O isolamento do vírus foi positivo no líquido de lavagem da traqueia de um tigre e nas amostras fecais de um tigre e um leão.
Em animais de estimação, relatou-se indivíduos naturalmente expostos com sinais clínicos leves. Um estudo de vigilância ativa conduzido no Texas, envolvendo 17 cães e gatos com infecção por SARS-CoV-2 confirmada, constatou que 14 não desenvolveram sinais clínicos, enquanto os demais apresentaram letargia ou espirros.(54) Na mesma vigilância, a coleta repetida de amostras de cães e gatos positivos para SARS-CoV-2 mostrou persistência do RNA viral por pelo menos 25 dias após o teste inicial, e o SARS-CoV-2 infeccioso foi isolado com sucesso de swabs respiratórios de dois gatos naturalmente infectados.(54,55) O isolamento de SARS-CoV-2 infeccioso também foi relatado em cães.(56)
Eventos excepcionais envolvendo doenças mais graves foram relatados principalmente em visons em cativeiro (N. vison), e em raras circunstâncias também em gatos e cães domésticos. Surtos de SARS-CoV-2 ocorreram em criações comerciais de vison e foram associadas com taxas elevadas de mortalidade em vison:
Em Utah, a infecção foi transmitida rapidamente entre animais criados em casa e comercialmente de maneira independente, causando doença respiratória grave e morte.
Nos Países Baixos, SARS-CoV-2 causou surtos de doença respiratória com aumento nas taxas de mortalidade em criações comerciais de vison. Dano alveolar agudo foi um achado histopatológico sugestivo em visons que morreram com pneumonia
Na Dinamarca, SARS-CoV-2 foi transmitida rapidamente entre visons criados comercialmente, resultando em doença respiratória.
A infecção por SARS-CoV-2 foi associada a miocardite no Reino Unido e na França.
Outra espécie em que se demonstrou suscetibilidade elevada à infecção por SARS-CoV-2 e capacidade confirmada de transmitir SARS-CoV-2 a outros animais é o veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus). Encontrou-se uma soroprevalência elevada da infecção por SARS-CoV-2 em cervos-de-cauda-branca selvagens, os quais também se mostraram suscetíveis a várias linhagens do SARS-CoV-2. Uma série de estudos demonstrou que praticamente todos os cervos-de-cauda-branca em cativeiro em uma unidade de criação de cervos apresentavam anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2, e a análise retrospectiva das amostras revelou que todos os cervos apresentaram soroconversão ao mesmo tempo e mantiveram os anticorpos neutralizantes por pelo menos 13 meses.
Em raras circunstâncias, o SARS-CoV-2 pode causar doença grave ou contribuir para morte de animais. Nos Estados Unidos, suspeitou-se que o SARS-CoV-2 tenha contribuído para a gravidade dos sinais clínicos que levaram à eutanásia de um cão e que tenha sido a principal causa da morte de um gato.
Estudos de infecção experimental: estudos de infecção experimental definiram a capacidade de vários táxons de vertebrados não humanos de serem infectados e disseminarem vírus infecciosos. Também foram essenciais para a identificação de espécies que não são suscetíveis a infecções em condições experimentais.
Diversas ordens de mamíferos, como Primates, Carnivora, Rodentia, Lagomorpha e Chiroptera, são suscetíveis à infecção natural ou experimental pelo SARS-CoV-2. Até 31 de março de 2022, 35 países nas Américas, na África, na Ásia e na Europa relataram à Organização Mundial da Saúde Animal 669 surtos de SARS-CoV-2 em 20 espécies animais. Espécies não humanas com capacidade demonstrada de disseminar SARS-CoV-2 infeccioso, com base em infecções experimentais e naturais, até março de 2022, incluem as seguintes:
Rato-de-cauda-espinhosa (Neotoma cinerea)
Gato (Felis catus domesticus)
Rato-veadeiro (Peromyscus maniculatus)
Cão (Canis familiaris)
Morcegos-da-fruta-egípcios (Rousettus aegyptiacus)
Furão (Mustela putorius)
Hamster-sírio (Mesocricetus auratus)
Leão (Panthera leo)
Vison (Neogale vison)
Porco (Sus scrofa)
Coelho (Oryctolagus c. domesticus)
Cão-guaxinim (Nyctereutes procyonoides)
Raposa-vermelha (Vulpes vulpes)
Doninha-fedorenta (Mephitis mephitis)
Tigre (Panthera tigris)
Cervo-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus)
Os grupos de espécies com capacidade de disseminar o SARS-CoV-2 infeccioso são aqueles que demonstraram transmitir o vírus por contato ou nos quais o vírus foi isolado a partir de infecções naturais ou experimentais.
Espécies não humanas sem capacidade demonstrada de disseminar SARS-CoV-2 infeccioso, com base em infecções experimentais e naturais, até março de 2022, incluem as seguintes:
Cão-da-pradaria-de-cauda-preta (Cynomys ludovicianus)
Galinha (Gallus domesticus)
Coelho-da-Flórida (Sylvilagus floridanus)
Coiote (Canis latrans)
Pato (Anas platyrhynchos domesticus)
Esquilo-raposa (Sciurus niger)
Camundongos domésticos (Mus musculus)
Guaxinim (Procyon lotor)
Esquilo-terrestre-de-Wyoming (Urocitellus elegans)
Apesar de ser improvável que desenvolvam doença clínica, gatos infectados experimentalmente demonstraram ser altamente suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2 e capazes de transmitir o vírus para outros gatos em condições de laboratório, seja por contato direto ou indireto.
Visons infectados experimentalmente com o SARS-CoV-2, variante Ômicron desenvolveram sinais clínicos e transmitiram o vírus para receptores não infectados.(12)
A função dos animais de produção domésticos e os riscos associados para os seres humanos em contato próximo com animais destinados à produção de alimentos também foram investigados em relação ao SARS-CoV-2. Quando infectados com SARS-CoV-2, coelhos excretaram vírus infeccioso pelo nariz e pela garganta.(51) Em porcos, os resultados dos estudos de infecção experimental variaram, e acredita-se que a diferença nos resultados esteja relacionada à dose infecciosa, ao isolado viral, à idade e à raça ou colônia de suínos usada em cada experimento.
Em um estudo, após inoculação oronasal com 106 unidades formadoras de placas (UFP) de SARS-CoV-2 em 16 suínos, o RNA viral foi detectado em líquidos orais e na lavagem nasal de dois suínos; o vírus infeccioso foi isolado de um suíno; dois animais apresentaram soroconversão, conforme determinado com base no título de neutralização por redução de placa em 70% (PRNT70); e um porco desenvolveu sinais clínicos leves e inespecíficos, como tosse e letargia.(46) Em outros dois estudos, entretanto, porcos infectados experimentalmente não apresentaram evidências de RNA viral ou anticorpos neutralizantes.(16,19) Em bezerros de leite, a infecção experimental demonstrou replicação viral, embora sem infecção entre os animais em contato.(57)
Em um estudo realizado na China, não se detectou nenhum RNA viral em swabs orofaríngeos em cães, galinhas ou patos, e apenas metade dos cães soroconverteram.(16) Em outros estudos experimentais, galinhas e patos não foram suscetíveis à infecção por SARS-CoV-2. Apesar das evidências de isolamento do SARS-CoV-2 em infecções naturais, aparentemente os cães com infecções experimentais não permitem a replicação viral e não eliminam o vírus na mesma proporção que os gatos.
Várias espécies de animais selvagens foram infectadas experimentalmente. Um estudo de infecção experimental em cervos-de-cauda-branca mostrou que o SARS-CoV-2 pode ser transmitido por contato direto, bem como verticalmente, da fêmea para o feto. O vírus infeccioso pôde ser isolado de amostras de swabs nasais e retais até uma semana após a infecção, e o RNA viral pôde ser detectado até 22 dias após a infecção.(24,58)
A replicação eficiente do SARS-CoV-2, com isolamento e transmissão do vírus para todos os animais em contato direto, também foi observada em furões (Mustela putorius furo). O isolamento do vírus foi bem-sucedido a partir de lavagens nasais coletadas nos dias 2 e 4 após a infecção, e o RNA viral foi detectado até 21 dias após a infecção. No mesmo estudo, morcegos-da-fruta-egípcio (Rousettus aegyptiacus) infectados experimentalmente transmitiram SARS-CoV-2 para animais em contato direto e apresentaram isolamento de vírus infeccioso nas conchas nasais e na traqueia no dia 2 após a infecção.(19)
Entre os primatas não humanos, macacos Rhesus (Macaca mulatta), babuínos (Papio hamadryas) e sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus) foram infectados por várias vias (ocular, intratraqueal e intranasal) com dose alvo de aproximadamente 106 UFP de SARS-CoV-2. O RNA viral foi detectado precocemente em todas as espécies, 3 dias após a infecção, e diminuiu posteriormente em taxas variáveis.
Os macacos Rhesus apresentaram sinais clínicos de infecção viral, pneumonite leve a moderada e doença extrapulmonar. Os babuínos apresentaram liberação prolongada de RNA viral e inflamação pulmonar substancialmente maior, em comparação com os macacos. Os saguis tiveram uma leve infecção.
O desconforto respiratório agudo em macacos e babuínos reproduz a progressão da COVID-19 em seres humanos. Não foi detectado RNA subgenômico do SARS-CoV-2 em amostras pulmonares de macacos e babuínos.(49)
Demonstrou-se que cães-guaxinins (Nyctereutes procyonoides) são suscetíveis à infecção por SARS-CoV-2; eles não desenvolveram sinais clínicos de doença e transmitiram o vírus para animais com contato direto, (52) o que corrobora a hipótese de que os cães-guaxinins poderiam ter sido os hospedeiros intermediários do SARS-CoV-2.(1)
Os furões apresentam infecções no trato respiratório superior causadas pelo SARS-CoV-2, que se assemelham a uma infecção subclínica em seres humanos, com resultados diferentes quanto à eficiência da transmissão.(16,19)
Raposas-vermelhas (Vulpes vulpes) inoculadas experimentalmente foram infectadas e eliminaram o vírus em secreções orais e respiratórias.(59)
Várias espécies peridomésticas comuns na América do Norte, como rato-veadeiro (Peromyscus maniculatus), rato-de-cauda-espinhosa (Neotoma cinerea) e doninha-fedorenta (Mephitis mephitis) também são suscetíveis à infecção experimental por SARS-CoV-2 e podem liberar o vírus nas secreções respiratórias. Nenhum dos animais desenvolveu sinais clínicos da doença em nenhum momento ao longo do estudo. Não se observou elevação da temperatura ou alteração no comportamento em nenhum dos animais incluídos no estudo.(60)
Rato-veadeiro liberou vírus por via oral por até 4 dias após a infecção, e o vírus foi isolado dos pulmões e da traqueia de animais testados 3 dias após a infecção. Rato-de-cauda-espinhosa liberou vírus via oral por menos de 5 dias após a infecção e apresentou vírus isolado das conchas nasais, traqueia e pulmão 3 dias após a infecção. Doninhas-fedorentas liberaram vírus por via oral, nasal ou ambas, e, das três doninhas submetidas à necropsia 3 dias após a infecção, duas apresentaram vírus infeccioso nas conchas nasais.(60)
Por outro lado, coelho-da-Flórida (Sylvilagus floridanus), esquilo-raposa (Sciurus niger), esquilo-terrestre-de-Wyoming (Urocitellus elegans), cão-da-pradaria-de-cauda-preta (Cynomys ludovicianus), camundongo doméstico (Mus musculus), guaxinim (Procyon lotor) e coiote (Canis latrans) não foram suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2.(59,60)
Diagnóstico da infecção por SARS-CoV-2 em animais
Direta: amostras por swab
Indireta: testes de neutralização
As ferramentas e os protocolos de diagnóstico usados para detectar a infecção por SARS-CoV-2 em animais são semelhantes ao algoritmo usado para detectar infecções atuais e passadas em seres humanos. Os exames laboratoriais têm como base o diagnóstico direto da infecção aguda, principalmente por meio da detecção do RNA do SARS-CoV-2 ou do isolamento do vírus em amostras de swab do trato respiratório ou swabs retais, e o diagnóstico indireto da infecção em fase convalescente, por meio da detecção de anticorpos específicos em amostras de soro. As amostras biológicas do trato respiratório são swabs nasofaríngeos ou orofaríngeos, escarro, aspirados do trato respiratório inferior, lavado broncoalveolar e lavagem ou aspirado nasofaríngeo ou aspirado nasal.
O padrão-ouro para o diagnóstico sorológico do coronavírus é o teste de neutralização, com a neutralização viral (VNT), os testes de neutralização por redução de placas (PRNT) e a microneutralização. Os testes de neutralização são altamente específicos e são usados para confirmar a presença de anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2. Amostras de soro ou plasma são inativadas pelo calor e testadas quanto à sua capacidade de neutralizar o efeito citopático (VNT) ou a formação de placas de lise (PRNT) pelo SARS-CoV-2 infeccioso.
Os testes são projetados para simular a interação entre o vírus e a célula hospedeira em placas de cultura celular. Essas abordagens normalmente exigem uma instalação de contenção de nível de biossegurança 3 (BSL-3) e equipe altamente treinada. Como a possível circulação de coronavírus animais pode gerar anticorpos neutralizantes com reação cruzada, prefere-se um limiar conservador de pelo menos 90% para a detecção de anticorpos neutralizantes no teste PRNT.
Uma alternativa ao VNT e ao PRNT é um teste que utiliza vírus, como lentivírus e vesiculovírus, que expressam a proteína viral de interesse. Um teste de neutralização viral baseado em pseudovírus (pVNT) não utiliza SARS-CoV-2 infeccioso; sua principal vantagem é que pode ser realizado em instalações BSL-2. Essas técnicas que têm como base a cultura de células são independentes da espécie e podem ser usadas para investigar anticorpos neutralizantes em diversos táxons animais.
Durante a pandemia de COVID-19, foram desenvolvidos kits comerciais de teste substituto de neutralização viral (sVNT) para o SARS-CoV-2. Esses kits detectam anticorpos neutralizantes sem a necessidade de usar vírus ou células infecciosas ou ativas, por meio do uso do domínio de ligação ao receptor (RBD) purificado da proteína spike (S) viral do SARS-CoV-2 e do receptor ACE2 da célula hospedeira. Como não utilizam vírus infecciosos, esses testes podem ser realizados em instalações BSL-2.
Testes sorológicos alternativos foram utilizados para investigar a resposta humoral de animais à infecção por SARS-CoV-2. Eles incluem abordagens de ELISA internos ou comerciais, projetadas para serem específicas para determinadas espécies e normalmente utilizadas como testes de triagem para detectar anticorpos contra as proteínas mais conservadas do SARS-CoV-2.
Prevenção de infecção por SARS-CoV-2 em animais
Prevenir a transmissão do SARS-CoV-2 de seres humanos para animais envolve medidas de biossegurança e higiene. Seres humanos com suspeita ou confirmação de infecção por SARS-CoV-2 devem restringir o contato com animais, inclusive animais de estimação, da mesma forma que fariam com outros seres humanos durante o período da doença. Recomenda-se usar máscara na presença de um animal. Animais com suspeita ou confirmação de infecção por SARS-CoV-2 devem permanecer separados de outros animais e seres humanos enquanto estiverem infectados.
Após a identificação, em setembro de 2020, de uma nova variante do SARS-CoV-2 originada em visons em uma comunidade humana, 17 milhões de visons foram abatidos na Dinamarca. Essa medida foi implementada pelo governo da Dinamarca por receio de que novas variantes, possivelmente mais virulentas, do SARS-CoV-2 pudessem surgir e ser transmitidas mundialmente.
Devido à sua suscetibilidade, algumas espécies animais estão sendo usadas como modelos para testar vacinas para uso em seres humanos, e algumas vacinas animais já estão sendo administradas. Vacinas contra o SARS-CoV-2 para uso em visons e outras espécies animais suscetíveis foram administradas por diversos países em fazendas e zoológicos (OIE, 2022a). A primeira vacina desenvolvida para animais foi criada pelo Serviço Federal Russo de Vigilância Veterinária e Fitossanitária para carnívoros. Com base nos resultados relatados nos ensaios clínicos, sugeriu-se que a vacina, que é uma vacina de vírus inativado, era segura e capaz de produzir imunidade em todos os animais incluídos no estudo.
Em julho de 2021, uma empresa farmacêutica veterinária comercial anunciou a doação de milhares de doses de uma vacina experimental contra o SARS-CoV-2.
Orangotangos e bonobos em cativeiro no Zoológico de San Diego, nos EUA, tornaram-se os primeiros primatas não humanos a receber uma vacina experimental contra a COVID-19. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e os veterinários estaduais autorizaram o uso experimental da vacina, caso a caso.
Está sendo desenvolvida uma vacina candidata para animais não humanos, para ser utilizada em gatos. A vacina recebeu aprovação regulatória do USDA para prosseguir para ensaios clínicos com o objetivo de avaliar a segurança e a imunogenicidade da vacina em gatos domésticos. A vacina foi administrada em algumas criações comerciais de visons para gerar dados sobre a segurança e a eficácia necessárias para a aprovação condicional pelo USDA.
Animais de zoológico vacinados posteriormente tiveram resultado positivo para SARS-CoV-2.
Controle da infecção por SARS-CoV-2 em animais
O SARS-CoV-2 e outros coronavírus humanos e animais apresentam uma persistência notavelmente curta em cobre, látex e superfícies com baixa porosidade, em comparação com aço inoxidável, plásticos, vidro e tecidos altamente porosos. Dependendo da carga viral inicial e das condições ambientais, o SARS-CoV-2 pode persistir em superfícies como plástico, aço inoxidável ou vidro por 3 a 7 dias; coronavírus humanos como o SARS, o MERS e coronavírus humanos endêmicos podem persistir por até 9 dias. Em condições experimentais, o SARS-CoV-2 permaneceu viável no ambiente após a aerossolização por pelo menos 3 horas. Determinados coronavírus persistem em excrementos humanos, esgoto e água por vários dias.
Os coronavírus permanecem ativos por mais tempo no ambiente em temperaturas e umidade relativa mais baixas. Foi encontrado que o SARS-CoV-2 permanece infeccioso por 14 dias a 4 °C, mas por apenas 2 dias a 20 °C em água de esgoto. Temperaturas mais elevadas (por exemplo, 30° ou 40 °C) diminuem a duração da persistência do MERS-CoV e de coronavírus veterinários, como os alfacoronavírus e betacoronavírus, anteriormente conhecidos como vírus da gastroenterite transmissível e vírus da hepatite murina.
Experimentalmente, soluções de etanol em concentrações de 62% a 75% diminuíram a infectividade do SARS-CoV-2, SARS-CoV e MERS-CoV dentro de 1 minuto de exposição; no entanto, uma solução a 70% levou mais de 10 minutos para diminuir o título de alfacoronavírus e betacoronavírus. Soluções de hipoclorito de sódio a 0,1% a 0,5% e glutaraldeído a 2% também se mostraram bastante eficazes na redução do título viral.
O SARS-CoV-2 é inativado com menor eficácia por cloreto de benzalcônio a 0,05% a 0,2% ou digluconato de clorexidina a 0,02%.
Tratamento da infecção por SARS-CoV-2 em animais
A Agência Reguladora de Medicamentos e Alimentos dos EUA (FDA) não aprovou nenhum medicamento para o tratamento da infecção por SARS-CoV-2 em animais. O Centro de Serviços Veterinários para Produtos Biológicos Veterinários do Serviço de Inspeção Sanitária Animal e Vegetal (APHIS) do USDA regulamenta os produtos biológicos veterinários, como vacinas, kits de diagnóstico e outros produtos de origem biológica. Em circunstâncias especiais, animais de zoológico foram tratados experimentalmente com anticorpos monoclonais, semelhantes aos tratamentos administrados a seres humanos. Contudo, a recomendação da FDA é prevenir a transmissão do SARS-CoV-2 de seres humanos para animais por meio de medidas de biossegurança e higiene.
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